O dia de ‘Doctor Who’ – três vezes e em 3D

É muito difícil para mim escrever sobre 'Doctor Who'. Me atrevo mas nunca acredito que o que escrevi ficou bom o bastante para descrever uma série tão cheia de peculiaridades, detalhes e referências. Mas hoje é dia de superar isso já que em 23 de novembro 'Doctor Who' comemorou 50 anos em grande estilo.

Fãs de vários países puderam assistir no cinema (em 12D, ops, só 3D por enquanto), simultâneamente com a televisão, um episódio especial lindo de morrer. De viver. De regenerar.

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Foram várias salas em diferentes estados do Brasil que tiveram os ingressos esgotados nas primeiras doze horas. Mais salas foram abertas. Mais cidade contempladas. Um segundo dia de exibição foi criado. Até o Google fez sua homenagem com um joguinho na página inicial de buscas durante dois dias inteiros.

E valeu à pena. Fui uma das pessoas privilegiadas que assistiu 'The Day of the Doctor' na 'telona' e tive a oportunidade de acompanhar os vídeos bacanas feitos com os personagens antes da sessão começar. De início, Strax deu dicas de boa educação na sala de cinema, o que já serviu como aquecimento do universo de criaturas fantásticas - e algumas muito divertidas - do seriado, como o guerreiro que não entende as 'criaturas inferiores com gêneros diferentes' do planeta Terra.

Logo após o didatismo, eis que surge Matt Smith (para delírio de todos) falando sobre a exibição tridimensional e fazendo brincadeiras 'interativas' com o público. E quando você pensa que o episódio vai começar é David Tennant, o amado décimo Doctor que surge derretendo os corações de todos que morriam de saudades do seu estilo paletó+all star de ser (sim, assumo minha passionalidade e amor por Tennant). Desde já a troca de farpas entre os dois 'Doctors' mostra que coisa boa vem por aí.

E veio mesmo. Sem decepcionar. Steven Moffat, responsável pela última temporada - onde parecia ter perdido um pouco a mão da série - voltou em grande estilo nesse lindo episódio de 75 minutos.

Nele, três Doctors se reencontram porque precisam tomar uma decisão importante: acabar ou não com todo o povo de Gallifrey para dar um basta à Guerra do Tempo. E essa, na verdade, é uma das características incríveis de 'Doctor Who': como o tempo é relativo, nada é linear e muito pode ser mudado, uma situação citada desde as primeiras temporadas pode, simplesmente, sofrer uma alteração drástica e ditar toda ação de uma temporada seguinte. Assim como essa possibilidade bem justificada da mudança de atores interpretando o personagem principal que fez com que a série completasse 50 anos até o momento.

Portanto o episódio inteiro girou em torno da decisão de destruir seu povo para salvar outros e da imensa culpa que o personagem sempre demonstrou ter. Para isso, John Hurt completou a tríade dos Senhores do Tempo com suas Tardis azuis e chaves-de-fenda supersônicas. Os diálogos entre os três com piadas incríveis sobre os vários 'eus' do presente, passado e futuro foram deliciosos. E foram os três que reinaram absolutos todo o tempo afinal, esse era o dia deles.

Clara (Jenna-Louise Coleman) estava lá, como sempre, sem muita representatividade. Rose Tyler (Billie Piper) também fez sua aparição de uma forma bacana, não como a companheira do nono e décimo Doctor, mas como a consciência de uma arma poderosa capaz de destruir universos. O tipo de coisa que pode parecer estranha para quem lê, mas que faz muito sentido para quem acompanha a série.

Por ter sido escrito por Moffat, por sua importância, pelo título 'The Day of the Doctor' e até mesmo pelo que aconteceu no capítulo anterior da sétima temporada, confesso que esperava um clima mais sombrio, denso, pesado. Isso não aconteceu. Foi um episódio com uma boa carga dramática, isso é inegável, mas que seguiu a essência divertida e até 'infantil' de 'Doctor Who'.

E claro, por ser um episódio comemorativo, não faltaram referências do passado com imagens de todos os atores que interpretaram o personagem principal e suas Tardis trabalhando em conjunto. Tivemos também citações de pessoas, lugares e situações importantes e até mesmo o uso do famoso cachecol característico do quarto Doctor que, inclusive, faz uma participação mais que especial aos 45 do segundo tempo.

Tom Baker, que foi o ator que passou mais tempo na pele do personagem - entre 1974 e 1981 - e também foi um dos mais populares, é quem dá a deixa para Smith sobre o que, provavelmente, será o foco da oitava temporada: a busca por Gallifrey. Agora é esperar ansiosamente o que vem por aí porque esse foi um delicioso 'aperitivo'.