O TikTok é a escola do futuro?

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Os vídeos são rápidos, dinâmicos, regados a músicas chiclete e dancinhas que viralizam muito rápido. O TikTok, a rede social queridinha da geração Z, chegou chegando e mostrando uma variedade de utilidades que vão muito além do humor. A questão do momento é, acredite, sobre ensino. Será que a rede social vai tomar o lugar das escolas?

Ok, a gente sabe que essa pergunta é um pouco sensacionalista, mas é fato que, assim como o YouTube tem um viés educativo muito forte - e que predomina no uso da plataforma -, esse tipo de conteúdo tem crescido muito no app. Por quê? Simples, é ali que está a atenção de boa parte dos adolescentes que estão em fase de aprendizado mais denso - pense em alunos a partir da 5a série. Na era do imediatismo, até mesmo o ensino express tem feito sucesso.

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Mas isso tem um motivo que é condizente com o momento em que vivemos hoje. É verdade que, com a pandemia de coronavírus, as escolas precisaram rever a maneira que se relacionavam com os alunos e o contexto. Afinal, sem a presença física dos alunos na sala de aula, como fazer para que eles se mantenham minimamente interessados pelo conteúdo?

"A educação tem passado por um grande processo de percepção do protagonismo do aluno", diz Aldiney Silva, especialista em serviços educacionais da SM Educação. "Sempre existiu a conversa de que o protagonismo é importante, mas com o advento das tecnologias digitais, os alunos passaram a ser produtores também. Eles estão cada vez mais ativos nos seus processos de aprendizado, e isso gera mudança na percepção do ensino."

Ou seja, se na época pré-histórica em que millennials e boomers frequentaram a escola, o objetivo do professor era ditar o que o aluno aprendia e o que ele precisava saber, sem uma preocupação ativa do seu interesse no assunto, agora, os professores começaram a entender que ao colocar o protagonismo do ensino (isto é, o interesse) na mão do aluno, a sua adesão ao conteúdo é maior.

Antes, as escolas olhavam para a tecnologia com certo ceticismo, uma dúvida de como ela poderia, de fato, ser uma aliada no ensino - e essa segue sendo a maior dificuldade das instituições. No entanto, a pandemia forçou a barra e fez o sistema de ensino como um todo olhar para a efetividade da tecnologia nesse processo de aprendizado.

"Essa geração é a geração do compartilhar", continua o especialista e educador. "Além do protagonismo da escolha - eles escolhem quais conteúdos vão consumir -, eles também produzem para ajudar aos outros."

Não é à toa que os streamings de games cresceram de forma surpreendente nos últimos anos - eles funcionam exatamente com essa lógica: os adolescentes encontram uma dificuldade em uma fase de um jogo e compartilham a sua experiência online para que outros jogadores aprendam com isso. E essa forma de pensar tem sido transferida para o ensino do currículo tradicional: ao invés de fazer um tutorial, os alunos compartilham as suas experiências com um dado histórico que acharam interessante ou um problema de matemática em que tiveram dificuldade e isso faz crescer a comunidade de interesse nesse aspecto do aprendizado.

"Tem um neologismo para isso, que é a palavra 'prossumidor'. É essa pessoa que, além de consumir o conteúdo, também produz. O protagonismo está aí: como eu compartilho o que eu aprendi, como eu facilito a vida do outro através da minha experiência?", continua Aldiney.

O resultado é visto em números bastante impressionantes: no TikTok, os vídeos sob a hashtag #LearnOnTikTok acumulam bilhões (sim, bilhões) de visualizações.

O que o ensino no TikTok tem a ver com a pesca

Pense no ato de pescar: você vai a um lago ou rio com sua vara e coloca uma isca no anzol. Depois, é só esperar. É uma atividade que parece monótona, mas trabalha a paciência do pescador, que precisa esperar que a isca seja interessante o suficiente para que um peixe a abocanhe. 

