Todo mundo já foi como Lizzo e chorou por se sentir sozinho

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A cantora Lizzo postou um vídeo chorando no TikTok, em que compartilhou com os seguidores um pouco do que sentia. (Imagem: Reprodução / Lizzo)
A cantora Lizzo postou um vídeo chorando no TikTok, em que compartilhou com os seguidores um pouco do que sentia. (Imagem: Reprodução / Lizzo)

"Eu quero saber que eu posso falar com alguém e que as pessoas se preocupam comigo." Essa foi uma das falas da cantora Lizzo em um TikTok postado há algumas semanas na sua conta oficial na rede social. Chorando, ela fala sobre um estágio da tristeza em que as pessoas sentem como se não tivessem ninguém com quem contar e o que bate mais fundo é a solidão de achar que essa tristeza não vai passar e que ninguém tem interesse em saber sobre o que você está passando.

Vamos ser sinceros, no momento (infelizmente, histórico) que vivemos, se sentir sozinho não é uma novidade. Quase que obrigatoriamente muitos de nós passaram boa parte do último ano e meio dentro de casa, em isolamento social por causa da pandemia de coronavírus. E os estudos já demonstram como esse distanciamento prolongado tem gerado uma série de questões emocionais - o boom da depressão, previsto pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e da síndrome de burnout são alguns exemplos.

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Solidão Vs. Solitude

Vamos começar do começo. A solidão é uma sensação com muitos nuances e, muitas vezes, é confundida com outro conceito que parece semelhante apenas pela nomenclatura: solitude. Segundo o psicólogo Ronaldo Coelho, essa diferenciação nos ajuda a perceber a possibilidade de sentir-se bem sozinho, aproveitando a própria companhia, e também de nos percebermos solitários mesmo cercados de pessoas.

"No caso da solidão, há um sentimento de que não se tem com quem contar verdadeiramente, ou que não existe alguém para quem somos verdadeiramente especiais e que, de maneira recíproca, seja também verdadeiramente alguém significativo para nós", explica ele. Lizzo escancarou essa sensação ao falar em seu vídeo: "Eu tenho amor. Eu não sou sozinha, é assim que eu quero me sentir, mas eu não me sinto assim". O vídeo já passa dos dois milhões de visualizações.

A solidão, continua o psicólogo, é o que faz com que as pessoas se sintam da maneira que a cantora relatou: estando entre muitas pessoas, circulando por muitos ambientes, mas ainda com a solidão latente no peito. Por outro lado, a solitude está em aproveitar a própria companhia, que, para determinadas atividades ou momentos, é mais que suficiente e extremamente prazerosa.

"O que condiciona a possibilidade desse sentimento é sermos uma boa companhia para nós mesmos, nos permitindo fazer justamente aquilo que queremos, gostamos ou precisamos sem precisar nos preocupar com terceiros. É aí que está o valor da solitude", diz.

E o fator pandemia, hein?

Com essa distinção clara em mente, precisamos falar da pandemia de coronavírus. Independente do país e da velocidade dos planos de vacinação, todo mundo que entrou em quarentena e distanciamento social lidou com a solidão em algum momento, possivelmente agravada pelo medo e todas as incertezas que dizem respeito à pandemia.

"É inegável que a pandemia nos deixou mais distante das pessoas, impossibilitou que nos sentíssemos acolhidos pelo fato simples de estar em meio às pessoas", explica Ronaldo. "Essa é uma herança ancestral que nos acompanha até os dias atuais. De forma quase instintiva, nós buscamos o contato humano, um abraço, um estar junto, nos momentos mais difíceis."

De acordo com o profissional, é por esse motivo que as visitas aos enfermos nos hospitais, por exemplo, são tão estimadas. O contato com os entes queridos, com amigos e familiares, é um dos pontos essenciais para a melhora do paciente. O mesmo vale para os velórios, em que o ambiente de acolhimento e despedida oferece conforto para os enlutados. "A presença concreta de outra pessoa contribui muito para que a gente sinta que nossa vida importa a alguém, e isso tem grande peso para nos dar forças para encarar situações adversas. Estando privados disso, como é o caso nesse momento de pandemia em muitas ocasiões, temos que ser criativos o suficiente para não nos deixarmos abater diante das impossibilidades concretas que nos afetam", diz o psicólogo.

No caso de Lizzo, alguns vídeos depois do desabafo ela contou para os seguidores da rede que tomou um longo banho, conversou com o seu terapeuta, comeu coisas que gosta e "enganou os níveis de dopamina ficando empolgada com algo que vai acontecer no futuro". Tudo isso são atividades que não necessariamente envolvem outra pessoa (a não ser, claro, a terapia, que é indicadíssima para qualquer pessoa que esteja passando por dificuldades emocionais agora), mas que nutrem a solitude e o autocuidado de uma forma gentil consigo mesmo.

