Terapia com “parceiro substituto”: aulas práticas de sexo e relacionamento

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Aos 56 anos, o americano Mark Shattuck tem dupla jornada de trabalho como consultor na cidade californiana de São Francisco (provavelmente a mais liberal dos Estados Unidos). Durante o dia, ele atua numa organização sem fins lucrativos. À noite, lucra com consultas bastante íntimas e práticas em seu apartamento quarto-sala, aonde recebe clientes com problemas sexuais e amorosos. Na maioria das vezes, mulheres virgens acima dos 40 anos – mas também homens, transgênero e pessoas com deficiência, independente da orientação sexual. Mark se define bissexual e está um relacionamento aberto há mais de uma década.

Embora faça sexo e namore por dinheiro, não se trata de prostituição. Ele é um “parceiro substituto”, ou “surrogate partner”, certificado por uma associação internacional. Essa terapia nada convencional surgiu na década de 1960, quando os famosos pesquisadores em sexualidade William Masters e Virginia Johnson precisaram de voluntárias(os) para tratar pacientes solteiros(as) com questões como ausência de orgasmos, ejaculação precoce, dor na penetração, autoimagem corporal negativa, medo de intimidade, abuso sexual etc. No Brasil, não existem registros oficiais da profissão.

Mark Shattuck trabalha como “parceiro substituto” há doze anos (Foto: arquivo pessoal)
Mark Shattuck trabalha como “parceiro substituto” há doze anos (Foto: arquivo pessoal)

– Como você virou um “parceiro substituto”?

MARK – Doze anos atrás, depois de me divorciar, eu comecei a sair com diferentes mulheres. Compartilhava essas experiências com meu terapeuta e, como tendo a ser bastante paciente e comunicativo, ele achou que eu seria um bom “parceiro substituto”. Não sabia o que era isso! Pesquisei, me interessei e me candidatei ao programa de treinamento da International Professional Surrogates Association (“Associação Internacional dos Parceiros Substitutos Profissionais”, numa tradução livre do inglês). Foram duas semanas e meia de curso intensivo e um ano de estágio supervisionado até conseguir o certificado profissional.

– Quantos clientes teve de lá para cá?

MARK – Acredito que uns vinte ao todo. Trabalho só com duas ou três pessoas por ano porque é emocionalmente intenso. Desenvolvo relacionamentos de verdade com elas, compartilhamos muitas coisas… “Parceiras substitutas” têm bem mais clientes por uma questão cultural. Para os homens, faz mais sentido pagar por algo relacionado à sexualidade deles. Existem cerca de 50 profissionais certificados pelo IPSA e apenas seis são homens.

– Quem procura esse tipo de terapia?

MARK – Em geral, homens solteiros para tratar disfunção erétil e ejaculação precoce. Embora eu seja bissexual, na maioria das vezes atendo mulheres entre 40 e 50 anos, virgens e muito introvertidas, que nunca namoraram ou se masturbaram. Querem descobrir a própria sexualidade e se conectar intimamente com alguém. Outras me procuram por causa de disfunções como falta de orgasmo, dor no sexo, vaginismo [contração involuntária da vagina que impede a penetração] etc. Também existem pessoas com deficiências físicas. Todas já fazem terapia tradicional, mas acharam que seria bom ter um profissional para guiá-las na prática.

– E como são as sessões com um “parceiro substituto”?

MARK – Na primeira sessão, nós três (eu, cliente e terapeuta) discutimos quais são os objetivos. Por exemplo, se sentir confortável com o próprio corpo, descobrir como gosta de ser tocada, aprender a tocar o outro. Da segunda sessão em diante, somos só eu e a cliente no meu apartamento. Conversamos, fazemos exercícios de respiração e relaxamento por pelo menos 15 minutos antes de qualquer contato físico. Em um dos exercícios, ficamos nus em frente ao espelho e falamos como nos sentimos em relação à cada parte do nosso corpo. Então a cliente pode deitar na cama e eu exploro carícias em suas mãos, braços, rosto… sem focar nos genitais – e sempre perguntando se posso fazer isso ou aquilo. Ela precisa sentir que está em um ambiente seguro e profissional. Na sequência, invertemos e ela me toca. As sessões levam entre 90 minutos e quatro horas. Entre cada sessão com a cliente, converso com o terapeuta dela sobre como estamos progredindo.

