A tradição oral pode apontar o futuro, diz Edimilson de Almeida Pereira na Flip 2021

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No segundo dia da programação da Flip 2021, Micheliny Verunschk, poeta e romancista elogiada por "O Som do Rugido da Onça", publicado este ano pela Companhia das Letras, conversou com o franco-senegalês David Diop, autor que venceu o prêmio International Booker por "Irmão de Alma", que saiu no Brasil pela editora Nós.

O debate entre os autores, que pautam a violência colonial, foi centrada numa série de coincidências entre seus romances mais recentes —Verunschk aborda o desterramento de crianças indígenas no Brasil e Diop fala da participação de soldados da costa ocidental africana na Primeira Guerra Mundial. A mediação da conversa foi de Milena Britto.

Diop, criado no Senegal, afirmou que ele usa a língua francesa para acolher um horizonte cultural que é estranho à própria língua. "Para que exista essa acolhida, eu moldo essa língua para que ela seja capaz de integrar esse horizonte", disse ele.

"É curioso como o português falado no Brasil é uma conjunção de várias línguas que correm nesse rio da linguagem, ora por cima, ora por baixo", afirmou a escritora pernambucana. "E as línguas indígenas são essa força de correnteza que impulsiona essa língua naquilo que o Guimarães Rosa vai chamar de a terceira margem. Ela está ali por baixo, e nós não a conhecemos."

Para a escritora, inserir as línguas de povos originários em "O Som do Rugido da Onça" significava trazer à tona elementos que já estão no português. "A força poética dessa linguagem e desses vocabulários acabam sendo um grande motor propulsor do romance", disse ela.

Foram tema da mesa também a atuação de Verunschk como historiadora e a de Diop enquanto especialista em textos do século 18.

"Os documentos não são a verdade, eles se arrogam de portadores da verdade. No caso de todos que são relativos ao rapto das crianças indígenas e a levada delas para a Alemanha, todos são rasurados. Então, se todos são rasurados, todos são ficções", explicou a escritora sobre sua relação com os diários de viagem e documentos. "Precisamos ver esses documentos não como um espelhamento de uma verdade."

Já o protagonista do romance de Diop é Michel Adanson, um naturalista europeu que foi inspirado num personagem real. Ele afirmou que, em seu livro, quis levar Andanson para o Senegal para que ele encontrasse uma mulher com uma representação de um mundo diverso —e que não quer se apropriar da natureza.

"O trabalho de escrita, assim como o meu, é um trabalho sobre, no fundo, uma recriação de vozes que se calaram, que não puderam se expressar, ou que nós calamos há muito tempo", afirmou o escritor.

Com a literatura, disse ele ainda, é possível dar mais espessura à história oficial. "Ela, com frequência, trabalha em massas, grupos, representações de indivíduos num conjunto. A literatura pode extrair desses conjuntos indivíduos, tornando-os suficientemente tocantes", afirmou.

"Portanto, eu tenho uma relação com a história que é uma relação de liberdade."

Os dois autores também refletiram sobre questões políticas que permeiam seus romances. "O mundo político é um atravessamento nas nossas vidas e, mais recentemente, aqui no Brasil, também das nossas mortes", disse a escritora brasileira.

"Eu também não faço uma escrita militante", afirmou ela em relação à colocação anterior de Diop, "mas, ocasionalmente, o tema político atravessa a vida dos meus personagens".

A mesa "Folha e Verbos", transmitida às 18h, reuniu os escritores Edimilson de Almeida Pereira —que venceu esta semana o prêmio São Paulo de literatura pelo romance "Front", da editora Nós— e a francesa Véronique Tadjo, de origem marfinense. A conversa foi mediada pela escritora e jornalista Joselia Aguiar, que foi curadora da Flip entre 2017 e 2018.

