Stepan Nercessian diz que medo da morte impulsionou estreia na literatura

BEATRIZ VILANOVA
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*ARQUIVO* Rio de Janeiro, RJ, 11.02.2018 - Stepan Nercessian. (Foto: Marlene Bergamo/FolhaPress)
*ARQUIVO* Rio de Janeiro, RJ, 11.02.2018 - Stepan Nercessian. (Foto: Marlene Bergamo/FolhaPress)

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - "Tenho 67 anos. Estamos vivendo, talvez, a época de maiores incertezas em relação à vida e à morte, e ninguém sabe o que vai acontecer amanhã." Foi com esse pensamento que o ator Stepan Nercessian, premiado por "Chacrinha: O Velho Guerreiro" (2018), retomou um sonho antigo: o de lançar um livro.

Após crescer em meio a Redações de jornais em Goiás, revisando artigos e escrevendo crônicas, Nercessian assumiu o papel de autor na virada dos anos 2000 quando esboçou as primeiras 40 páginas do que seria seu primeiro livro. Pelo analfabetismo digital, como ele mesmo define, apagou todas as páginas, ficando apenas com uma dezena delas, que estavam impressas.

Em 2018, ainda preso à ideia do livro e sem escrever algo novo, ele retomou a ideia e, em cerca de três meses, concluiu o "Garimpo de Almas", lançado em fevereiro deste ano, pela Editora Tordesilhas (R$ 40, págs 2016). "Uma das coisas que começou a me impulsionar foi o medo da morte. Chega um momento em que você enxerga a distância até o final [da vida]", diz. "Ficamos esperando as condições ideais para escrever, quando, na verdade, somos nós quem criamos essas condições."

O livro retrata histórias de pessoas comuns em contextos de derrotas, fraquezas e perdas -todas as memórias de um personagem central, que atravessa a velhice. Tais histórias resultam das andanças de Nercessian pela vida, marcada por um interesse profundo por outras pessoas.

"Haviam coisas dentro de mim que imploravam para sair. Neste período de dualidade em que vivemos, com super-heróis e supervilões, eu olho para as pessoas mais simples, que também são protagonistas de suas histórias e emoções", afirma o ator, que ganhou o troféu Grande Otelo, em 2019, como melhor ator por "Chacrinha - O Velho Guerreiro" (disponível no Globoplay).

Nercessian explica que o sofrimento é, muitas vezes, o cerne das histórias, e afirma que o intuito é enfrentar as "vidas perfeitas" compartilhadas nas redes sociais. Sua intenção, diz o ator, é tocar nos "sentimentos quase que proibidos" das pessoas, lutando contra a censura que muitas vezes os próprios autores se impõem. "Nem sempre o que sai de dentro de você é do seu agrado. Mas posso dizer que em 'Garimpo de Almas' não há autocensura, eu realmente encaro o que vem e lido com o que sai."

A entrada na literatura não significa um afastamento dos palcos ou das câmeras, que Nercessian define como o seu "ganha pão" há mais de 50 anos. Pelo contrário, ele afirma que sua carreira como ator tem papel importante na sua formação como autor, uma vez que o obriga a se livrar de preconceitos para dar vidas aos mais diversos personagens.

Ele mesmo já disse que não pretende enquadrar sua escrita em um único estilo. Em "A Arte de Pedir: Guia Prático para Inadimplentes e Negativados", livro escrito antes da pandemia da Covid-19 e com previsão de lançamento para este ano, Nercessian assume a personalidade de um homem inadimplente que dá dicas cômicas para lidar com sua situação --como aproveitar a energia do prédio em que vive e saber escolher um bom padrinho para seus filhos. Nas entrelinhas, o autor faz uma análise mais séria sobre o capitalismo e a Grande Depressão, em 1929-30.

Já em "Casa Amarela", livro iniciado durante a pandemia, volta a se arriscar no romance. Nercessian ainda procurou escrever uma poesia por dia, entre março e dezembro de 2020, o que resultou em uma coleção de mais de cem textos. Alguns deles, inclusive, estão disponíveis nas redes sociais do ator.

"Para quem não é poeta, é fácil escrever poesia", afirma o ator, em tom de brincadeira, que ainda encontra alguma timidez na hora de se definir como escritor.

RETIRO DOS ARTISTAS E COVID-19

Além de ator e escritor, Stepan Nercessian também é ex-presidente da Funarte (Fundação Nacional das Artes) e o atual presidente do Retiro dos Artistas, associação no Rio de Janeiro que oferece apoio social e assistencial a cerca de 60 músicos, atores, jornalistas e escritores idosos, com a ajuda de alguns funcionários.

Com alegria, ele comemora que dentro do retiro não houve sequer um caso de Covid-19, resultado da imposição de medidas rígidas, vigentes desde o anúncio da pandemia no país, em março de 2020. Todos os moradores e funcionários do retiro já receberam as duas doses da vacina contra a doença e ainda mantêm os protocolos de higienização e isolamento.

Nercessian diz que também aderiu ao confinamento radical, saindo apenas para gravar um especial do "Sob Pressão" e o "Cine Holliúdy" (ambos da Globo) e o filme "Confissões de uma Garota Excluída Mal-Amada e (um Pouco) Dramática" (Netflix), inspirado no livro de Thalita Rebouças e ainda sem data de estreia na plataforma. Vários outros trabalhos, ele diz, foram cancelados.

O ator, no entanto, faz questão de lembrar que a classe artística já enfrentava problemas antes da pandemia, efeitos de uma "visão canhestra e distorcida" do governo federal sobre a arte e cultura e que, para ele, afeta a imagem que uma parcela do público tem sobre os artistas. "Vamos sobreviver a isso, pois já sobrevivemos a coisas piores, mas a perspectiva é muito sombria, triste e grave", afirma.

"Na ditadura, o inimigo tinha um rosto. Mas o momento atual é pior: é como se houvesse um filhote distorcido da democracia; um governo eleito em processo democrático, através da escolha, mas amante da ditadura. É uma espécie nova de ditadores que usurpam a democracia", completa ele, que também já esteve na política como vereador do Rio de Janeiro e deputado federal.

Em meio à onda de negacionismo que atinge o país, o ator afirma que a principal meta para este ano é se manter vivo. E, quem sabe, conseguir retomar a esperança. "Não consigo programar nada, porque essa é uma era de incertezas muito grande. Você faz planos com uma pessoa, e no dia seguinte ela está morta. É assustador."