Tapa de Will Smith é rara defesa pública diante da humilhação de mulheres negras

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·6 min de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

A cerimônia do Oscar 2022 foi totalmente eclipsada pelo tapa dado por Will Smith no rosto de Chris Rock. O ator, que pouco depois venceu o primeiro Oscar de sua carreira, subiu ao palco e bateu em Chris Rock como resposta a uma piada sexista e capacitista do humorista sobre sua esposa, Jada Pinkett Smith.

Rock tirou sarro de Jada a chamando de G.I Jane, comparando seu visual com o de Demi Moore no longa "Até o Limite da Honra", no qual a atriz raspou a cabeça para o papel. Jada, entretanto, não está careca por escolha estética e sim devido a um distúrbio auto-imune chamado alopecia. Revoltado, Smith subiu ao palco defender a esposa e depois, em meio à lágrimas, pediu desculpas ao público e disse ser capaz de fazer "loucuras" por seu amor pela família.

Capacitismo e sexismo

Não houve nenhuma loucura na atitude de Will Smith. A piada de Chris Rock foi não só sexista como capacitista, já que uma doença auto-imune não deveria ser mote de nenhum tipo de piada ou ridicularização.

Em entrevista ao Yahoo, o influenciador digital Ivan Baron definiu o capacitismo como um reforço da ideologia colonial de busca pela "perfeição". “Capacitismo é aquela velha ideologia que apenas corpos e mentes perfeitas são funcionais, e quem não preencher esses requisitos estarão excluídos, isso vale para as Pessoas com Deficiência. A melhor forma de combater é a desconstrução, criando novas narrativas aonde essas pessoas sejam protagonistas e não estejam mais em papéis de “Especiais” ou “Desumanos”", afirma.

Piadas a respeito da aparência de uma pessoa com qualquer tipo de deficiência mexem com a autoestima do indivíduo e desumanizam o alvo da chacota, especialmente quando falamos de uma mulher negra, que já precisa lidar com padrões de beleza racistas criados pela branquitude. O caso é ainda mais delicado pela alopecia ser agravada pelo stress, ou seja, a humilhação pela qual Jada passou pode piorar ainda mais seu estado de saúde.

Em um texto sobre o assunto, a escritora Joice Berth aponta que a fala de Rock desumaniza Jada ao ridicularizar exatamente seu cabelo, sendo que mulheres pretas são alvos da patrulha da branquitude sempre que assumem seu cabelo natural. "Ridicularizar mulheres negras é um dos “esportes” preferidos do racismo. O mundo racista converteu o cabelo da negritude em instrumento de opressão estética. Desde que nascemos nosso cabelo é alvo de piada, não importa se é natural ou se está de acordo com o que a sociedade brancocêtrica definiu como bonito. É sempre alvo de piadas", escreveu.

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que Chris Rock faz piadas sexistas às custas de mulheres pretas. Na cerimônia do Oscar de 2016, o humorista fez uma piada sobre as calcinhas da cantora Rihanna, reduzindo a importância da artista à sua sexualidade.

O que é alopecia

A alopecia é um dos problemas mais relacionados à perda de cabelo ou pelo entre homens e mulheres em qualquer parte do corpo. Ela pode ser causada por influências genéticas, processos inflamatórios locais ou doenças sistêmicas.

Jada Pinkett Smith arrives at the Vanity Fair Oscar Party on Sunday, March 27, 2022, at the Wallis Annenberg Center for the Performing Arts in Beverly Hills, Calif. (Photo by Evan Agostini/Invision/AP)
Jada Pinkett Smith arrives at the Vanity Fair Oscar Party on Sunday, March 27, 2022, at the Wallis Annenberg Center for the Performing Arts in Beverly Hills, Calif. (Photo by Evan Agostini/Invision/AP)

Um dos tipos mais comuns de alopecia é a areata, que é uma doença autoimune — quando as células atacam o próprio organismo. Ela atinge aproximadamente 2% da população mundial em diferentes níveis — pode afetar desde pequenas áreas do couro cabeludo ou da barba, por meio de lesões circulares, ou até causar a completa ausência dos fios em todo o corpo.

Ninguém defende mulheres negras em público

Na compilação "Intelectuais Negras - Estudos Feministas", a teórica bell hooks fala da alienação da mulher preta em contextos afetivos: homens querem conselhos, apoio emocional e amizade de mulheres pretas, mas não é com elas que a maioria se relaciona, casa e assume publicamente. "É sobre o ato de amar e ser amada que se alojam as hierarquias sociais prescritas e as representações feitas a respeito do corpo da mulher negra", explica Hooks. Quantos homens brancos por aí assumem as mulheres pretas como suas parceiras e esposas?

A rejeição sistemática de mulheres pretas é uma arma do racismo, e Will Smith desafiou esse abandono defendendo Jada publicamente. Diante de uma das noites mais visadas do entretenimento mundial, Smith arriscou o cancelamento de seus pares e do público ao disparar contra Chris Rock. "A atitude do Will Smith é raríssima!! Homem defendendo mulher negra? Publicamente? Raríssimas vezes na história o mundo viu isso. Os homens(de todas as raças) tem VERGONHA até de gostar de mulher negra! Elogio? Só escondido e olhe lá!", escreveu Joice Berth.

Carla Akotirene, escritora e doutoranda em estudos feministas pela Universidade Federal da Bahia, definiu a atitude de Smith como coerente diante da violência sofrida por Jada. "Aplaudo Will Smith, porque gênero construiu a masculinidade a partir da violência. Os homens são socializados para darem murro, as músicas fazem menção a bater, a botar com força. Então nessa emoção de ver sua companheira sendo humilhada, nada mais coerente que um homem enquadrar o outro, como quem enquadra a sociedade".

Cabelo é poder

Mulheres negras passam por muito racismo ao assumirem seus afros, e são vítima constante de opressão diante de padrões de beleza criados pela branquitude. No Egito antigo, penteados consolidavam a identidade e o status social e político de quem os usava, e foi nesse contexto que foi criado, por exemplo, o pente garfo.

A origem dos cabelos trançados remonta a 3.500 a.C, na região da Namíbia, na África, onde cada etnia adotava diferentes tipos de trançado, indicando idade, estado civil, poder e status social.

Para evitar os pontos de calvície causados pela alopecia, Jada resolveu raspar a cabeça e afirmou que está em paz com a decisão. Piadas como a de Chris Rock podem mexer não só com a autoestima da atriz como de todas as mulheres pretas que sofrem com a síndrome e precisam se privar de usar seus cabelos como símbolo de beleza, orgulho e ancestralidade.

Quem sai ganhando é a branquitude

A situação entre Chris Rock e Will Smith é complexa: estamos falando de dois homens pretos brigando em um palco para o entretenimento da academia do Oscar e do público, em um local majoritariamente branco. O Oscar é uma premiação notoriamente afetada pelo racismo, e apenas uma mulher venceu o prêmio de melhor atriz em toda a história com Halle Berry em "A Última Ceia".

Nesse contexto, só a branquitude sai ganhando quando a dor e o sofrimento de três pessoas pretas é transformada em entretenimento diante de um dos palcos mais visados do mundo da arte. É preciso humanizar esses espaços para que violências de gênero e estruturas racistas não façam da dor uma moeda de troca por audiência, memes e chacota.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos