"Terapia não resolve a fome, saúde mental é ter comida na barriga", diz pesquisadora

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No Brasil você morre de covid, fome ou violência. Como temos saúde mental? (Foto: Getty Images)
No Brasil você morre de covid, fome ou violência. Como temos saúde mental? (Foto: Getty Images)

Desde o ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta para a “epidemia silenciosa” de saúde mental que seria consequência da pandemia. O isolamento social, o medo do coronavírus e o número de mortes são potenciais gatilhos para ansiedade, depressão e outras formas de sofrimento mental.

No entanto, para mais de 125 milhões de brasileiros, a angústia vai muito além. O vazio na barriga e no peito estão relacionados a situações de desemprego, fome e falta de assistência médica, resultados de uma pandemia descontrolada e com auxílio público muito aquém do necessário.

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“Quando se fala sobre sofrimento mental muitas vezes ficam muito na questão subjetiva, de um indivíduo e seus sentimentos descolados da realidade, como se fosse a produção da mente da pessoa. Mas o que a gente vê no território são sofrimentos ancorados em problemas materiais muito complexos, questões como a fome, a perda do emprego, situações de violência, de um parente preso e sem acesso à saúde no contexto da pandemia”, relaciona o psicólogo Felipe Szabzon, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro e Análise e Planejamento) que participa de um estudo sobre experiências de problemas de saúde mental nas favelas de São Paulo.

O sofrimento causado por desigualdade, pobreza ou violência não é novidade no panorama brasileiro. O país tem a maior taxa de transtorno de ansiedade no mundo, de acordo com a OMS. Enquanto 3,6% da população mundial sofre de ansiedade; no Brasil, o transtorno atinge 9,3% da população, segundo estimativa feita em 2017 pela entidade internacional.

A pandemia aprofundou o abismo social e, junto, ampliou o sofrimento. “Em uma lógica de maior precarização da vida é claro que essa precarização se dá também na saúde e na saúde mental, não é para separarmos. A péssima gestão da pandemia intensificou essas mazelas e seus sintomas, fome, pobreza, sofrimento mental. Não quer dizer que quem é rico não sofra, mas quem empobreceu mais, quem morreu mais, quem teve condições de vidas mais precarizadas? Isso tem classe, cor, etnia e gênero”, argumenta Pedro Costa, pesquisador de psicologia comunitária e professor da UnB (Universidade de Brasília).

Uma pesquisa feita em Heliópolis, a maior favela da capital de São Paulo, logo no início da pandemia mostrou o impacto na vida das pessoas: 86% estavam se sentindo deprimidos, 64% não estavam conseguindo se concentrar em nada e 62% perderam o sono. Os dados não mostram necessariamente diagnósticos, mas uma realidade de sofrimento.

Eu não estou conseguindo dormir esta última semana, tá ligado? (...) Eu guardo muita coisa para mim, eu tenho que demonstrar que eu estou bem todo dia, e nenhum ser humano consegue estar bem todo dia. Sei lá, tioTrecho de áudio usado na introdução da canção “Amarelo”, do rapper Emicida

Sofrimento que tem CEP

A falta de dinheiro e, em consequência, de comida é a demanda mais urgente dessa população e está na raiz de tantas outras.

“As necessidades aparecem juntas. As pessoas me procuram para pedir uma cesta básica, ajuda para tentar o auxílio emergencial, mas também sabem que eu sou psicóloga e, então, pedem uma conversa, um momento de escuta”, conta Jacqueline Gnoatto, do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba, bairro do extremo leste da capital paulista.

Terapia não resolve a fome, terapia não resolve o desemprego. Eu não vou resolver esses problemas apenas colocando psicólogo no SUS

Durante a pandemia, a ONG fez uma parceria com pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) para criar uma rede de escuta empática na comunidade e ajudar no acolhimento psicológico. Um grupo de voluntários da região recebeu capacitação para acompanhar por telefone pessoas que precisassem de apoio. O grupo era monitorado por psicólogos ligados à universidade e ao CDHS. O trabalho de escuta servirá como base para um estudo sobre sofrimento mental nas favelas de São Paulo, ainda em fase preliminar.

A criação de redes de escuta solidária com voluntários busca fortalecer os laços da comunidade e também dar apoio em um território com grande complexidade de problemas materiais e em que faltam serviços públicos.

“As pessoas ali passam por uma grande angústia com a questão econômica e isso traz muito sofrimento. Além disso, há pessoas passando por situações de violência, outras perderam alguém da família, ou estão preocupadas com um filho, um marido preso sem poder visitá-los e recebendo notícias do aumento exponencial de mortes por Covid dentro da penitenciária”, exemplifica Szabzon, psicólogo e um dos responsáveis pela implantação do projeto em Sapopemba.

