Teatro do pós-pandemia dispensa atores de carne e osso e lota plateias ao vivo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na sua origem grega, a palavra teatro significava, literalmente, "lugar de onde se vê". Daí o problema conceitual enfrentado pela arte milenar durante a pandemia —como trazer aquele que era o encontro entre intérpretes e público, proporcionando uma reflexão, para o ambiente virtual em que os corpos podem estar separados não só no espaço, mas às vezes, no tempo?

Encenadores deram as suas respostas a partir de peças no Zoom e gravadas. Mas agora, num momento de transição da pandemia, o questionamento passa a ocupar também o espaço físico, com dois novos espetáculos que podem chamados de performances ou instalações estreando em São Paulo neste mês.

As novas linguagens que o teatro vem experimentando representam, acima de tudo, o tempo atual, em que nunca se discutiu tanto a presença. Afinal, com o isolamento social e a comunicação sendo feita principalmente online, em videochamadas o mais comum é ver telas e mais telas, cem a certeza de que alguém do outro lado está de fato ali ouvindo. Nesse caso, "está me ouvindo?" acabou sendo muito perguntado.

Essa frase, assim como "você está me vendo?", é usada como dispositivo no espetáculo-instalação "Leste", com direção e dramaturgia de Martha Kiss Perrone. Uma mistura de teatro, cinema e música, a nova produção da Casa do Povo nasce a partir da peça de teatro iídiche "Um Sonho de Goldfadn", do diretor judeu polonês Jacob Rotbaum.

A peça, ressignificada para os dias de hoje, tinha como ideia inicial uma montagem com atores e músicos em um filme realizado ao vivo pela Casa do Povo, com o público percorrendo a narrativa. Por causa da pandemia, no entanto, só a segunda ideia, de uma instalação imersiva, se manteve, e o espetáculo migrou de vez para o cinema. "Dentro dessa impossibilidade que a gente viveu do teatro existir como a gente conhece, esse deslocamento fez a gente criar uma invenção de linguagem", diz Perrone.

Sem receber público desde os anos 1980 e fechado desde o início dos anos 2000, "Leste" finalmente abre as portas do teatro TAIB para o público, um lugar importante para a comunidade judaica, além de ter sido uma das sedes do movimento teatral de vanguarda de São Paulo nos anos 1960 e 1970.

O público ouve o prólogo do espetáculo —em iídiche, língua historicamente falada pelos judeus ashkenazi— na voz de Hugueta Sendacz, uma das idealizadoras do projeto.

Nas ruínas do teatro desativado, foi gravado o filme que conta justamente a história de um teatro em risco, quando o diretor de uma velha casa de espetáculos em Varsóvia resolve tirar de seu repertório todas as peças iídiche depois que o ator principal é preso pela polícia política. O contrarregra convoca, então, os personagens vindos do leste europeu das peças de Goldfadn.

A ausência do elenco, do qual fazem parte Assucena Assucena, Heitor Goldflus e Rodrigo Bolzan, dá origem a uma outra presença, como afirma a diretora. "Quando a gente vai olhar esse palco no prólogo, ele está preenchido tanto de fantasmas ancestrais que ergueram esse espaço, como dos próprios atores que viveram aqui nesses dias."

Em seguida, o público se desloca para o salão do centro cultural, onde se depara com duas telas com projeções diferentes e uma lona preta no meio, uma fuga da ideia de cinema tradicional.

O segundo espetáculo que também usa o espaço para provocar experiências no espectador, sem a presença física dos atores, é "Fim de Festa: Um Mergulho para Remixar a Realidade", dirigido por Fabiana Monsalú e realizado pela CompanhiaDaNãoFicção. Nele, o público ouve uma peça teatral se desenrolar por meio de fones de ouvido ao mesmo tempo em que percorre o local onde ela foi encenada.

Num cenário que exibe os resquícios de uma festa, com garrafas no chão, balões por todos os lados, batatas chips e fitas cassetes espalhadas, o público ouve dois homens que acordam no dia seguinte ao evento. A conversa entre eles busca levar o público a refletir sobre conceitos como patriarcado e masculinidade tóxica. Eles trazem relatos subjetivos como a pressão para ficar com uma garota ou a bronca que levavam dos pais por chorarem.

Para a gravação das cenas, foi usado o sistema de som binaural com um microfone específico que capta 360 graus. "É um trabalho de transpor a dramaturgia para situações reais, captando todo o áudio", diz Renato Navarro, responsável pela criação sonora. Ele diz que é uma ideia de hiper-realismo, em que o espectador evoca a presença pelo som. "Não temos o corpo físico dos atores, mas eles estão ali por meio da voz."

Essa obra performativa, que Monsalú não quer rotular, põe o espectador para fazer parte do trabalho. "A gente convoca a presença a partir da escuta, e os sentidos vão sendo construídos a partir da performatividade do espectador no espaço", diz a diretora, que diz querer pensar mais no espectador e nas memórias que ele traz.

O misto de presença e ausência de "Leste" também se relaciona com a memória, com a trama que aborda diáspora, sonho e ancestralidade. Segundo Perrone, o espetáculo encara o tempo presente, em que todo mundo ficou muito individualista e os encontros vêm acontecendo aos poucos. Para além disso, ela afirma também que esse é um momento de reinvenção. "Como legado da nossa geração, sempre em momentos muito trágicos vem um deslocamento e vem uma invenção de linguagem", afirma.

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LESTE

Quando De 11 de novembro a 05 de dezembro, quinta-feira a sábado, às 20h, e domingo, às 19h

Onde Casa do Povo - r. Três Rios, 252, Bom Retiro

Preço Gratuito

Classificação Livre

Autor André Lu, Assucena Assucena, Heitor Goldflus, Rodrigo Bolzan e outros

Direção Martha Kiss Perrone

Link: https://casadopovo.org.br/

FIM DE FESTA: UM MERGULHO PARA REMIXAR A REALIDADE

Quando De 11 a 14 de novembro, quinta e sexta-feira às 20h e sábado e domingo às 19h e 20h30

Onde Estúdio NU - r. Maria Paula, 122, República

Preço R$ 20

Classificação 16 anos

Autor Camila Damasceno

Elenco Hercules Morais e Magno Argolo

Direção Fabiana Monsalú

Link: https://www.sympla.com.br/produtor/companhiadanaoficcao

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