Superbactérias: elas estão onde você menos imagina

(Foto: Reprodução Pixabay/ Bergadder)

Por Fabrício Calado 

Recentemente, o termo superbactéria começou a pipocar com mais frequência no noticiário. Alguns dos casos que chamaram a atenção incluem celebridades como a modelo Renata Banhara, internada em abril e submetida a cirurgia para tratar uma infecção no cérebro supostamente causada por uma superbactéria, e a blogueira fitness Gabriela Pugliesi, que teve uma infecção bacteriana (erisipela) na perna também em abril.

As duas celebridades sobreviveram, mas não é raro superbactérias causarem mortes. Em março deste ano, uma superbactéria matou dois bebês no Hospital Estadual Materno Infantil de Goiás. A ala foi isolada, e o atendimento às grávidas, suspenso no local. Em abril de 2015, o hospital St. Mary, em Londres, teria fechado uma de suas alas após uma superbactéria infectar oito bebês. É o mesmo lugar onde, em maio daquele ano, a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, deu à luz sua primeira filha, Charlotte.

Mas o que são superbactérias, e por que isso virou um problema de uns tempos para cá? A resposta pode te surpreender: desde feridas aparentemente simples a infecções urinárias podem evoluir para se tornarem superbactérias.

Definição
O termo “superbactéria” não é o preferido de muitas pessoas da comunidade médica, então, é comum ler por aí definições como bactérias multirresistentes ou bactérias resistentes a patógenos. Qualquer que seja o nome, trata-se de micro-organismos que sobreviveram a tratamentos com anitibióticos e se tornaram mais resistentes a eles.

Em fevereiro deste ano, a OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou uma lista com 12 famílias de superbactérias dignas de atenção e desenvolvimento de tratamentos. No topo, estão as três consideradas “mais perigosas” – Acinetobacter, Pseudomonas e Enterobacteriaceae.
As três superbactérias citadas acima são as principais causas de infecções hospitalares atualmente. Segundo Nicola Magrini, cientista do Departamento de Medicamentos e Produtos de Saúde Essenciais da OMS, elas lideram a lista por causa da ameaça à saúde humana e também pela falta de interesse dos laboratórios em desenvolver tratamentos para estes micro-organismos.

A lista da OMS também inclui algumas bactérias que causam doenças comuns, como gonorreia e intoxicações alimentares, que têm apresentado evoluções em alguns casos.

Mortes e entraves
É difícil cravar um número de mortes por superbactérias porque suspeita-se que muitos casos não sejam revelados publicamente. Escrito isso, uma estimativa é que infecções causadas por superbactérias matem 700 mil pessoas no mundo a cada ano.  Um dos motivos pelos quais laboratórios não desenvolvem tratamentos para algumas destas superbactérias é financeiro. Segundo Luis Fernando Waib, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, “é um processo longo e caro, que precisa de retorno financeiro”. A OMS cita o mesmo entrave financeiro, mas acrescenta que alguns laboratórios chutam os números (muito) pra cima. “O custo de desenvolver novos antibióticos para as superbactérias mais letais seria de algumas centenas de milhões de dólares, e não de bilhões como às vezes a indústria farmacêutica afirma”, diz, Magrini.

Situação no Brasil

Um particularidade no caso dos laboratórios brasileiros, segundo o consultor da SBI, é que qualquer pesquisa é mais difícil aqui. “Há enormes dificuldades desde o processo de conseguir o financiamento até a importação de reagentes e equipamentos”, diz Waib, citando também as restrições impostas pela lei de patentes e pela política brasileira de medicamentos genéricos.
Independentemente dos motivos, o consultor da SBI afirma que “as alternativas existentes” para o tratamento das superbactérias “estão se esgotando rapidamente”. O infectologista brasileiro diz que todas as bactérias na lista da OMS são encontradas no Brasil, com especial destaque para as chamadas enterobactérias (Klebsiella pneumoniae e E. coli, entre outras), além da Acinetobacter e Pseudomonas.

Segundo Waib, o número de superbactérias aumentou principalmente em hospitais devido à combinação de uso intensivo de antibióticos e um grande número de pessoas doentes circulando em um mesmo ambiente.

Como lidar
As medidas para prevenir as infecções por superbactérias adotadas pela SBI e OMS são semelhantes. Entre elas, estão a internação preferencial em quarto privativo; uso de luvas e aventais para prevenir transmissões de bactérias; higienização intensiva de superfícies próximas ao paciente; lavar as mãos antes e depois do contato com o paciente.

Nos casos de surtos, as medidas incluem isolar em uma ala do hospital pacientes com a mesma superbactéria, além de precauções específicas para cada local e doença. E faz toda diferença ter uma estrutura organizada e rápida o tempo todo, segundo a OMS. “Para que essas medidas preventivas sejam possíveis, o sistema de saúde precisa estar preparado e ter a cultura organizacional adequadas para implementá-las”, afirma Benedetta Allegranzi, coordenadora da Unidade de Prevenção e Controle de Infecções da Organização Mundial da Saúde.