No livro "Na Companhia dos Homens", ainda não publicado no Brasil, Tadjo conta o massacre de uma aldeia pelo ponto de vista de um baobá, enquanto os poemas de Pereira também trazem a conexão da ancestralidade negra com o mundo vegetal.

No caso da francesa, a estrutura de múltiplas vozes em seu livro mistura pesquisa em campo e invenção a partir da tradição oral da África Ocidental para trazer uma visão diferente daquela divulgada pela imprensa sobre a região durante a epidemia de ebola, que durou entre 2013 e 2016.

"Era preciso mergulhar na tradição oral, uma linguagem que todos conhecem, que é universal e local ao mesmo tempo. É uma tradição de liberdade, as árvores e os animais falam, a natureza se expressa", disse ela.

Pereira também destacou a pesquisa como uma forma de entender uma espécie de árvore genealógica no Brasil que se estende por diversas famílias, imaginários que desembocam, por exemplo, em ritualísticas curativas perpetuadas pela oralidade.

"Quando essas ladainhas não são escritas, elas correm o risco do desaparecer. E agora, tudo isso pode, como aponta [a liderança indígena] Ailton Krenak, culminar no que era considerado arcaico tornar-se o contemporâneo, o futuro", lembrou o escritor.

Essa visão também se estende ao entendimento da diáspora e do tráfico de pessoas escravizadas como um processo internacional. "Só agora começamos a tomar consciência do que foi o processo escravocrata do país", disse, afirmando que ainda há dificuldade de encaixar as tradições brasileiras em um cenário da diáspora transcontinental.

Tadjo —que também organizou um volume com trabalhos de poetas da negritude de diversos países— citou a importância de resgatar a literatura anterior aos períodos colonial.

"Estamos aqui como uma continuação, em uma harmonia que nos permite comunicar e ter coisas em comum. A poesia é um gênero que permite que o imaginário se expresse fortemente", afirmou.

Pereira —que também é poeta e têm enveredado pela ficção— também acredita que, ao adotar o lançamento simultâneo de diversos livros, como fez recentemente, ele também remete à pluralidade de origens e vozes que a tradição africana incorpora, se distanciando da tradição clássica europeia.

"Front", em particular, trouxe a imagem de um homem-árvore, que teria inspiração no conceito do "pensamento Liana".

"Assim como os cipós se enredam de diferentes maneiras na floresta, o pensamento afrodiaspórico", apontou ele, "também tem múltiplas heranças e múltiplas formas de se expressar. Daí surge a ideia do homem-planta, cujas raízes são aéreas, e estão sempre em um processo de chegada e partida, em uma viagem que não se fecha". Essa imagem, por sua vez, se conectaria ao estereótipo do hábil dançarino de black power.

Em paralelo, ambos os autores trabalham em literatura infantil. Nela também, Tadjo —que também é ilustradora— busca resgatar a importância de histórias orais no complexo jogo de texto e imagem.

"É muito importante que os jovens leiam o mais cedo possível, e que leiam livros nos quais se reconheçam", aponta ela. "Como ser um leitor adulto sem ter a cultura da literatura desde a infância?". Nesse sentido, a autora também herdou dotes da mãe, que foi pintora e escultora.

"O futuro está no imaginário. Portanto é preciso que sejamos capazes de inventar um futuro em que vamos encontrar o nosso lugar", concluiu ela.

Pereira lembra também do poder dos livros na escola para a aquisição da linguagem e do aprendizado oral e escrito. "Além do reconhecimento cultural, a educação para os jovens forma o leitor e direciona o gosto dos futuros leitores".

"Nós temos uma tradição literária muito consolidada, mas ainda havia alguns temas intocados. Como falar da violência e do tráfico de escravos?", resumiu ele, afirmando que considera essa modalidade literária como um desafio estimulante e complexo.

As 19 mesas da programação, que se estendem por nove dias seguidos até 5 de dezembro, poderão ser vistas gratuitamente pelo canal do YouTube da Flip.

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