Record não se mexe para emplacar “Pecado Mortal”

Gustavo Baena

Após uma estreia promissora e elogios da imprensa especializada, é intrigante constatar que "Pecado Mortal" segue estacionada na audiência, em geral amargando o terceiro lugar. A novela da Record, escrita pelo ex global Carlos Lombardi, costuma registrar 6,5 pontos de média na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 62 mil domicílios com TV). E isso já significa uma melhora, pois a coisa andava crítica!

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Devido ao bom desempenho da série "A Bíblia", a trama vem reagindo no Ibope, principalmente às quartas-feiras, chegando à casa dos 8 pontos. No entanto, tem tudo para chegar ou ir além dos 11 pontos da estreia, fazendo com que a emissora se fixe na meta dos dois dígitos. Claro que são outros tempos e marcar em torno de 18 pontos como conseguiram "Prova de Amor" (2005/06) e "Vidas Opostas" (2006/07), por exemplo, parece cada vez mais difícil e distante.

Mas o que acontece com "Pecado Mortal"? Logo que a novela estreou, há dois meses, destaquei que tinha ares de superprodução e fôlego para recolocar a teledramaturgia da Record na trilha do sucesso. Aparentemente, não é nada com a produção.

Apesar dos méritos (fotografia, boa direção, diálogos sarcásticos, por exemplo), há exceções. Arriscaria dizer que esse enredo mais sofisticado poderia ser sacrificado um pouquinho em favor de uma dose de didatismo. Telespectador gosta de se sentir cúmplice do autor. E algumas tramas de "Pecado Mortal" não são muito claras.

Num primeiro momento, é complicado entender até mesmo a disputa entre as famílias Veneto e Ashcar pelo poder e quem é quem nesse "jogo do bicho" (policiais, vilões, vítimas etc.) - parodiando a guerra pelo domínio do tráfico e entre bicheiros no Rio de Janeiro de 1977 retratada no enredo. Uma ajudinha para o público que vem descobrindo a história - e até mesmo quem vê desde o primeiro capítulo - assimilar algumas relações seria bem-vinda.

Ainda arriscaria dizer que falta uma dose de romance (um casal para o público torcer e se identificar) e um núcleo cômico. No mais, a novela padece mesmo da famosa falta de estratégia e de uma atenção especial por parte da própria Record. É principalmente isso que compromete o produto.

Sem contar que a emissora está cedendo à tática da Globo de minar seu produto. A novela "Amor à Vida" vem sendo esticada, terminando entre 22h30 e 22h45. E, enquanto não sobem os créditos finais da trama de Walcyr Carrasco, "Pecado Mortal" não entra no ar. Complicado.

Não seria o caso de repensar a faixa de novelas? Por que não das 20h15 às 21h00 como opção à "Além do Horizonte" e "Jornal Nacional"? As minisséries bílicas já vêm demonstrando força como alternativa à novela das nove ("Amor à Vida").

Para completar, mal vemos chamadas na grade da emissora ou mesmo nomes do elenco (com boas atuações, de modo geral) nas atrações da casa. Já passou da hora de por em prática uma campanha de relançamento ao longo da programação (como a própria Globo faz quando uma de suas novelas derrapa na audiência). Isso seria importante para situar, familiarizar (e motivar) o telespectador sobre personagens e tramas.

Ainda dá tempo de reverter a situação, bastam poucos ajustes. Até porque o produto que a Record tem nas mãos é bom!

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