Tia Ma reflete sobre solidão da mulher negra após Karol Conka ser acusada de 'palmitagem'

Por que mulheres negras são julgadas por namorarem homens brancos? (Foto: Reprodução/Instagram@erikajanuza@karolconka)

Por Maíra Azevedo (@tiamaoficial)

Sempre que um relacionamento interracial é anunciado a discussão sobre ‘palmitagem’ volta a ser pauta e toma conta das redes sociais. A última polêmica foi em torno da cantora Karol Conka e o seu namorado, o músico Thiago Barromeo. O debate foi posto, entrou no top trend dos assuntos mais comentados e ninguém se entendeu.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Tem gente que ainda se pergunta o que seria ‘palmitagem’. Defino como a arte perversa de preterir uma pessoa preta privilegiando relacionar-se com uma pessoa branca. A questão é que mulheres negras, que são base da pirâmide econômica, no quesito afetivo nem sequer pontuam na escala dos relacionamentos.

Leia também

Além do mais, gosto de fazer alguns questionamentos. Qual seria a cor do amor?

Solidão da mulher negra

O amor é para todas as pessoas? Será que podemos nos relacionar com quem quisermos, ou melhor, com qualquer pessoa que também queira se relacionar com a gente? Poderia até dizer que o amor é livre, mas sabemos que algumas figuras passam por aqui sem conhecer e vivenciar as sensações dessa expressão!

Dito isso, vamos problematizar a expressão "o amor não tem cor". Será?

O amor sempre teve cor. O amor é branco. E temos que falar disso. Na literatura, no cinema, na televisão. As grandes histórias de amor são brancas. E nós, meio que por osmose, aprendemos isso. O príncipe encantado sempre foi nórdico, a princesa que precisava e merecia ser salva tinha que ser clara. E essa equação do afeto caucasiano resultou na solidão da mulher negra.

Aquelas que são preteridas por todos, mas são o alvo do fetiche. Querem fornicar com a preta, mas não dar as mãos, jamais assumir a relação. Mulheres de pele escura tem fome de afeto. Muitas vivem de migalhas amorosas, e quando recebem o convite para o conto de fadas, não conseguem dizer não. Não se pode dizer a quem tem fome que deve se rejeitar um alimento

Quando começo o texto falando que o amor é branco é justamente para dizer que o que permeia o nosso imaginário é o príncipe galã caucasiano, a mocinha clara, alva. E nós, mulheres e homens negros, também queremos ter nossas histórias de amor, tão inspiradoras e lindas quanto as dos contos de fadas.

Então, talvez alguns de nós, ainda que subjetivamente, façamos essa opção, de ter a pessoa branca ao lado para ganharmos uma história linda para contar. Sim, podemos nos apaixonar por qualquer pessoa, de qualquer raça...mas é doloroso demais que a conta afetiva não feche para as mulheres negras.

Por isso não julgo, muito menos condeno a preta que se relaciona com o branco. Essa escolha pode ser fruto das sucessivas negativas. Mas, essa é uma realidade distante da minha. Nunca vivi uma relação interracial. O que não quer dizer que nunca fui pra cama com um homem branco, mas nenhum deles topou ser meu parceiro. Eles queriam viver o fetiche de transar com a negra das ancas largas e poder pagar do tipo de cara que não rejeita nada, que pega “inclusive negras”. E depois de me sentir mal com todo o ‘pique esconde’ vivido com os homens brancos, decidi que não mais deitaria com um deles.

Mas também vivenciei a dor de ser esquecida por um homem negro. Que ficou comigo, fez juras, falou da minha beleza e dias depois assumiu a relação com a mina menos escura que eu, até conseguir chegar na mina branca. Porque para muitas pessoas, é o que importa. Mais do que viver uma história de amor, é ter alguém para chamar de amor dentro dos padrões. Respeito toda e qualquer forma de amor, mas não admito que mulheres negras tenham apenas como regra a companhia da solidão. Nenhuma mulher preta deveria viver a dor de ser preterida por não ter a cara da Bela Adormecida. Mas se for pra viver ao lado do pseudo príncipe encantado, que não atire pedras naqueles e naquelas que tem a mesma cara que a sua.

A minha única dor é perceber que muitos de nós esquecemos que pretos e pretas podem e devem se amar.

Sobre a autora: Jornalista e humorista, Maíra Azevedo é conhecida pelos conselhos amorosos diretos que dá no programa “Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.