'Tenho direito à sexualidade': soropositivos contam as dificuldades da retomada da vida sexual

Áurea e Gabriel – Foto: Arquivo Pessoal

Aos 31 anos, ao mesmo tempo em que chorava pela morte do marido, vítima da Aids, Áurea Carolina Coelho More descobria ser portadora de HIV. Uma descoberta recheada de medos e angústias calcadas no desconhecimento. Mas que não foram suficientes para que aquela mulher de 31 anos assinasse o seu atestado de óbito, desistisse de seus sonhos, tampouco de sua vida sexual. A busca pela informação –aliada ao tratamento contínuo– propiciaram a ela uma vida completamente normal e é sobre isso que vamos falar no Dia Mundial da Luta contra a Aids, lembrado em 1º de dezembro.

“Meu marido começou a ficar muito doente. Passou por vários médicos e diferentes tratamentos. Mas nada parecia surtir efeito. E dois anos depois, em 2006, recebeu o diagnóstico da Aids já em fase terminal”, conta a professora universitária, que também fez o teste de HIV já sabendo do resultado. “Ficamos casados durante sete anos e o sexo sem preservativo era comum.”

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Com estado crítico do esposo, ela não teve muito tempo para refletir sobre sua condição. “Naquele momento, estava lutando pela vida dele. A ficha só caiu mesmo depois da morte dele, em 2006”, afirma Áurea, que temeu. “Medo de ficar doente, e principalmente, de morrer. Levei quase dois anos para entender que a história dele não era a minha.”

Segundo ela, foi preciso muito esclarecimento para que pudesse exterminar a “apavorante sensação” de que era “radioativa ou suja”. “É assim que a sociedade olhava e ainda olha para os portadores de HIV. O que é uma hipocrisia. Por que se existe um pecado em tudo isso é o sexo. E quem é que não faz sexo?”, questiona ela.

O HIV não é uma doença, é apenas uma condição, diz Áurea

Áurea conta nunca ter sido impedida de levar uma vida normal por causa de seu estado. “A única diferença é que tenho que tomar um medicamento diário pelo resto da minha vida, assim como quem tem diabetes ou hipertensão”, compara ela, que afirma que, em 12 anos de tratamento, nunca adoeceu e nem sofreu qualquer efeito colateral dos remédios.

Sexo depois da descoberta

E um dos momentos mais marcantes de toda essa trajetória, segundo ela, foi a primeira vez que fez sexo após o diagnóstico. “Foi o resgate da minha sexualidade, feminilidade e até da minha dignidade. Uma libertação, afinal continuava sendo mulher e também tinha o direito ao prazer”, lembra Áurea, que chegou a se casar novamente com um homem soronegativo.

Atualmente separada, a professora universitária relata a existência de preconceitos velados. “Quando abro que sou soropositivo, alguns homens somem”, diz Áurea, que aponta o desconhecimento das pessoas em relação ao vírus, que não pode ser transmitido com o uso de preservativos. “E estando com uma carga viral indetectável [efeito do tratamento], não transmito o vírus nem sem o uso da camisinha.”

“Não posso ter a minha sexualidade negada por ter o vírus”, pontua Áurea, que é criadora da página Mulheres Vivendo com HIV.

“Segredo é ser honesto com o parceiro”

Helton Gabriel Lima dos Santos tinha 24 anos e uma vida sexual ativa quando descobriu que era portador de HIV. Uma gripe forte o levou ao diagnóstico. “Fiquei sem chão”, relata ele. O medo do preconceito o fez se fechar por cerca de seis meses. “Nesse período, não me relacionei com ninguém”, conta o educador do Instituto Cultural Barong, que atualmente tem 28 anos.

“Ainda que tenha iniciado o tratamento logo após a descoberta, atingido uma carga viral indetectável que evitasse o risco de transmissão do vírus, o medo falava mais alto. Pensava em como contaria aos futuros parceiros que era soropositivo, qual seria as possíveis reações.” A rejeição era o principal ponto — algo que foi sendo superado gradativamente.

O HIV nunca me definiu e jamais vai me definir. Nunca deixei o vírus me limitar. Sou muito maior que ele

Ainda assim, segundo ele, a sua nova primeira vez foi “bem tensa”. “Com o apoio do parceiro, que estava ciente de minha condição, acabou correndo tudo bem”, lembra ele, que já foi rejeitado por outras pessoas por ser soropositivo. “O parceiro casual ou não tem o direito de saber da sua sorologia. Nunca transei com ninguém que não soubesse da minha condição.”

Segundo o educador, se o seu antigo namorado tivesse sido transparente com ele, talvez não teria contraído o vírus. “É importante testar, descobrir e tratar. Isso é cuidar de si e do seu parceiro também”, aponta ele.