"Muitas coisas não podem ser feitas por videoconferência", diz Ronaldo. "'Não é a mesma coisa' ouvimos as pessoas dizendo. Porque não é mesmo! Muitas das coisas que fazíamos implicava em fazer junto ou não fazer nada. Cozinhar junto não é possível por videochamada, pois a graça está em dividir a tarefa para sentir que se faz junto. Essas atividades têm a ver com uma sensação de se dividir a vida, de estar acompanhado na vida. E a pandemia certamente nos tirou muito disso. Por esse motivo, aqueles que não conseguiram ser suficientemente criativos estão sentindo muito mais os efeitos dessas mudanças."

Solidão tem cura?

Infelizmente, não. Até porque a solidão não é uma doença. É um sentimento legítimo que, como tal, pode e deve ser cuidado. "A dimensão triste e sofrida da solidão aponta para algo que precisa ser cuidado. Assim como a dor física, o sofrimento (dor psíquica) tem essa função de fazer com que a gente se volte para cuidar de algo que não vai bem e que nos é importante não perdermos", explica o psicólogo.

A questão é que sensações como essa, se não cuidadas, podem evoluir para condições mais sérias, como uma depressão. Como diz Ronaldo, se deixarmos de lado o que nos dá sentido à vida, é a própria vida que está em risco de ser perdida.

Os motivos que levam à sensação de solidão são muitos e variam de pessoa para a pessoa. Por exemplo, alguém com uma queixa de se sentir sozinho pode estar deixando de lado os cuidados básicos com o corpo, como sono e alimentação, que têm também um efeito emocional forte. Por outro lado, outra pessoa pode notar que a sua sensação vem de uma incapacidade de lidar as suas relações e as demandas do dia a dia, como trabalho e filhos.

"É fundamental sabermos que as relações precisam ser nutridas, que isso demanda investimento de tempo e de energia", continua ele. "As coisas mais importantes da vida dão muito trabalho. Muita gente se esquece de regar de tempos em tempos para que a relação permaneça forte e com frutos e, quando se dá conta percebe, que seu jardim secou. Se você quer ter um jardim florido, talvez seja necessário aprender o prazer de cuidar dele para além de colher as flores que ele te dá. Muita gente tem a ideia de que se dá trabalho não é bom. Na verdade, o que precisa ser aprendido é fazer desse momento 'trabalhoso' a própria fonte de prazer. Aí entra, novamente, a dimensão criativa."

É importante ter em mente também que, apesar de exigirem essas regas periódicas, seguindo a analogia do jardim, não necessariamente uma relação é o suficiente para sanar a solidão que alguém sente. Tudo depende de como cada um entende essa sensação e o que ela gera no seu cotidiano.

"Um relacionamento pode fazer com que a pessoa 'mascare' sua solidão, tornando o outro depositário de sua 'preguiça' de cuidar das relações, por exemplo", diz o especialista. "Neste caso, a pessoa não se sente mais só, mas trocou esse sentimento por uma dependência emocional do outro, que passa a ter a função que seria dela e que ela se furta de fazer. Estamos falando de pessoas que decidem tapar o buraco com uma rolha em vez de aprender a conviver com o buraco."

Isso difere de um relacionamento em pé de igualdade, em que os dois lados caminham no mesmo ritmo, sem dependência maior de um ou de outro - o que gera a sensação alegre de caminhar acompanhado. Esse tipo de relacionamento, no entanto, só é possível se cada um conseguir resolver a sensação de solidão consigo mesmo, a ponto de sentir-se bem e feliz mesmo que só na sua própria companhia.

"Deste modo, qualquer pessoa que se aproxime poderá cuidar e ser cuidada, pois já sabemos cuidar e podemos nos permitir ser cuidados, numa relação de troca e não de dependência", diz. "É um modo de estar onde a relação pode durar o tempo que for bom para os parceiros, pois ambos sabem que podem perfeitamente seguir sozinhos se aquela relação não mais estiver fazendo bem. Isso não implica, todavia, que será um relacionamento superficial ou breve. Pelo contrário, pode ser muito duradouro e intenso."

Resumindo: se vem como único objetivo de resolver o problema da solidão, o relacionamento até pode tamponar a angústia de sentir-se só, mas cria-se outro problema em cima do primeiro, o da própria relação com foco na dependência de um dos lados. "Para que possamos ter relacionamentos felizes, é fundamental que possamos, antes, estar bem com a nossa própria companhia", reforça o psicólogo.

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