"Superei um transtorno alimentar"

 

Mirian Bottan (Foto: Arquivo pessoal)

Por Juliana Gola

Em sua conta no Instagram, que tem mais de 113 mil seguidores, Mirian Bottan, 30 anos, se define como “uma mina dando um pau na bulimia”. O transtorno alimentar, que faz com que a pessoa provoque vômitos após as refeições, com medo de engordar, fez parte de toda a adolescência e juventude da jornalista, que recuperada, migrou para a ortorexia – a busca pela alimentação saudável. Em seu depoimento, Mirian conta como venceu seus medos ravamente conseguiu vencer seus medos – e agora compartilha uma linda história de superação e aceitação

“Eu tinha medo da comida. Foi assim que tudo começou. Quando eu tinha cinco anos, a minha mãe me inscreveu no primeiro concurso de beleza. Como eu era loirinha, bochechudinha, todos diziam que eu levava jeito, que ela devia me inscrever, e ela foi convencida: fiquei dos 5 aos 11 anos entre concursos e desfiles. Por ser colocada tão cedo numa posição onde precisava competir usando a beleza, ela passou a ser o centro do meu mundo.

Quando completei 13 anos, fui dos 44 para os 46 quilos e aquilo começou a me preocupar. Lembro que chegou uma revista em casa e, na capa, a manchete dizia: “Meu filho não pode morrer”. A matéria era sobre bulimia. Eu li o texto todo e fiquei assustadíssima, mas ao mesmo tempo só conseguia pensar que se eu vomitasse, não engordaria. Foi como se solucionasse todos os meus problemas, agora eu poderia comer o que quisesse. E foi aí que minha compulsão alimentar se intensificou. Já que eu ia vomitar, usava quilos de comida para afogar qualquer emoção que eu não desse conta. É o que acontece com qualquer outro tipo de compulsão, como a por álcool, drogas ou compras. Dos 14 aos 15 anos eu vomitava todos os dias, de 4 a 6 vezes por dia.

O antes, com bulima, e depois de Mirian, já curada(Foto: Arquivo pessoal)

Nessa fase eu cheguei a pesar 38 quilos. Minha mãe tinha uma balança em casa, pois participava de um grupo de emagrecimento. E essa balança foi um agente muito negativo, eu me pesava o dia inteiro. Antes de dormir tinha que estar mais leve do que o dia todo, senão eu ia ao banheiro e vomitava tudo, mesmo que esse “tudo” fosse apenas água.

Meus pais não sabiam do meu problema e só foram tomar conhecimento um ano depois. Tentamos vários tipos de tratamento, psicólogos, clínicas, mas eu não aceitava nenhum deles porque todos eram baseados em ameaças. Eles diziam, por exemplo, que se o nível de nutrientes no meu sangue não aumentasse, me internariam. Não havia uma abordagem humana, ninguém queria se conectar comigo e me explicar com carinho. Eu fui ficando meio careca, o corpo infantilizado, nas fotos aos 16, eu parecia uma menina de uns 11 anos, até parei de menstruar, reprovei um ano no colégio. Para mim, qualquer tratamento era sinônimo de engordar e isso eu não queria de jeito nenhum, mas ninguém me explicava o que estava acontecendo com o meu corpo por dentro e como o que eu estava fazendo nunca ia servir pra me deixar mais bonita.

Desde a infância somos bombardeadas com a ideia de que ser gorda é ser feia. A vida inteira ouvi minha mãe dizendo que tinha o braço gordinho, e foi bem fácil assumir esse “problema” pra mim.

Depois de sete psicólogas, uma conseguiu prender minha atenção, porque ela não falava diretamente no transtorno alimentar, nós conversavamos sobre tudo e, no que eu vejo hoje como a base, que são as questões comuns à idade, meus medos, raiva, inseguranças.. A partir daí, voltei a comer um pouco, mas sempre vomitando diariamente e com medo de carboidratos. Minha rotina era assim: tomava café da manhã, comia muito pouco durante o dia, chegava em casa depois do trabalho e comia tudo, vomitava, tomava água e ia dormir. Como a minha aparência estava melhor, ninguém me cobrava mais, todos achavam que estava tudo bem.

Foram muitas endoscopias, dor, as glândulas de saliva inflamadas que doíam e deixavam o rosto inchado, gastrite, o risco de perder os dentes, e eu achava que esse era o único modo de vida. Eu morava sozinha e não via como podia ser diferente. Minha vida social era muito difícil, dois copinhos de cerveja já acionavam o botão para o descontrole, o comer sem parar.

