"Tipo Anitta": até quando a roupa de uma mulher vai justificar o assédio?

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Anitta (Foto: Instagram)
Anitta (Foto: Instagram)

Esta semana, um dos assuntos que mais chamou a atenção da internet foi o caso da jovem menor de idade assediada dentro de um Uber. O mais chocante de tudo foi a justificativa do assediador, que disse que a menina pediu por isso por usar um shorts "tipo Anitta".

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Aliás, o comentário do motorista André Lopes Machado, 26 anos mais velho que a passageira em questão, viralizou tanto quanto o caso em si, tanto que a própria Anitta decidiu se manifestar sobre o assunto em seu perfil oficial no Twitter.

"Acabei de receber este vídeo onde o motorista de Uber que assediou uma passageira menor de idade tenta justificar o injustificável (seu assédio) dizendo que a menina estava usando um short 'tipo Anitta' e sentada numa posição favorável ao assédio", escreveu ela. "NADA justifica um assédio. A forma de se vestir, sentar, falar etc não significa qualquer autorização ou pedido ou convite a ser assediada e/ou invadida, abusada, estuprada etc."

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Mais do que isso, a cantora comentou como o fato da jovem usar um shorts "tipo Anitta" significa que ela é independente "não tem medo de ser quem ela quer e, acima de tudo, bem inteligente para denunciar e expor um assediador para que outras meninas não passem pelo mesmo que ela".

O caso ganhou tamanha repercussão por muitos motivos, mas o principal é ser um exemplo perfeito de como funciona a mentalidade machista e assediadora do homem médio brasileiro. A ideia de que as mulheres são culpadas pelo assédio que sofrem é mais antiga do que se pode imaginar, e muito embasada em um padrão de beleza e comportamentos femininos impossível de ser seguido à risca.

Isso significa que mesmo que a mulher esteja com uma roupa que não seja "tipo Anitta", ela seria culpada por andar sozinha à noite ao voltar do trabalho, ou por beber demais em uma festa ou até por ter pego o transporte público num dia comum.

Importante lembrar, aqui, alguns dados muito importantes quando o assunto é assédio e transporte: quase todas as mulheres com mais de 18 anos de idade (97%, aproximadamente) já passaram por situações de assédio no transporte público, por aplicativo ou táxi, segundo uma pesquisa feita pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva.

Foram mais de mil mulheres entrevistadas, em toda as regiões do país, que utilizaram esses tipos de transporte, público ou privado, nos últimos 3 meses antes da pesquisa ser feita. O estudo revela a realidade que as brasileiras vivem diariamente, em que as suas principais queixas são os olhares insistentes e as cantadas indesejadas.

O resultado disso é que, segundo a mesma pesquisa, 46% das mulheres não se sentem confiantes para usar os meios de transporte sem sofrer algum tipo de assédio e, mais do que isso, questionam as próprias escolhas de roupas ao sair de casa, com medo do que podem enfrentar.

Tem mais: a forma como as mulheres são vistas, desde novas. Meninas de 12, 13 anos de idade, passando pela puberdade, são consideradas pelos homens como aptas para o sexo e, por isso, devem se comportar de forma a não incentivar o desejo masculino. Mais uma vez, isso é uma forma de culpar as mulheres por algo que não é de sua responsabilidade, afinal, se o homem é que sente desejo, ele é quem precisa cuidar do que sente e da forma como age, e não o contrário.

Importante reforçar que, de acordo com a legislação brasileira, é considerado estupro todo e qualquer ato de cunho sexual em relação à menores de 14 anos. E, segundo um relatório liberado no ano passado pelo Fórum de Segurança Pública, a maior parte do número recorde de estupros que aconteceram no Brasil em 2018 (66 mil) foram com meninas menores de idade, dentro de casa.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que a cada quatro horas uma menina de 13 anos é estuprada no Brasil por um conhecido (pai ou padrasto, por exemplo). Esses casos consistem em 75% do total, o que não excluiu a possibilidade de abuso em ambientes estranhos, como um ataque à noite por um desconhecido ou um caso de estupro no transporte privado (carros de aplicativo).

No fim das contas, é importante lembrar que não importa a roupa que uma mulher (ou menina) esteja usando, o quanto ela bebeu em uma festa ou onde ela está, o assédio e o estupro nunca são justificáveis. De fato, a jovem que denunciou o motorista foi corajosa, a ponto de tentar gerar alguma mudança em um sistema que anda de mãos dadas com a violência sexual contra mulheres e a impunidade.

Infelizmente, é preciso questionar casos como esse para gerar mudanças, de forma que números tão absurdos como os apresentados aqui fiquem, de uma vez por todas, no passado.