O ensino no TikTok pode ser visto dessa maneira: como iscas preciosíssimas para abocanhar a atenção do aluno. Nós sabemos que a situação dos professores, ainda mais em um país como o Brasil, não é simples. Porém, acompanhar a tecnologia e o papel que ela tem na vida dos jovens de hoje é importante porque impacta diretamente a sua forma de ensinar e aprender - e isso pode ser um diferencial.

"O TIkTok e essas ferramentas de consumo rápido têm a grande sacada de oferecem micro-aprendizagens, são pílulas", continua o pedagogo. "Olha que mudança bacana o professor precisa fazer: ele precisa tirar a relevância desse conteúdo para mostrá-lo em um minuto. Que grande desafio! E se esse um minuto desperta o interesse desse estudante, ele vai buscar mais"

É claro que os professores não precisam, obrigatoriamente, estar numa rede social para se conectar com o aluno, mas eles podem se utilizar de conteúdos de qualidade encontrados por lá para captar a atenção desse aluno e permiti-lo moldar o próprio aprendizado a partir daí. "Se a isca que eu jogo atrair esse aprendente, ele vai buscar mais comigo ou em outra fonte", diz.

Mas como ficam os professores nessa história? Segundo Aldiney, existem duas palavras que devem ditar o corpo docente das escolas daqui para a frente. A primeira é "curadoria". Um professor de matemática, química ou história, pode fazer o papel de curador de conteúdos de diferentes fontes e que tenham esse viés de isca para atrair o aluno em uma direção. Por exemplo, se o próximo tópico do currículo é Segunda Guerra Mundial, quais conteúdos eu, como professor, consigo encontrar nas redes onde os meus alunos estão para interessá-los nesse tópico?

Sobre esse assunto, inclusive, temos um exemplo bastante recente com a história de Eva. Ou melhor, 'Eva's Stories', um filme feito 100% no formato Stories do Instagram que conta o avanço do Holocausto, na década de 1940. A narrativa acompanha a vida de Eva Heyman, que morreu em outubro de 1944 em um campo de concentração, aos 13 anos. A ideia é narrar a sua história como se ela mesma a contasse pelos Stories do Insta. Esse é um formato que, por exemplo, poderia servir como isca para alunos que vão começar a estudar o tópico.

Ainda assim, talvez ver todos os Stories sobre a história de Eva seja um pouco demais para a geração super rápida dos alunos atuais, mas com certeza descobrir em um vídeo de menos de um minuto que o pensador Drácon morreu (literalmente) "pelo carinho e admiração dos fãs" possa ser interessante para começar uma explicação sobre o sistema penal que usamos ainda hoje e que foi cunhado por ele - como se pode ver em um dos vídeos da professora de história Débora Aladim.

"O segundo caminho que os professores podem seguir é ser um bom mediador", diz Aldiney. "É pegar o meu querido aluno e perguntar: quais são os seus anseios? Por que você se interessou por isso? É fazer boas perguntas que gerem no aluno esse movimento de pesquisa, de querer encontrar a resposta, em que o não saber incomode. Na minha época, o professor estava preocupado em dar o saber. Um bom professor, hoje, vai falar 'O que é a célula?' e mobilizar o aluno".

O ensino movido pela curiosidade e não pela entrega unilateral do saber parece, mesmo, ser a principal tendência para quem quer aprender alguma coisa daqui para a frente - não importa o quê, nem com que idade. Já temos muitos exemplos de como o conteúdo educativo feito de forma atrativa - vide os vídeos de Felipe Castanhari -, são um sucesso entre os jovens porque colocam o ensino muito mais próximo deles e num formato que eles consomem diariamente. Talvez 60 segundos pareça pouco para ensinar qualquer coisa a alguém, mas pense numa curiosidade que você descobriu recentemente e onde você a viu. A probabilidade de ter sido em um vídeo do TikTok é bem grande.

"As escolas já perceberam essas mudanças. Obviamente, dentro da educação as coisas acontecem de forma mais lenta, mas eu vejo um futuro em que cada vez mais as escolas sejam personalizáveis, com itinerários escolhidos pelos alunos, com ofertas diferenciadas. É esse movimento mais interessado de escolha", finaliza Aldiney.

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