'Terra Estrangeira' não existiria sem livro de Contardo, diz Walter Salles

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte do psicanalista italiano Contardo Calligaris, ocorrida nesta terça, em São Paulo, comoveu várias personalidades nas redes sociais. Calligaris, que também era escritor e dramaturgo, morreu aos 72 anos. Ele estava hospitalizado e fazia tratamento contra um câncer. "É como se uma parte de nós tivesse sido arrancada. Contardo nos ajudou a pensar melhor, a compreender a importância de divergir, a entender as nossas contradições mais profundas. Era um catalizador incrível, e seus livros e textos tiveram uma influência decisiva em minha geração", afirmou o cineasta Walter Salles à reportagem. "'Terra Estrangeira' não existiria sem 'Hello Brasil' [livro de memórias de Calligaris sobre sua chegada ao país]". "Perco um amigo que não deixava nunca de perguntar: 'antes de mais nada, como você está'? Contardo esteve à altura, sempre", acrescenta Salles, em referência a uma postagem do filho de Calligaris, Max, em que ele conta que uma das últimas coisas que o pai disse foi "espero estar à altura". Diretora de "Democracia e Vertigem", documentário brasileiro que concorreu ao Oscar no ano passado, Petra Costa também homenageou o ítalo-brasileiro nas redes sociais reproduzindo uma frase supostamente dele. E a diretora e atriz Mika Lins publicou fotos do psicanalista quando jovem. Outros atores que lamentaram a morte nas redes sociais foram Dan Stulbach e Bruna Lombardi. "Sua inteligência e clareza, os papos na vida e no teatro, as colunas, os livros. Obrigado, Contardo", disse Stulbach. "Colega de muitas conversas sobre literatura e comportamento humano. Crítico, feroz, sarcástico e brilhante", descreveu Lombardi. "Um dos homens mais brilhantes que conheci na vida", fez coro Ivam Cabral, um dos fundadores do Satyros. Calligaris atuou por anos como conselheiro da associação que gere a SP Escola de Teatro, dirigida por Cabral. "Seu poder de conexão com o mundo era especial. Alma raríssima, fundamental na minha e na vida de tanta gente. O Brasil perde um de seus maiores homens." O ator, dramaturgo e diretor Otávio Martins publicou uma foto no Instagram em que aparece ao lado do psicanalista e dos colegas Claudia Ohana e Emilio de Mello, com a legenda "um grande cara, uma grande mente. Que tristeza". Os quatro trabalharam juntos em “Psi”, série da HBO criada por Calligaris em que contava as aventuras de um alterego dele. Ex-vice-presidente de produção original da HBO Latin America, Roberto Rios também lembrou com carinho da empreitada à reportagem. "Nos deixa com um imenso sentido de perda, maior do que a sua morte, tão cedo. Seu intelecto era ímpar, tudo o que era humano o interessava." Os psicanalistas Christian Dunker e Vera Iaconelli também repercutiram a morte à revista literária Quatro Cinco Um. Dunker o definiu como "um humanista crítico como não existem mais". “Contardo analisou gerações e culturas com o mesmo carinho no coração e rigor nas palavras", disse. Já Iaconelli, que também é colunista do jornal Folha de S.Paulo, lembrou como seus textos navegam entre "Eros e Tânatos, essa busca por viver" e salientou sua relação com o Brasil —Calligaris era italiano, e se mudou para São Paulo nos anos 1980. Vera Magalhães, jornalista e apresentadora do Roda Viva, da TV Cultura, lamentou a morte do escritor e se definiu como uma "leitora voraz" de seus textos. "Coragem, desassombro e sabedoria numa frase final. Essas qualidades do Contardo Calligaris sempre permearam seus escritos, dos quais eu era leitora voraz e grata", disse Magalhães. "Até o último minuto, como conta o filho, ele foi genial. Que tristeza", lamentou a jornalista Daniela Lima, em referência a uma postagem do filho de Calligaris, Max, em que ele conta que uma das últimas coisas que o pai disse foi "espero estar à altura". "Inteligente, generoso e engraçado. O Brasil perde uma pessoa muito boa. Minha solidariedade aos familiares e amigos", escreveu o jornalista Leandro Demori, do The Intercept Brasil, que contou ter entrevistado Calligaris na primeira live que realizou na pandemia. "Contardo era um poço de conhecimento, um humanista convicto e profundamente generoso. Tive a oportunidade de entrevistá-lo diversas vezes para o programa Dilemas Éticos da CIP. Deixa muitas saudades", afirmou Michel Schlesinger, representante da Confederação Israelita do Brasil, em depoimento à reportagem. "Em 2007, cheguei em São Paulo pata recomeçar a vida, sem emprego, coração destroçado, mas decidida a viver. Contardo Calligaris me tratou por dois anos decisivos na minha vida. Não há agradecimento possível, só admiração e saudade eternas", contou a professora de ética e escritora de "Direito e Saúde Global: O Caso da Pandemia de Gripe A (H1N1)", Deisy de Freitas Lima Ventura. "Um cara que sem ser brasileiro nos entendia melhor do que ninguém. Deixo aqui o registro de nosso último diálogo. Vá em paz, amigo", escreveu o cientista político e professor Fernando Schüler. O ex-deputado Jean Wyllys, que deixou o Brasil em 2019 sob ameaças, definiu Calligaris como "um dos intelectuais mais brilhantes e livres" que já conheceu. A professora de filosofia e escritora Marcia Tiburi disse que o italiano era genial e lamentou sua morte. "Um notável psicanalista, com extrema sensibilidade, nos brindava com seus artigos brilhantes na Folha", afirmou o ex-senador Eduardo Suplicy, que lembrou ainda dos elogios de Calligari ao seu livro “Renda Básica de Cidadania”, de 2006. Num fio no Twitter, a Companhia das Letras lembrou suas publicações de “O Conto do Amor”, de 2008, e “A Mulher de Vermelho e Branco”, de 2011, ambos escritor por Calligari. "O pensamento psicanalítico, a ficção brasileira, o jornalismo e a televisão. Perde o Brasil uma de suas cabeças mais instigantes e ecléticas", afirmou Luiz Schwarcz, fundador da editora. Outras editoras que prestaram homenagem a Calligaris foram a Todavia e a Planeta, também nas redes sociais. Entre os escritores, o poeta Alcides Villaça foi um que escreveu sobre o legado do "pensador e artista", como o definiu, numa rede social. "Num tempo como o nosso, é de se lamentar de forma especial a morte de um ser ao mesmo tempo sensível e pensante, como ele foi. Que bom que nem sempre concordei com seus pontos de vista: ele seria o primeiro a reconhecer esse meu direito, e nós sempre seríamos parceiros na discordância honesta ou na afetividade cúmplice." O pintor Rodolpho Parigi, que se consultava com Calligaris, pintou um retrato dele entre o final do ano passado e o início deste. "Foi muito instigante para mim, como pintor, pintar meu psicanalista."