Entenda o movimento que uniu torcedores de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo pela democracia em SP

Por Caio Castor, Flávio Galvão e Pedro Ribeiro Nogueira

Uma manifestação convocada por torcidas antifascistas terminou em repressão da Polícia Militar na tarde deste domingo (31/5), na avenida Paulista, região central de São Paulo. Os membros de torcidas organizadas dos principais clubes paulistas, além de diversos apoiadores e manifestantes contra as políticas do governo federal, saíram nas ruas pela democracia. No início do protesto, houve desentendimento com grupo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e, em seguida, bombas por parte da PM.

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“O Brasil tem passado por uma escalada autoritária. A gente vê manifestações que exaltam a tortura, o estupro, os desaparecimentos da ditadura militar, além de agredirem profissionais da saúde, jornalistas, e isso nos revolta. A gente vê nossos lutos, a morte de mais de 30 mil brasileiros sendo ridicularizada”, disse o estudante corintiano Danilo Pássaro, 27 anos, do Movimento Somos Democracia, um dos organizadores do ato, para explicar o motivo da manifestação.

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Já a militante Fernanda Hernandes, do movimento Revolução Brasileira, acredita que “todos os dias o sistema democrático de direito e os movimentos sociais estão sendo atacados, e o povo tem o direito de ir às ruas para tomar decisões”.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, 200 policiais militares de batalhões territoriais e especializados, como Baep (Batalhão de Ações Especiais), Choque e de Trânsito, foram deslocados para acompanhar a manifestação.

O ato antifascista começou por volta das 12h, no vão livre do Masp, e registrou presença de torcedores do Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras. Cerca de duas horas depois, os torcedores encontraram com bolsonaristas que também se manifestavam na avenida Paulista em apoio ao presidente. Houve desentendimento entre os grupos e a PM usou bombas.

Uma das bombas usadas pela Polícia Militar logo no início dos protestos acertou a perna do repórter Fernando Bezerra, da Agência EFE, provocando um ferimento. Além do jornalista, o palmeirense Gabriel Santoro, que participou da manifestação, foi atingido com tiro de bala de borracha no peito e sofreu ferimentos no cotovelo e na canela.

Depois da ação da Polícia Militar, a via se transformou em um campo de guerra na parte do grupo das torcidas antifascistas. De um lado, a PM avançava sentido rua da Consolação, jogando bombas, e no lado oposto, os torcedores queimavam objetos e faziam barricadas.

“Eles estão achando que são donos das ruas, mas, na verdade, a gente sabe que são uma minoria. Eles têm a força das armas, mas nós temos a força do povo. E o povo está aprendendo, da pior forma, mas está aprendendo durante a pandemia que tem o poder de parar a economia, parar a produção e parar o Brasil”, afirmou Pássaro.

Durante a manifestação das torcidas antifascistas, foi possível notar que boa parte dos presentes estavam usando máscaras de proteção contra o coronavírus, apesar de não ter respeitado as medidas de distanciamento.

Segundo Pássaro, os manifestantes sabiam da “importância do distanciamento social e seguir todas recomendações das autoridades de saúde, evitar aglomerações, mas infelizmente precisa assumir esse risco porque o momento requer essa responsabilidade histórica”.

Ao todo, foram mais de duas horas de conflito. De um lado, bombas de gás lacrimogêneo, bombas e balas de borracha. Do outro, pedras, garrafas e barricadas.

“Uma ditadura não nasce da noite para o dia. É um processo de ações, discursos e até de não-ações. Nesse momento, o que se tem no Brasil é uma guerra de narrativas, e a gente está disposto a travar essa guerra nas ruas, em defesa da democracia”, disse Pássaro.

O ato favorável ao presidente Bolsonaro estava com menos pessoas, portando bandeiras da Ucrânia e de grupos neonazistas europeus.

Uma manifestante bolsonarista estava com um taco de beisebol escrito “Rivotril” e foi questionada por manifestantes antifascistas. A PM escoltou a mulher, enquanto algumas pessoas questionavam se a polícia estaria agindo de maneira tão pacífica se o objeto estivesse nas mãos de alguém do “outro lado”.

No Twitter, o governador de São Paulo, João Doria, disse que os policiais militares que jogaram bombas contra manifestantes antifascistas agiram “para manter a integridade física dos manifestantes” dos dois grupos que realizaram ato na via.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo disse que enquanto os policiais acompanhavam as manifestações, “houve briga generalizada e a PM atuou para impedir o conflito entre os grupos antagonistas”.

Ainda de acordo com as informações oficiais, cinco pessoas foram detidas e conduzidas ao 78º DP (Jardins). Além disso, um homem de 43 anos teria sido agredido pelos investigados e levado até a Santa Casa.