Testemunhos escritos de sobreviventes do Holocausto se esgotam, pouco a pouco

El superviviente del campo de concentración nazi de Bergen-Belsen Leon Placek, fotografiado en París el 4 de mayo de 2022 (AFP/Joel Saget) (Joel Saget)

A possibilidade de novos testemunhos escritos de sobreviventes do Holocausto nazista vai diminuindo pouco a pouco na França, seguindo o curso do tempo e o falecimento dos que foram vítimas deste trágico momento da história.

Um dos títulos mais recentes, lançado em 5 de maio, é de Léon Placek, um parisiense de 89 anos que continua trabalhando como contador, apesar da idade avançada.

"J'avais 10 ans à Bergen-Belsen" ("Eu tinha 10 anos em Bergen-Belsen", em tradução livre), editado pela Éditions du Cherche-Midi, é fruto da insistência de seu filho, reconhece Placek.

"Ele ficou insistindo por 15 dias! No fim, acabei cedendo", disse à AFP este senhor que sobreviveu ao campo de concentração de Bergen-Belsen.

Foi nesse campo no norte da Alemanha que morreu a adolescente judia Anne Frank, autora de um diário escrito em seu esconderijo em Amsterdã que se tornou um dos principais testemunhos da perseguição nazista.

Placek costumava falar o mínimo possível sobre Bergen-Belsen para seus filhos. No período inicial do Pós-Guerra na França, os sobreviventes não eram encorajados a se manifestar - muito pelo contrário, recorda.

"Éramos como estrangeiros. Voltávamos de um mundo, do qual você normalmente não retorna", afirma Placek em seu livro.

"Hesitei por muito tempo a romper esse silêncio", reconhece.

"Minha palavra? Serve para quem? O que eu poderia dizer?", questiona, relembrando algumas das questões que o mobilizaram neste processo.

Pouco a pouco, foram surgindo testemunhos escritos e, em 1985, foi lançado o documentário histórico "Shoah", do francês Claude Lanzmann.

- A violência de não ser ouvido -

O escritor espanhol Jorge Semprún registrou suas memórias do campo de Buchenwald, em 1994. Mais de 9.000 espanhóis foram deportados para campos de extermínio nazistas.

Na França, as escolas de ensino médio começaram a organizar conferências com sobreviventes para estudantes. Placek participou delas e acabou escrevendo seu livro com a ajuda do jornalista Philippe Legrand.

No ano passado, a prestigiosa Bibliothèque de la Pléiade publicou uma antologia desses escritos.

Como lembra o professor universitário Dominique Moncond'huy em sua introdução no livro "L'Espèce humaine et autres écrits des camps" ("A espécie humana e outros escritos dos campos", em tradução livre), alguns desses testemunhos enfrentaram a indiferença e até mesmo a incompreensão.

"Nada podia ser mais violento para os sobreviventes do que a constatação de que sua voz não era ouvida", diz Moncond'huy.

Lili Keller-Rosenberg, de 88 anos, também passou por Bergen-Belsen, depois de Ravensbrück. Em abril de 2021, publicou "Et nous sommes revenus seuls" pela Plon ("E nós voltamos sozinhos", em tradução livre). Neste livro, ela fala de sua primeira palestra para estudantes, em 1983.

"Não restam muitos de nós. Em Hauts-de-France, eu sou a última sobrevivente que pode testemunhar" sobre o que aconteceu, constata no fim do livro.

Génia Obœuf, que sobreviveu a Ravensbrück, faleceu aos 98 anos, antes de poder assistir ao lançamento de "Génia et Aimé" (nome de seu marido). A obra chega às livrarias em 17 de maio, um ano após sua morte.

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