'Terrifier 2' é ápice de nova onda de filmes que apostam no explícito e no grotesco

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Carne crua e mais de 70 litros de sangue foram utilizados para simular olhos perfurados e cabeças decepadas no que vem sendo anunciado como "o filme mais perturbador do ano". "Terrifier 2", terror que estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta (29), já coleciona manchetes ao redor do mundo sobre espectadores que saíram da sessão de ambulância.

A estratégia de marketing sensacionalista da produção independente e de baixo orçamento já apresentou resultados logo em seu primeiro final de semana de exibição nos cinemas americanos, quando faturou mais de US$ 1 milhão na bilheteria -uma comoção semelhante a de outro filme impregnado na memória dos fãs do gênero.

Em 1973, um dia após o Natal, "O Exorcista" estreou nos Estados Unidos e filas quilométricas se formaram para ver "o filme mais assustador de todos os tempos". Alguns cinemas distribuíam sacos de vômito aos mais sensíveis e uma mulher chegou a processar a produtora Warner Bros. por ter desmaiado, caído da cadeira e quebrado o queixo.

A obra-prima de William Friedkin, que quase foi dirigida por Stanley Kubrick, recebeu dez indicações ao Oscar, inclusive na categoria de melhor filme, e levou duas estatuetas por roteiro adaptado e som -um feito inédito para o esnobado gênero do terror. Quase 50 anos depois, é a vez de outro filme capaz de provocar síncopes e engulhos.

Uma girada de pescoço e um vômito feito de sopa de ervilhas foram suficientes para traumatizar o público nos anos 1970, mas depois de décadas de videogames sangrentos e do "true crime" ter sido adotado como um passatempo relaxante, é preciso muito mais -como cortar o couro cabeludo de alguém com uma tesourinha de unhas.

Com um lançamento limitado nos cinemas americanos, "Terrifier 2" causou rebuliço no início de outubro, mês em que as obras mais horripilantes disputam espaço. Não demorou muito para os relatos -exagerados ou não- começarem a brotar nas redes sociais. "Meu amigo passou mal e tivemos de chamar uma ambulância," disse um usuário no Twitter. "É tão nojento que eu vomitei na minha pipoca," disse outro.

Steve Barton, um dos vários produtores do filme, aproveitou para publicar um aviso que, em razão da violência brutal, recomendava "extrema cautela" aos cardíacos, pessoas propensas a tonturas ou de estômago fraco. No universo do terror, avisos como esse são pura psicologia reversa. E assim, "Terrifier 2" foi expandido para mais de mil e quinhentas salas pelo país.

Com um orçamento de US$ 250 mil, quantia quase toda obtida por uma campanha de financiamento coletivo, o filme escrito e dirigido por Damien Leone já faturou mais de US$ 11 milhões na bilheteria e vem se saindo bem em outros países. Até o mestre Stephen King, criador do temível Pennywise de "It - A Coisa", deu o seu selo de aprovação.

Criado em Staten Island, distrito menos glamuroso de Nova York, por uma mãe italiana que batizou o filho em homenagem ao anticristo de "A Profecia", Leone também é responsável pela edição, pelo design de som e, seu carro-chefe, os efeitos especiais práticos que remetem à filmografia de Lucio Fulci ou mesmo ao nauseante "Fome Animal", de Peter Jackson.

O primeiro longa da saga funciona mais como uma demonstração das habilidades de Leone em conceber mortes impactantes -há uma mulher serrada ao meio, mas não como nos antigos números de mágica-- do que um filme propriamente dito. Com um roteiro ruim e personagens mal desenvolvidos, a sinopse pode ser resumida em apenas duas palavras -palhaço assassino.

Mesmo assim, "Terrifier" ficou no top 10 de títulos mais vistos do Prime Video Brasil por várias semanas, muito provavelmente por causa do burburinho em torno da aguardada sequência. O monstruoso palhaço Art, com sua maquiagem branca e preta, até ganhou memes na conta oficial da plataforma no Instagram.

"Terrifier 2" retoma a história de onde "Terrifier" parou, mas não é necessário ver o original para acompanhar a continuação. Só Art e uma de suas vítimas reaparecem e os acontecimentos são todos recapitulados. Leone prestou atenção nas críticas que recebeu e, desta vez, quis fazer algo mais centrado no arquétipo da "final girl", como o papel de Jamie Lee Curtis em "Halloween".

Interpretada por Lauren LaVera, Sienna é uma garota criativa que, junto da mãe histriônica e do irmãozinho obcecado por assuntos mórbidos, tenta se recuperar do suicídio traumático de seu pai. De cara, ela tem uma conexão sobrenatural com o palhaço que é uma espécie de Pernalonga psicopata -sua violência é tão extrema que chega a ser absurda e cartunesca.

Encarnado por David Howard Thornton, Art não fala e carrega um saco de lixo que mais parece a bolsa mágica do gato Félix, só que repleta de armas variadas. Para ele, uma facada ou um tiro não bastam. Ele precisa torturar, mutilar, desmembrar, desfigurar e, literalmente, jogar sal na ferida, como num desenho de "Comichão e Coçadinha" dos "Simpsons". Seu intuito não é matar, mas causar o maior sofrimento possível enquanto debocha da dor alheia.

É uma agressividade excessiva, de uma maldade anárquica, que só poderia existir numa produção independente de um autor desenfreado. Como Leone tem controle total, "Terrifier 2" é bastante inchado, com mais de duas horas de duração e um terceiro ato que se arrasta. Dá para imaginar o diretor/editor sentindo pena de se desfazer de alguns minutos de sua obra insana.

Desde o sucesso das franquias de "Atividade Paranormal" ou "Invocação do Mal", os fãs de terror se acostumaram com um estilo que mostra muito pouco ou até mesmo nada --filmes sobre assombrações ou entidades demoníacas que dependem mais da atmosfera sinistra e dos sustos sonoros do que do choque das tripas ensanguentadas típico dos "slashers" oitentistas.

Ainda que seja o mais gráfico de todos, podemos encarar "Terrifier 2" como parte de uma nova onda de filmes de terror que apostam no explícito e no grotesco, como "Maligno" ou "Sorria" -são produções marcadas pela galhofa, ao contrário do "torture porn" dos anos 2000, e que também se tornaram fenômenos de bilheteria graças ao boca a boca.

De zoeira, "Terrifier 2" foi inscrito para ser considerado ao prêmio Oscar, mas é difícil visualizar o palhaço Art, com seu enorme saco de lixo, desfilando entre as estrelas no tapete vermelho mais disputado de Hollywood. Há quem reclame que a Academia menospreza os filmes de gênero, mas habitar o submundo tem suas vantagens artísticas.