Transcrição da reunião com ministros mais complica do que confirma a tese de Bolsonaro

Jair Bolsonaro reza com apoiadores no Palácio do Alvorada em Brasilia. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

A Advocacia Geral do presidente, aliás, da União, entregou ao Supremo Tribunal Federal a transcrição da reunião de Jair Bolsonaro com seus ministros em que, agora, pode-se ler: 

“Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações; a Abin tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente... temos problemas... aparelhamento, etc. A gente não pode viver sem informação. Quem é que nunca ficou atrás da... da... da... porta ouvindo o que o seu filho ou a sua filha tá comentando? Tem que ver pra depois... depois que ela engravida não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, não adianta mais falar com ele: já era. E informação é assim. Então essa é a preocupação que temos que ter: "a questão estratégica". E não estamos tendo. E me desculpe o serviço de informação nosso - todos - é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá pra trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade”.

Cinquenta minutos depois, Bolsonaro voltou ao assunto:

“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar, se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”.

Não se sabe ainda o que aconteceu entre uma fala e outra. Nem antes nem depois.

Mas a seleção parece ter sido feita sob medida para quem acha que o presidente é alvo de uma perseguição sempre injusta e apenas reagiu como qualquer pai de família, ou chefe de verdade, faria.

Ele é o presidente, afinal, e havia entre eles (Judas?) quem se negava a fornecer informações. 

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A menção à palavra interferência pode levar à interpretação de que Bolsonaro pensava na segurança nacional, na “questão estratégica” e na antecipação de problemas que, segundo esta versão, não estavam sequer à mesa quando decidiu declarar guerra ao Sergio Moro no meio de uma pandemia (13 mil mortos e dois ministros da Saúde na frigideira por causa da cloroquina em menos de um mês).

Junto com a palavra seguinte, com uma menção (ou ato falho, aqui providencial) a segurança, Bolsonaro se coloca no papel que todo seguidor acredita que de fato ele encarne: o da vítima, a autoridade que se rebela contra o sistema e é sistematicamente boicotado por forças nebulosas.

Aqui, sem querer, ele transforma a Polícia Federal em parte dessa engrenagem persecutória no caminho da salvação. Depois da mordida, assopra em público com uma máscara em alusão à corporação dizendo que ela agora pertence ao Brasil -- para na sequência se desmentir de novo e dizer que ela sempre foi independente.

A estratégia da defesa é uma tentativa de jogar na vala comum do descrédito a acusação subliminar de Sergio Moro sobre o que de fato incomodava o presidente. 

É só reprisar as cenas dos capítulos seguintes. 

No Twitter, Bolsonaro decretou “game over” diante das conversas reveladas pelo jornal Nacional entre a deputada Carla Zambelli e seu padrinho de casamento. “Fica claro que, com a possível revogação do decreto de exoneração, qualquer ‘interferência’ por parte do Presidente deixaria de existir”, elaborou Bolsonaro.

Foi seguido pelo filho Carlos, para quem Moro “entregou conversas privadas para a Globo com sua afilhada, que nada comprovou a não ser sua índole”.

Bolsonaro voltou à carga em entrevista coletiva no dia seguinte, dizendo que na transcrição estavam apenas as letras P e F. “Tem a ver com a Polícia Federal, mas é reclamação ‘PF’, no tocante ao serviço de inteligência.”

Só faltou dizer que se referia a Prato Feito. Ou Porto Feliz, como lembrou um amigo portofelicense.

Em política, é conhecida a conversa de que em Brasília quem tem mais cara de bobo é capaz de consertar relógio com luva de boxe no escuro. Outros querem ser mais espertos que a sombra e acabam engolidos.

Entre mensagens cifradas, naquele jeito manso, Moro deu o caminho das pedras para o centro do assunto da reunião ministerial. O assunto tinha duas letras. P e F.

É o que Bolsonaro acaba de admitir.

“Vou interferir. Ponto final”, disse Bolsonaro aos ministros.

Na sequência, fez exatamente o que Moro disse que iria fazer: mudou o comando do órgão e a superintendência da PF no Rio.

Em suas redes, o ex-aliado reclamou da disparidade entre as armas: a defesa não tem acesso ao vídeo; a AGU tem e está alterando os contextos.

Na sequência, desafiou. Disse que a transcrição parcial reforça apenas a tese do presidente e só demonstra a “necessidade urgente de liberação da integralidade do vídeo”.

Bolsonaro até tentou dar o ponto final. Mas a guerra de versões está longe de acabar.


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