No entanto, sublinha Jacqueline, o papel das organizações sociais é de apoiar essas pessoas para que elas consigam, se preciso, atendimento no serviço público, na UBS (Unidade Básica de Saúde), no Cras (Centro de Referência de Assistência Social) ou no Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

Serviços insuficientes

O país conta 2.657 centros especializados em acolhimento e tratamento de sofrimento mental (Caps), segundo o Ministério da Saúde. O número equivale a menos da metade dos municípios brasileiros. Há psicólogos em UBS, em grupos de saúde da família e em unidades de Cras. A rede pública, no entanto, é ainda deficiente e ficou mais precarizada por conta da pandemia.

No grupo de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, o Caps Carlos Augusto Magal atende uma população de mais de 220 mil habitantes. A equipe de cerca de vinte profissionais ficou comprometida ao longo de 2020 devido ao afastamento de funcionários do grupo de risco ao coronavírus.

O serviço continuou aberto, mas a necessidade de isolamento impede que os encontros terapêuticos em grupo sejam realizados. O psiquiatra Carlos Cesar de Carvalho, que atende no Magal, conta que os profissionais disponibilizaram seus números de WhatsApp para os pacientes e tentaram dar apoio remoto para pacientes, mas a demanda é muito superior à capacidade de atendimento.

“Tivemos um aumento da procura [de nossos serviços] por pessoas que não têm transtornos psiquiátricos, mas que estavam tendo o sofrimento agravado por conta do isolamento, da mudança da circulação, do desemprego, da insegurança alimentar”, relata o psiquiatra.

Enquanto a demanda crescia, os serviços existentes ficaram mais restritos por conta da emergência sanitária. Na Maré, as Clínicas da Família dedicaram-se ao atendimento de Covid.

“Os profissionais viraram bombeiros para apagar fogo, mas eles não têm a retaguarda necessária, não têm os insumos e instrumentos necessários”, avalia Pedro Costa, pesquisador da UnB que fez um estudo sobre o impacto da pandemia no trabalho dos psicólogos da rede pública.

Problemas estruturais

Na pesquisa que ouviu 123 profissionais de diferentes serviços, os psicólogos relataram falta de máscaras, luvas, produtos de limpeza e higiene, além de problemas estruturais, como falta de espaço para fazer um atendimento em que fosse possível o distanciamento físico.

Como no Caps Magal, Costa diz que muitos profissionais do SUS e de políticas de assistência social mantiveram atendimentos individuais e, quando possível, também por via remota. Para isso, os profissionais tiveram que pagar do seu bolso parte dos insumos mínimos para o trabalho, como as máscaras, o álcool gel ou a conta telefônica.

Falar de saúde mental é falar da necessidade de ter comida na barriga, necessidade de ter emprego. Saúde mental é ter uma casa para morar, é não ter que trabalhar 14, 15 horas por dia exposto à pandemia para ganhar um salário-mínimo

Além disso, organizações sociais, como o Garotas da Maré ou o CDHS de Sapopemba, e voluntários por todo o Brasil tentam suprir a necessidade com projetos de acolhimento e escuta.

O estreitamento de laços sociais entre vizinhos é uma forma de ajuda terapêutica aumentando o sentimento de pertencimento e de valorização de si mesmo, sublinha Verônica Ximenes, professora da Universidade Federal do Ceará que pesquisa as implicações psicossociais da pobreza.

Ximenes explica que pessoas em situação de vulnerabilidade econômica muitas vezes se sentem menos capazes frente aos outros. “As dimensões da humilhação e da vergonha aparecem muito. Então, a pessoa evita fazer coisas porque sente que vai ser humilhada, vai passar vergonha, ou se sente pior que os outros. E isso vai reduzindo a [capacidade de] agência dela. Uma pessoa que se sente integrada, participa mais da vida da comunidade e tem mais bem-estar.”

No entanto, os especialistas sublinham, não é possível preservar a saúde mental sem cuidar das condições de vida dessa população.

“Falar de saúde mental é falar da necessidade de ter comida na barriga, necessidade de ter emprego. Saúde mental é ter uma casa para morar, é não ter que trabalhar 14, 15 horas por dia exposto à pandemia para ganhar um salário-mínimo. Terapia não resolve a fome, terapia não resolve o desemprego. Eu não vou resolver esses problemas apenas colocando psicólogo no SUS”, reitera o pesquisador da UnB.

“Se eu falo que eu tenho um vazio no peito e na barriga, este vazio é angústia ou é fome? Eu devo dar comida ou só conversar com ela sobre este sentimento?”, questiona Verônica Ximenes.

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