“Tenho tesão por chulé e já paguei para cheirar sapato usado”

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“Quando vejo uma mulher gostosa de scarpin, sapatilha ou mesmo chinelo fico imaginando o cheiro”, diz C*, um carioca de 35 anos que trabalha no setor financeiro. Não é que ele torça o nariz diante da possibilidade de sentir um chulé… Ao contrário. “É uma vontade louca de cheirar. Após balada e academia, piro completamente”. Pra esse fetichista, não existe perfume mais afrodisíaco que o suor de pés femininos abafados por algumas horas.

C* não esconde da namorada, com quem está há dois anos, que fica excitado e se masturba enquanto cheira chulé. “Ela acha comum e me provoca quando saímos”, diz. Ele já ganhou sapatos usados de amigas com quem se abriu sobre a tara inusitada e até pagou para degustar alguns de desconhecidas. E tem gente com faro pra business, viu?

Numa rápida pesquisa em sites como Mercado Livre, encontrei à venda “Sapatilha com muito chulé” por R$ 50 e “Scarpin Bem Usado Fetiche” pelo mesmo preço – na descrição do produto: “com cheirinho, minha tia usou bem”. Outra vendedora seduz potenciais clientes com frases no estilo “Para você viver seus devaneios”. Entre os comentários, há quem peça foto do pé antes de comprar o sapato.

“(…) O cheiro de um lindo pezinho suado é a assinatura de sua dona; revela sua natureza de forma mais crua, mais rústica e mais verdadeira”, explica um texto da revista online Feet Mag, que aborda a cultura podofetichista. “É como quando o homem se fazia valer do seu apurado olfato como um de seus instrumentos de sobrevivência e perpetuação da espécie”. O autor esmiúça os tipos de chulé. Segundo ele, podem variar de acordo com o material e design do sapato (aberto ou fechado), a presença de meias… e inclusive o ciclo hormonal da mulher.

O tesão por chulé deriva da podolatria, popularmente conhecida como o fetiche por pés. A medicina considera um tipo de parafilia, ou seja, uma preferência sexual fora do comum que se manifesta por fantasias e/ou comportamentos. Por exemplo, ter prazer e chegar ao orgasmo tocando, beijando, lambendo os pés de outra pessoa. Ou têm fixação sexual por um objeto, como sandálias de bico fino e salto alto.

Parafilia é doença? Nem sempre. “Para merecer tratamento, o comportamento deve causar sofrimento significativo, envolver risco de lesão física/emocional à parceria, parceria sem consentimento e um padrão de excitação sexual constante sobre o ‘fetiche’, não apenas um impulso situacional”, afirma a psiquiatra e sexóloga Marina Zaneti, da UNIFESP.

Como a sexualidade humana é extremamente complexa e os tabus sociais confinam desejos no anonimato… eu não duvido que você já tenha tropeçado por aí (quem sabe até conviva) com algum amante de chulé enrustido. Alguém que acha um desperdício você jogar fora ou botar pra arejar aquela sapatilha de sola sintética que gruda uma nhaca desgraçada.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria

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