No filme “As Sessões”, a atriz Helen Hunt interpreta uma “parceira substituta”. Nesta cena, o tradicional exercício de autoimagem com um paciente com deficiência física (Divulgação).
No filme “As Sessões”, a atriz Helen Hunt interpreta uma “parceira substituta”. Nesta cena, o tradicional exercício de autoimagem com um paciente com deficiência física (Divulgação).

– Nem sempre existe “sexo em si” e penetração?

MARK – Não. Depende do objetivo. O “parceiro substituto” não é para realizar fantasias sexuais. É um processo lento e profundo, que pode durar entre cinco e vinte sessões. Quando perguntam qual a diferença entre a prostituição e a terapia com um “parceiro substituto”, gosto de usar a analogia da minha colega Cheryl Cohen Greene [que inspirou o filme “As Sessões”, interpretada pela atriz Helen Hunt]: a prostituição é como ir a um restaurante e curtir um momento de diversão; a terapia com uma “parceira substituta” é como fazer um curso de culinária. Nós damos as ferramentas e ajudamos a pessoa a entender suas preferências, se comunicar com o outro, construir intimidade. Algumas clientes têm dificuldade de se abrir, nunca se sentiram amadas e íntimas de alguém. Podemos ficar nos olhando nos olhos, dançar, deitar abraçados etc.

– Você diria que, ainda assim, é uma relação profissional?

MARK – Sim, sou pago e sigo exercícios e um código de ética. Mas estabelecemos um relacionamento muito pessoal. Ela está no meu apartamento, com as minhas coisas e meus sapatos no chão, conto sobre o meu dia a dia. Às vezes nos apaixonamos. E tudo bem… Mostra que somos todos humanos e vulneráveis.

– Se você e a cliente se apaixonam, o trabalho acaba?

MARK – O trabalho acaba quando a cliente atinge o objetivo que estabelecemos com seu terapeuta (por exemplo, conseguir ser penetrada). Por mais envolvente, quente e divertido que tenha sido entre nós, o relacionamento tem que acabar. Um dos termos do código de ética da IPSA é romper o contato com a cliente por, pelo menos, seis meses após o término da terapia. Pode ser triste, mas relacionamentos também acabam na vida real. Essa ruptura é importante para que ela conheça outras pessoas, saia com amigos, crie um perfil na internet… Mesmo que eu me apaixone, não é justo privá-las de viver experiências pelas quais já passei e que são novas para elas.

– Que características são fundamentais em um “parceiro substituto”?

MARK – Ele tem que estar confortável com o próprio corpo, ter empatia pelo outro, saber se comunicar e criar um ambiente seguro, além de ser capaz de achar algo atraente em qualquer pessoa – independente dos padrões estéticos e culturais. Se você vai fazer exercícios com toque íntimo e penetração… bom, é meio óbvio quando um homem não está sexualmente excitado [risos]. Eu já tive problemas com ereção durante o trabalho, mesmo atraído pela cliente. Conversamos sobre isso porque é normal e pode acontecer com outro homem.

– As pessoas com quem você convive sabem da sua segunda profissão?

MARK – Minha mãe sabe e “ok”, não falamos muito do assunto. Minha namorada e eu temos um relacionamento aberto, então ela entende e acha ótimo. As pessoas do meu trabalho não sabem, assim como alguns amigos. Acho que não entenderiam e perguntariam: “Você é pago para receber mulheres no seu apartamento e ficar pelado com elas?”. Não é o tipo de coisa que se explica em cinco minutos…

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria

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