Tatá Werneck: quem disse que amor próprio é muleta de mulher solteira?

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
Tatá Werneck postou a frase de um livro no Instagram e teve que explicar o básico: amor próprio é para todo mundo
Tatá Werneck postou a frase de um livro no Instagram e teve que explicar o básico: amor próprio é para todo mundo

"Hummm, tá solteira, é?". Esse foi um dos muitos comentários que Tatá Werneck recebeu no seu Instagram na última semana, depois de postar uma foto com um trecho do livro '500 dias sem você', de Samantha Silvany (Editora Crivo). A frase em questão é direta e reta: "O único amor capaz de nos salvar é, e sempre será, o próprio". Combinado com o interesse que as pessoas têm na vida alheia e com a idealização da felicidade no outro, a primeira conclusão a que os usuários da rede chegaram foi que a atriz tinha se divorciado do marido, o também ator Rafa Vitti.

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Aliás, os comentários foram tantos que Tatá precisou intervir: "To casada. Amor próprio não é só para solteiras não, é para todo mundo", respondeu ela a um dos (muitos) comentários. Considerando todos os movimentos que têm acontecido na internet em torno da autoaceitação e da popularização do termo "amor próprio", por que será que as pessoas linkam o assunto à solteirice?

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Vivemos em busca da felicidade, e essa busca pode acontecer de muitas formas. Encontrar um par para compartilhar essa jornada parece um dos pontos principais para chegarmos ao que se entende por "ser feliz". Mas as questões, com isso, são muitas e podem ser vistas por muitas facetas.

Uma delas é histórica. Décadas e décadas atrás, as mulheres eram vistas como bens materiais e o casamento era acertado por meio de um "dote", ou seja, o pagamento por meio de dinheiro, transferência de terras ou outro bem entre os pais da noiva e o noivo quando a mulher se casava. Por isso, o ideal era que as mulheres casassem "para cima", crescendo socialmente e com um dote que fosse considerado bom.

Some-se a isso o fato de que a função da mulher foi colocada também nesse lugar: de casar e ser a responsável pelo lar - Jane Austen retrata isso muito bem em "Orgulho e Preconceito”, aliás. Olhe novamente para o mundo contemporâneo e perceba que, por mais que muitas coisas tenham mudado (ainda bem), a ideia de que uma mulher precisa ainda ser parte de um casal para ser feliz (enquanto os homens podem se valer da solteirice qualquer que seja a idade) ainda se mantém firme e forte.

E o que isso tem a ver com amor próprio? Calma, vamos chegar lá. É aí que entra uma outra faceta dessa questão: a terceirização. Some a essa herança histórica um costume do ser humano de terceirizar os motivos pelos quais sente ou pensa alguma coisa. É o típico "serei mais feliz quando fizer uma viagem", "vou encontrar o amor quando conseguir um namorado", "vou ter mais sossego quando conseguir um salário maior", e assim por diante.

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Isso colocou o amor próprio em uma posição de muleta. Enquanto a mulher (porque, predominantemente, falamos com mulheres quando esse é o assunto) não encontra o grande amor da sua vida, ela nutre um pseudo-amor por si mesma. É visto como um prêmio de consolação.

Porém, se olharmos para o amor próprio pela lupa da autoestima, a roda gira e a coisa toda ganha uma outra perspectiva. Por exemplo, a ideia de que é preciso um homem para experienciar o amor é tão grande no inconsciente feminino (e do ser humano como um todo), que é comum as mulheres aceitarem situações absurdas em nome dele. É por isso que os índices de violência doméstica são tão grandes por aqui e as denúncias aumentaram em torno de 40% durante a pandemia de coronavírus, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Os relacionamentos abusivos são um resultado de uma condição histórica, da falta de autoestima e amor próprio de muitas mulheres. Estudos como o feito pela gigante de cosméticos Dove, por exemplo, mostram que essa questão já começa cedo: não só apenas 4% das mulheres no mundo inteiro se consideram bonitas, como apenas 11% das meninas se sentem confortáveis para se descreverem dessa maneira.

Ame a si mesmo para (depois) amar o crush

E onde todas essas informações convergem? Em um lugar muito simples (e prático) que é: terceirizamos a felicidade e o amor e esquecemos de nutrir essas duas coisas, primeiro, em nós mesmos. Uma frase famosa do reality show RuPaul's Drag Race diz que "Se você não ama a si mesmo, como diabos vai amar outra pessoa?". Sua veracidade é maior do que muita gente pensa, porque o amor deve, sim, ser recíproco, mas precisa começar em algum lugar.

A ideia de que o amor próprio é um remédio temporário, que supre uma necessidade momentânea até o próximo relacionamento é errada. É um exercício diário que serve para todos, e precisa de investimentos de tempo e energia tanto quanto um namoro ou um casamento.

O único amor capaz de salvar é sempre o próprio

Conhecer a si mesmo, aceitar a si mesmo e, até mesmo, fortalecer as suas características positivas para compartilhá-las com os outros é essencial para não cair em relações tóxicas de qualquer natureza - seja romanticamente falando, seja uma relação de amizade ou de trabalho.

Movimentos como o body positive ou o acne positive não servem apenas para trazer consciência que as mulheres podem, sim, se sentirem confortáveis e bem em si mesmas enquanto estão solteiras. Pelo contrário, são ferramentas para que tirem da mente a ideia de que precisam se adaptar a um padrão de beleza para, inclusive, serem amadas por outra pessoa.

O que garante uma vida feliz e repleta de amor é esse investimento diário, a longo prazo, na felicidade e amor que começam dentro de cada um e se expandem para as relações, quaisquer que sejam. De fato, o único amor capaz de salvar é sempre o próprio, porque é ele que serve como direcionador e balizador de relações saudáveis e decisões conscientes sobre qual caminho seguir.

Já que 2020 se mostrou um momento de rever valores e planejamentos, por que não começar olhando para a forma que, sim, você se olha? Esperar que alguém supra o amor que você busca não só é insensato como até meio cruel - afinal, quando foi a última vez que as expectativas que você criou a respeito de um relacionamento se cumpriram na totalidade?