Tom Zé e Felipe Hirsch põem falas em tupi e latim em peça sobre a epopeia da língua

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SÃO PAULO, SP, 02.03.2021 - O cantor e compositor Tom Zé . (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 02.03.2021 - O cantor e compositor Tom Zé . (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Felipe Hirsch aponta o local do teatro Anchieta onde fez a última reunião com a equipe de "Língua Brasileira", em março de 2020. "Pensei que voltaríamos em algumas semanas. Mas foram dois anos", diz. O adiamento causado pela pandemia acaba agora, com a estreia do espetáculo que esmiúça a origem do português falado nas terras de cá.

A entrevista começa com alguns minutos de atraso. O diretor ajusta os detalhes na iluminação do palco quando é surpreendido por uma ligação. "Me dá cinco minutos para eu falar com o Tom Zé?", pergunta. "É uma troca constante desde que começamos esse projeto", conta o diretor mais tarde.

O diálogo entre o dramaturgo e o expoente da tropicália começou em 2018, quando o diretor já ansiava por uma parceria com o compositor. Depois de um primeiro encontro, Tom Zé disse a ele que buscasse inspiração no álbum "Estudando a Bossa", de 2008. "O disco é lindo, mas não encontrei algo que indicasse um caminho", diz.

Ele seguiu vasculhando a produção do baiano. Quando topou com versos como "quando me sorris/ visigoda e celta/ dama culta e bela/ língua de Aviz", Hirsch cessou a busca. "Está no álbum 'Imprensa Cantada'. 'Língua Brasileira' se encaixa nas pesquisas que tenho feito com o coletivo Ultralíricos e ajuda a compor uma tetralogia involuntária", analisa.

A música reflete sobre a formação do português brasileiro muito antes da chegada lusitana por aqui, desde as remotas origens ibéricas do idioma. O tema soou natural para Hirsch diante do que ele tem feito, a começar por "Puzzle", peça apresentada em Frankfurt em 2013 com base na literatura brasileira contemporânea, passando por "A Tragédia e Comédia Latino-Americana", de 2015, e "Selvageria", de 2017, que se vale de documentos históricos para dissecar o conservadorismo nacional.

"A língua, como diz Olavo Bilac, é ao mesmo tempo esplendor e sepultura. Houve uma colonização, um glotocídio [marginalização de uma língua no seio de uma comunidade] dos indígenas e negros escravizados. Essa é a sepultura. Milagrosamente, a gente também tem o esplendor, que é o Tom Zé, a nossa música", afirma Hirsch.

A peça é dividida em um prólogo, cinco atos e um epílogo em quase três horas de duração. "Não é uma tese sobre a língua. É uma experiência poética, sonora e sensorial. Não é hermético, mas convida o público a criar uma compreensão própria do português brasileiro em meio à epopeia dos povos em torno da formação da língua", diz o dramaturgo.

Essa experiência é narrada com um elenco formado por nomes como Pascoal da Conceição e Georgette Fadel, com textos em latim, tupi, bantô, iorubá, até chegar à língua que se ouve atualmente, sobretudo nas ruas. Todo preto, o palco é fustigado com projeções de palavras em línguas diversas. As nuances de cor estão no painel do artista plástico Thiago Martins de Melo, com imagens tupinambás e nagôs.

"Se nos orgulhamos de a língua brasileira ter um falar cantado, melodicamente prazeroso, devemos isso à língua africana quimbundo, que trouxe para sua vizinhança palavras como 'cuanza' e 'umbundo', o que nos torna bem próximos de um funk sexy-heavy e do falar de Camões", diz Tom Zé.

"Mas, na peça, o buraco é mais em cima, e Hirsch recorreu a especialistas", diz o músico. Quase 40 consultores do mundo inteiro municiaram o diretor com textos, sob a batuta de Caetano Galindo, professor de história da língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná e doutor em linguística pela Universidade de São Paulo.

O processo de pesquisa vai virar documentário, segundo Hirsch. E, segundo ele, os documentos encontrados no percurso também foram fundamentais para Tom Zé. "Enviei a ele um registro das pichações em latim vulgar de Pompeia. Ele gostou e fez a canção 'Pompiia - Piche no Muro Nu'", conta o dramaturgo. A canção é uma das dez compostas para a peça e que estarão num álbum inédito previsto para março.

Hirsch diz acreditar que encenar um espetáculo sobre o português brasileiro ajuda não só a explicar o país, mas também a situar esse lugar no mundo. "É uma oportunidade de mostrar que uma nação esculpida por tragédias criou algo que me faz achar a cultura anglo-saxã tediosa, ainda que eu seja fã do que eles fizeram no século 20. Mas é preciso uma revolução de ideias, e essa revolução é latino-americana."

"Vivemos um momento difícil e de ataque aos artistas. Artistas que fazem cultura. É um espetáculo político, mas não reativo. Não preciso xingar esse governo e também não quero falar no nível dessas pessoas", diz Hirsch. "Mas, como diz Galindo, toda língua tem por trás dela um Exército, uma Marinha e uma Aeronáutica. São traumas que vão nos acompanhar em 2022."

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LÍNGUA BRASILEIRA

Autor: Ultralíricos, Felipe Hirsch, Juuar e Vinícius Calderoni (dramaturgista: Caetano Galindo)

Elenco: Amanda Lyra, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Laís Lacôrte, Pascoal da Conceição e Rodrigo Bolzan

Direção: Felipe Hirsch

Música e letras: Tom Zé

Quando: Qui. a sáb., às 20h; dom., às 18h. Estreia nesta quinta (6). Até 20/2

Onde: Sesc Consolação, Teatro Anchieta, r. Doutor Vila Nova, 245

Preço: R$ 40,00 (venda de 4 ingressos por pessoa)

Classificação: 16 anos

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