Mas foi em 2013 que as coisas começaram a mudar. Depois de ter ingerido uma grande quantidade de bebida alcóolica numa noite, em casa mesmo, sem nenhum motivo “especial”, acordei tremendo, com o coração batendo muito rápido, achando que ia morrer e me deu um clique: Por que eu to fazendo isso comigo mesma? Comecei a perceber que a compulsão, pela comida, álcool, o que quer que fosse, vinha do mesmo lugar: a ansiedade. Eu já morava com meu namorado, estava sem trabalho e bem deprimida, foi então que resolvi pedir ajuda. Liguei para o terapeuta de um amigo do meu namorado e marquei já para o dia seguinte. Dos 17 aos 26 anos eu tinha ficado sem terapia. Esse foi o primeiro passo da minha recuperação.

Em dois meses eu já estava trabalhando, ia uma vez por semana à terapia, mas estava infeliz com o meu corpo, então decidi buscar também ajuda nutricional e uma academia. Eu percebia que meu corpo estava diferente, pesava os mesmos 46 quilos da adolescência, mas estava tudo estranho, eu estava flácida. Foi aí que comecei a entender o funcionamento do corpo, a importância de cada alimento e o que ele agrega. A nutricionista me disse: seu corpo não tem mais preenchimento de músculo, se quiser perder gordura você precisa refazer essa massa magra, mas pra isso vai ter que comer muito, vai precisar confiar em mim. E foi o que eu fiz, confiei totalmente nela.

A fase obcecada pela malhação e alimentação saúdavel (Fotos: Arquivo pessoal)

Foi uma transformação muito louca, de repente comia 12 colheres de arroz no jantar e não vomitava mais. Comecei treinando três vezes na semana, e em alguns meses já ia todos os dias. Fui recuperando massa magra e em quatro meses comecei a ver alguma mudança. Quanto mais eu sentia a transformação, mais eu perdia o medo de comer. Mas apenas comidas saudáveis. Foi quando migrei da bulimia para a ortorexia, que é a obsessão pelo saudável. Achava que um pedaço de pizza era o fim do mundo.

Esse processo todo foi muito lento. Na virada de 2015 para 2016, eu finalmente tinha o corpo que havia almejado, durinho e sem gordura, e as compulsões haviam parado quase completamente. Mas eu ainda tinha crises enormes de insegurança projetadas em ciúmes do meu namorado, sempre achando que meu corpo ainda não era bom o suficiente, que tinha que ganhar mais massa e perder mais gordura, que qualquer mulher bonita era muito melhor que eu, a doença ainda estava em mim. Foi então que decidi mudar de estratégia e comecei a buscar meu valor em outra coisa que não fosse o corpo, buscar significado em outras conquistas. Comecei a ler sobre autocompaixão e passei a me perdoar e não me cobrar tanto.

Nesse momento nasceu o grupo no facebook “Precisamos Falar”. Comecei a me comunicar com outras meninas com o mesmo transtorno. Passei a focar nesse projeto, no meu trabalho e até em alguns hobbies que eu havia abandonado pelo caminho ao pensar apenas no corpo e na alimentação. Aos poucos, passei a ter outras prioridades, com a ajuda da minha nutricionista passei a estudar bioquímica e entendi que cada alimento tem influência direta no nosso cérebro, que os laxantes atrapalham a absorção dos minerais pelo intestino, o que piora a ansiedade e depressão. Hoje não vomito mais. Às vezes como um pouco mais, mas isso não me afeta. Quando vejo o que este trabalho com as outras pessoas está movendo, as mensagens que recebo no Instagram, as meninas que alcanço, tudo faz sentido. O que importa para alguém se o meu corpo tem gordura ou não? Meu foco mudou completamente. Minha alimentação hoje não acompanha mais minhas medidas, meu peso. Não piso numa balança há mais de um ano!

Mirian hoje incentiva todo mundo a ser feliz e se amar como é (Foto: Arquivo pessoal)

O que eu acredito hoje é no autoconhecimento, nos exercícios físicos por prazer, pra lidar com a ansiedade, na terapia, no amor próprio e respeito por mim mesma. Não negar a tristeza, encarar e falar sobre o que me aflige. Um terapeuta me disse que já saímos da barriga de nossas mães com o medo do abandono, pois nascemos prematuros e o abandono nesse momento significa o nosso fim. Os nossos medos vêm disso, por isso queremos agradar e conquistar o amor e atenção das pessoas. E é lidando com esses medos que evoluímos, não usando comida e álcool pra fingir que não sentimos nada. Eu sempre peço para os pais não falarem sobre a aparência dos filhos, isso não é o mais importante na vida e gera um sentimento de incapacidade, de não ser bom o suficiente. 90% dos casos que chegam até mim são inseguranças que vieram de casa, da cobrança de quem deveria estar ao lado. Para ajudar seus filhos a cuidar da saúde, chame-os para passear no parque, para cozinhar, esteja atento e aberto ao diálogo.

Não elogie características que causem pressão pelo medo de serem ‘perdidas’. Nem mesmo inteligência. Elogie o esforço, o conhecimento, estimule a realização de sonhos. E esteja alerta para garantir que sejam os sonhos deles, não os seus.”