“Todos querem intimidade emocional”, diz diretor de documentário sobre amor na velhice

No speed dating, os participantes entre 70 e 90 anos tiveram cinco minutos para conversar com cada um(a) dos(as) candidatas (Divulgação / The Age of Love)

Quase aos 80 anos, Matt não desistiu de buscar sua alma gêmea. Quer abraçá-la sob o pôr do sol na praia. Por isso ele se inscreveu no primeiro Speed Dating para solteiros entre 70 e 90 anos. Chegou com a muleta, o tubo de oxigênio e o aparelho auditivo com defeito. Nesses “encontros rápidos”, os participantes têm cinco minutos de conversa com cada candidato(a) e marcam em uma cartela quem gostariam de ver novamente.

Entre as quinze senhoras que conheceu, estava a viúva intimidadora Addie – que salta de paraquedas e já mochilou em países como Afeganistão – e a tímida Nancy – que nunca casou nem teve filhos. Lou, um senhor divorciado campeão de halterofilismo, era um de seus concorrentes. Foi puxado pro Matt, mas vieram os matches! <3

Matt anda com seu tubo de oxigênio em busca da “alma gêmea” (Divulgação / The Age of Love)

Personagem cativante do filme “The Age of Love” (“A Idade do Amor”), ele não é fruto da imaginação do roteirista e diretor Steven Loring. Matt existe e esteve mesmo no evento que aconteceu na cidade de Rochester, nos Estados Unidos, em 2013. À esta altura da vida, esses idosos estão dispostos a embarcar em novos relacionamentos e Loring quis entender o porquê: “O amor e a nossa necessidade de amor muda conforme envelhecemos?”.

O documentário sensível, com algumas cenas hilárias, acompanha candidatos se preparando para o grande dia, as perguntas ensaiadas, a ansiedade pelo resultado, o nervosismo adolescente durante os encontros, a expectativa por um romance, as inseguranças sobre o corpo e as limitações físicas, a reação à rejeição.

“É a derrota da solidão, a necessidade do toque e o conforto de ser entendido que todos nós buscamos”, diz Loring. Ele esteve em São Paulo no início de dezembro para a exibição de “The Age of Love” na Unibes Cultural, com patrocínio da Dínamo Editora. Veja o trailer com legendas em português.

– Por que você decidiu falar sobre amor na velhice?

STEVEN – Meu pai morreu quando minha mãe estava com 70 anos. Eles foram casados por cinco décadas. Um dia, enquanto eu a ajudava a resolver burocracias, ela disse: “Quem sempre vai me abraçar de novo, compartilhar uma refeição, me tocar até o resto da minha vida? Nós éramos um time, agora sou só mais uma velha sozinha no mundo”. Meses depois, meu tio de 78 anos que sempre morou sozinho e nunca teve um relacionamento se mudou para um residencial. Lá se apaixonou por uma senhora de 80 anos. Nunca o vi tão feliz. Essas duas histórias me fizeram pensar muito. Minha mãe, que havia perdido o amor de uma vida inteira, e o meu tio, que foi encontrar nesta fase da vida. Quando eu soube do “encontro rápido” com pessoas entre 70 e 90 anos, decidi que faria um documentário sobre o que muda ou não na forma como nos sentimos em relação ao amor.

Participante se prepara para o grande dia (Divulgação / The Age of Love)

– Que tipo de preconceito os candidatos do evento e outros idosos em busca de um(a) parceiro(a) enfrentam?

STEVEN – Acham que eles querem apenas uma companhia, alguém com quem almoçar e falar ao telefone, uma espécie de amigo(a) especial. Como se não tivessem interesse e capacidade de se apaixonar de verdade, amar de novo, ter desejos e contato físico na intimidade. Nas minhas conversas com os candidatos durante as gravações, aprendi que eles anseiam as mesmas coisas que os jovens. As pessoas não percebem isso porque olham para o cabelo e a pele do idoso e pensam que ele (a) é diferente do que era aos 20 anos. Quando meu tio começou a namorar no residencial, recebi uma ligação da diretora, com uma voz de que não tinha boas notícias: “Eles estão trancando a porta do quarto”.

– E qual o problema nisso?

STEVEN – Ela temia que a empresa fosse processada, que questionassem a lucidez da idosa para estar em um relacionamento e querer espaço para intimidade. O casal não tinha direito à privacidade, a porta devia ficar sempre aberta, como se eles fossem crianças! Muitos filhos não aceitam que os pais ainda pensem em sexo e sejam capazes de praticá-lo. Alguns tentam proibir o namoro do idoso por acreditar que é um desrespeito à mãe ou ao pai que morreram.

– Nos bastidores, os idosos solteiros do documentário diziam sentir falta de sexo?

STEVEN – Todos queriam ter intimidade e contato físico com outra pessoa – mesmo que apenas para andar de mãos dadas ou abraçar. Alguns estavam prontos para retomar a vida sexual, outros já não sentiam mais falta. Também existe um constrangimento de se expor… você pode se sentir jovem por dentro, mas não é mais por fora e precisa se adaptar a essas mudanças. Uma das idosas do filme diz algo como “É o que tem pra hoje”. Ela sabe que o corpo não é como antes, mas não vai desistir do prazer por causa disso. Outra candidata não quer ficar com “um homem de bunda caída” (risos).

Campeão de halterofilismo, aos 82 anos, Joe procura uma companheira (Divulgação / The Age of Love)

– No filme, tive a impressão de que a beleza era um critério mais importante para os homens do que para as mulheres. Aliás, a idade também… Dois candidatos não gostaram de nenhuma das 15 candidatas.

STEVEN – Muitos homens continuam se achando jovens e bonitos, não importa a idade ou condição física deles. Então querem estar com alguém “compatível”. Mas não dá pra generalizar que todos querem uma mulher nova. Um dos meus entrevistados disse que é muito cansativo tentar parecer jovem. Ele quer alguém com quem possa ser verdadeiro, vulnerável, falar sobre seus medos em relação ao envelhecimento – e ser compreendido. Elas procuram principalmente conexão emocional.

– Um dos senhores que se candidatou usava muleta, aparelho auditivo e tubo de oxigênio. As idosas temem que um relacionamento a essa altura da vida signifique virar enfermeira?

STEVEN – Sim, muitas não querem “ter que cuidar de alguém”. Mas também não podemos achar que todos os homens idosos solteiros estão atrás de uma mulher para alimentá-lo, arrumar a casa, dar remédios. No speed dating, muitos candidatos se mostraram sensíveis como esse senhor com vários problemas de saúde. Ele me disse: “Eu acredito que existe uma alma gêmea me esperando e algum dia vou estar com ela na praia, vendo o pôr do sol e vamos nos abraçar e nos amar”. Você olha e pensa que ele não tem mais idade pra isso. Ele me convenceu de que tem, sim, e vai encontrar essa pessoa – não importa quando ou como.

Fran analisa anotações sobre as candidatas que conheceu nos encontros rápidos (Divulgação / The Age of Love)

– E você concluiu se o amor muda com a idade?

STEVEN – A essência do amor não muda. Aos 20 ou 70 anos, você quer alguém que te admire, compreenda e se comprometa em estar sempre ao seu lado. Na juventude, existem tantas demandas e preocupações (carreira, dinheiro, casa, filhos etc) que você não pergunta “Quem sou eu e o que eu quero?”. Você pensa: “O que é melhor pra mim agora?”. E aí quer flores e sexo selvagem. Os idosos sabem profundamente quem são, o que querem – e que o tempo é curto. Mas a sociedade parece lhes dizer que a sua fase de crescimento, novas experiências, identidades e relacionamentos acabou. Conforme você envelhece, a sua família vai desaparecendo, os seus amigos morrem e o seu círculo social vai ficando menor e menor. Às vezes, a solidão é a única opção para eles – e não é uma boa opção.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria