O fim da polêmica e as negas

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Cena do primeiro episódio de “Sexo e as Negas” (foto: divulgação/Globo)

A internet criou o estranho fenômeno: campanhas de boicote são espalhadas pela rede fazendo com que o tal objeto de protesto fique cada vez mais popular. Alguns especialistas veem nisso uma eficiente estratégia de divulgação. Não à toa, muitos blogueiros apelam para a polêmica só para ganhar uma promoçãozinha por parte da ala ofendida (que é sempre muito ativa em espalhar informação). Por que seria diferente com os programas de TV? Certamente não era essa a intenção de Miguel Falabella ao criar “Sexo e as Negas”, mas não há dúvida de que muita gente acabou assistindo o primeiro episódio da série só para ver o motivo de tanta grita.

Então, eis que a propalada, esculhambada e muito bem difundida série foi ao ar. E o que se viu? Vamos pela ordem:

Primeiramente uma história protagonizada por quatro mulheres negras. Somado ao elenco de apoio e figurantes, foi o maior número de atores negros reunidos em uma série nacional sem que ela estivesse falando dos tempos da escravidão no Brasil colônia. Ou seja, você tem “afrodescendentes” sendo tratados como personagens principais na vida real e não apenas na ficção.

A segunda coisa evidente foi que se trata de mais uma série estilo Falabella: gente suburbana afirmando sua “suburbanidade” a cada fala, como se quem morasse na periferia passasse o tempo todo reafirmando sua condição. Essa exaustiva referência à classe social era piada recorrente em “Sai de Baixo” e “Pé Na Cova”.

A terceira, uma excessiva apelação ao sexo. Ok, o nome da série é “Sexo e as Negas”, mas aí você tem uma cena em que a camareira transa com um sujeito na coxia do teatro, perde uma pulseira, o sujeito leva a pulseira para ela em uma festa poucas horas depois… e eles transam de novo. Desnecessário.

Na sinopse da série, Falabella fez questão de dizer que se tratava de uma versão suburbana (ó aí…) de “Sex and the City”. Pois bem, na série americana cada uma das quatro amigas tinha características muito bem delineadas: Samantha era a “devoradora de homens”, Charlotte era a certinha, Miranda a workaholic e Carrie a protagonista/narradora enrolada com Mister Big (há, inclusive, um personagem com esse apelido na série de Falabella).

Em “Sexo e as Negas”, Falabella faz o papel de Carrie ao assumir a narração em off (desnecessária, pois repete tudo o que o público está vendo) e não ficou claro quem era a devoradora de homens, já que todas elas agiam com uma fúria sexual excessiva. Também não ajuda mostrar uma das protagonistas se esbaldando numa transa dentro de um carro para, na cena seguinte, vê-la contando para as amigas que foi péssimo.

Se fosse resumir rapidamente, diria que o episódio começou com um off no estilo “Cidade de Deus”, explicando a origem da Favela de Cordovil; ensaiou um “Sex and the City”, mas acabou em situações que lembravam as cartas do Fórum da revista “Ele Ela” e terminou em um clipão tipo “Glee”.

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Sobre a questão das “negas” em si, bastava ter misturado um pouco, né? Algo mais realista. Poderia ter uma ou duas amigas brancas, a dona do bar e a vilã da história poderiam ser negras, algo assim.

Talvez os protestos diminuíssem, mas certamente não ajudaria a melhorar uma história que parte do nada e vai para lugar nenhum. Espero sinceramente que melhore, pois torço muito pelas moças do elenco.