Todo mundo tem uma opinião sobre o "cara do sofá" do TikTok; especialistas explicam o fenômeno

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A saga do "cara do sofá" no TikTok destaca o fenômeno das relações parassociais. (Foto: TikTok)

O drama do "cara do sofá" quebrou a internet. Esse é o apelido do universitário Robbie McCoy, que foi surpreendido por uma visita da namorada Lauren Zarras. A moça, que mora longe, filmou tudo e publicou no TikTok. O vídeo viralizou, ultrapassando 60 milhões de visualizações.

Em pouco tempo, o vídeo começou a receber críticas de milhares de pessoas, dizendo que o rapaz não ficou tão empolgado como deveria ao ver a namorada. E muita gente começou a questionar por que tantos estranhos se envolveram com o drama na internet.

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Zarras, que estuda em uma faculdade diferente do namorado, foi recebida por amigos no apartamento de McCoy, onde ele estava sentado no sofá, ao lado de três moças.

"O Robbie não fazia ideia", escreveu Zarras na legenda do vídeo, tentando explicar o evidente choque de McCoy.

A intenção do vídeo provavelmente era registrar um momento de ternura, mas acabou colocando o casal no centro de uma enorme controvérsia. Nas redes sociais, as pessoas estão analisando nos menores detalhes a linguagem corporal e as expressões do rapaz, discutindo se ele traiu Zarras e até encenando "surpresas que deram errado" com a hashtag viral #couchguy.

"É uma loucura", comentou Zarras no podcast Tea with Publyssity, da Barstool, sobre toda a comoção gerada pelo clipe de 25 segundos.

Segundo Pamela Rutledge, diretora do Media Psychology Research Center, na Califórnia, essa obsessão não é uma loucura. Na verdade, é um exemplo do fenômeno conhecido como "relações parassociais", em que "sentimos que conhecemos o alvo parassocial porque passamos muito tempo assistindo, comentando e interagindo em conteúdos sobre essa pessoa (normalmente uma celebridade)", explica ela ao Yahoo Vida e Estilo.

"As pessoas formam esse tipo de vínculo com celebridades que veem com frequência e até com personagens fictícios. Ele é percebido como um relacionamento, chegando a gerar uma conexão emocional, mesmo que seja de mão única", continua Rutledge, observando que é isso que acontece no caso da controvérsia do "cara do sofá". "As pessoas veem o vídeo e tiram as próprias conclusões, como se conhecessem o rapaz, tivessem algum contexto ou estivessem lá."

Normalmente, esse tipo de relação acontece com celebridades, como explicou Trevor Noah ao comentar sobre o "cara do sofá" no The Daily Show. Especialista em relacionamentos e autora do livro Relatable: How to Connect with Anyone, Anywhere (Even if it Scares You), Rachel DeAlto afirma que, com as redes sociais, esse tipo de vínculo também passou a acontecer com estranhos. "Essas relações chegaram a um nível totalmente diferente com a acessibilidade", comenta.

A história das relações parassociais é complexa. O conceito foi criado por uma dupla de sociólogos em 1956, a partir das "novas mídias" da época (rádio, TV e cinema), que davam uma ilusão de intimidade bem diferente das interações cara a cara com as quais as pessoas estavam acostumadas. De acordo com o estudo, essa sensação de falsa intimidade era como se "um personagem de uma história ganhasse vida". Conforme políticos, atores e membros da realeza passaram a usar essas mídias, o público também começou a formar esse tipo de conexão com essas pessoas.

"Todo mundo assistiu ao casamento da Princesa Diana e sentiu que fazia parte da cerimônia", explica DeAlto. O mesmo fenômeno explica o luto quando ela faleceu, que continua até hoje. "Isso já aconteceu muitas vezes ao longo da história. Sentir apego a essas pessoas é parte natural da psicologia humana."

Por meio das redes sociais, esse comportamento passou a ir além das figuras públicas. Agora, as pessoas comuns também compartilham detalhes sobre suas vidas e seus relacionamentos. Por isso, até mesmo um clipe de menos de um minuto, como o de Zarras, pode fazer o público se envolver com o conteúdo e com as pessoas, além de relacioná-los com as próprias experiências.

"Cada pessoa que assiste cria a própria interpretação, que faz sentido para ela e serve para reafirmar sua visão de mundo ou suas preocupações. As pessoas também gostam de 'compartilhar sabedoria' para melhorar a própria autoimagem", explica Rutledge. "O que importa não é o cara do sofá. Ou seja, o vídeo do cara do sofá no TikTok é mais como um teste de Rorschach para a autoestima, a perspectiva, as experiências e os medos do público."

DeAlto explica que provavelmente o vídeo viralizou exatamente por causa dessa reação.

"As primeiras pessoas que se envolveram muito com o vídeo e contribuíram para a explosão de comentários, compartilhamentos e tudo o que aciona o algoritmo estavam projetando algo que viveram", continua ela. "Quando vê um gatilho do passado em um clipe assim, cada pessoa projeta no vídeo tudo o que aconteceu com ela."

Os mais de 126 mil comentários na publicação corroboram a análise de DeAlto.

"Moça, eu também estava em um relacionamento a distância e não acreditava em nada do que me diziam. Assista a esse vídeo quadro por quadro", dizia um comentário.

Outro respondia: "Meu namorado do colégio me traiu SETE vezes e só depois eu comecei a perceber as atitudes estranhas e questionáveis dele".

Outros disseram o que fariam se estivessem no lugar de Zarras.

"Se eu chegasse e meu namorado estivesse sentado ao lado de três garotas e não se incomodasse em pular para me receber, eu iria embora direto", uma pessoa disse.

Alguns tentaram convencer Zarras a ouvir os conselhos dos estranhos que começaram a comentar sobre a situação.

"Não estamos analisando o relacionamento, mas a cena", escreveu uma pessoa. "Eu ignoraria os comentários se fossem poucos, mas são 16 mil pessoas, então é bom você sair correndo."

Desde que o vídeo foi publicado, em 21 de setembro, tanto Zarras quanto McCoy defenderam o relacionamento, reafirmando que o público não sabe nada da vida deles. "Não somos amigos", respondeu Zarras a um comentário. McCoy publicou um vídeo em seu perfil, dizendo: "Parem de achar que a vida é uma série sobre crimes reais. Não sejam loucos parassociais".

Zarras e McCoy não responderam aos pedidos de comentários do Yahoo Vida e Estilo. Durante sua participação no podcast, Zarras afirmou que o relacionamento só diz respeito a ela e a McCoy. "Nós dois sabemos o que aconteceu e sabemos como é o nosso relacionamento. Estamos tentando encarar tudo isso da forma mais positiva possível. Lemos os comentários e damos risada, porque alguns são completamente malucos", disse a moça.

DeAlto recomenda que, na hora de postar algum conteúdo on-line, as pessoas "tenham mais consciência" do possível envolvimento do público, pois "os resultados são imprevisíveis", como a fama viral, por exemplo. No entanto, seu foco continua sendo ensinar os usuários a ver as redes sociais com outros olhos.

"Precisamos ter em vista que não sabemos de tudo. O vídeo dura 20 segundos, então não sabemos de nada. Não temos contexto. E não cabe a nós julgar. Quando a pessoa pede a opinião do público, é outra coisa, mas esse vídeo foi publicado para compartilhar um momento de ternura. E as coisas acabaram tomando outro rumo", conclui DeAlto.

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