Spike Lee celebra vitória de Lula e chama Bolsonaro de gângster em evento no Rio

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 26.11.2013: SPIKE-LEE - O cineasta Spike Lee. (Foto: Zô Guimarães/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 26.11.2013: SPIKE-LEE - O cineasta Spike Lee. (Foto: Zô Guimarães/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A vinda supresa de Spike Lee ao Brasil trovejou no Rio de Janeiro em um dia de sol forte dessa sexta-feira. Ele veio como uma das principais estrelas do evento Rio Innovation Week que, em sua segunda edição, procura reunir um número massivo de palestrantes de todo o mundo, de áreas como a biomedicina e a robótica, de especialistas em metaverso a artistas plásticos.

Mas o que Spike Lee, desejado por todos os festivais de cinema, veio fazer em uma feira onde o tema é mais inovação que cinema?

No momento ocupado com o relançamento do seu filme "Malcom X", que completa 30 anos e é restaurada, Spike é, na vida real, um corpo em alta velocidade. Não perde um segundo com nada. Se não está falando, está pensando e, invariavelmente, puxando todos em volta para o seu ritmo "sem tempo a perder". O resultado é o segredo deste ser um dos criadores mais inventivos das últimas décadas.

Durante sua estada no Rio, o cineasta americano não parou um minuto. Fosse na disposição para subir em 15 minutos os mais de 700 degraus da comunidade de Santa Marta para reecontrar, 26 anos depois, a estátua de Michael Jackson instalada onde os dois filmaram parte do videoclipe "They Don't Care About Us" ou em um emocionante encontro com cem jovens alunos negros, cariocas, periféricos que fizeram este ano um curso gratuito sobre a obra inteira do do autor.

Jovens fãs choravam e tremeram por fotos e autógrafos, atendidos com doçura por Spike, quando ele percebeu ao entender, desta vez ele supreso, o tamanho da referência que ele é para jovens negros brasileiros —especialmente os que estão iniciando sua carreira no audiovisual.

Um dos nomes cotados para esse Rio Innovation Week foi o diretor James Cameron, que lançará "Avatar: O Caminho da Água" em dezembro —mas a curadoria achou mais ousada tentar a presença de Lee.

"Além de ser uma pessoa dificílima de trazer para festivais —é a primeira palestra de fato que ele veio fazer no Brasil—, o diretor é uma pessoa mais identificada com a potência inovadora que países como o nosso possuem", disse o curador André Weller.

Passamos o dia correndo com Spike Lee pela cidade. O resultado é essa entrevista onde falamos sobre tudo, menos de raios e trovões em céus abertos.

PERGUNTA - Bem-vindo de volta ao Brasil.

SPIKE LEE - Um novo Brasil, livre do gângster do Bolsonaro e que escolheu Lula, escolheu o amor. Estou muito feliz com isso, principalmente pela questão da Amazônia, que afeta o planeta inteiro.

P. - O senhor vinha realizando, quase dez anos atrás, um documentário à respeito do Brasil enquanto potência, havia entrevistado várias personalidades, desde artistas, como Seu Jorge, a políticos como o próprio Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Que fim levou o projeto?

SL - O documentário se chama "Go, Brazil! Go!" e está pronto há anos. Porém, por problemas jurídicos dos quais infelizmente não posso mencionar, o filme está engavetado. É uma pena.

P. - O Senhor ainda vê o Brasil como potência?

SL - Olha, o Brasil foi último país do mundo a abolir a escravidão. Como nos Estados Unidos, não é possível o avanço de uma sociedade sem que ela encare radicalmente de frente o racismo —problema que estruturou nosso mundo.

Eu ainda fico assustado quando venho ao Brasil, ligo a TV e vejo anúncios nas revistas onde a maioria das modelos são brancas de olhos azuis. Isso se reflete também na impressão que tenho sobre o cinema brasileiro, que vem tendo mais representatividade, eu sei, mas ainda me parece pouco, ainda é um estágio inicial.

P. - Aqui no Brasil estamos começando a superar a questão de filmes e séries só associarem personagens negros à violência. Nosso filme que vai tentar uma vaga no Oscar, "Marte Um", de Gabriel Martins, é um filme que retrata uma família preta de classe média baixa porém com forte laços afetivos, que lembra o seu filme "Crooklyn", de 1994, escrito por você e seus irmãos, uma autobiografia de sua infância no Brooklyn.

SL - É um de meus filmes favoritos.

P. - Quais são os outros?

SL - Difícil dizer, mas gosto de "Febre da Selva", de 1991, especialmente por conta de uma sequência onde o personagem do Wesley Snipes entra em uma cracolândia de Nova York, à procura do irmão, ao som de Stevie Wonder. A melhor sequência de música sincronizada com filmes que já fiz.

P. - O senhor veio ao Brasil para ser um dos principais palestrantes de um evento sobre inovação. De fato, tudo em sua obra, independente dos eventuais altos e baixos, tem seu grau de invenção. Desde ângulos novos, tomadas com duplo dolly, e até mesmo interferência gráfica em todos os créditos dos filmes. O que é inovação para o senhor?

SL - Inovação não é sinônimo de atividades feitas com novas tecnologias. Essas podem ser, nas mãos erradas, armas de desinformação. Nos EUA, as redes sociais foram usadas pelos perdedores da eleição para contestar o resultado nas urnas. Aqui no Brasil a mesma coisa também está começando a acontecer. Não pode.

Dois anos atrás, Trump usava as redes sociais para negar a Covid-19 e sugerir que as pessoas bebessem desinfetante de pia para se curarem. Inovação em 2022 é estar atento à informação que você consome. Inovação hoje é não ser uma pessoa estúpida.

P. - Em "Infiltrado na Klan", o senhor ganhou finalmente seu primeiro Oscar. É um filme que, em última instância, sugere que negros e brancos podem e devem trabalhar juntos na luta antirracista. Você homenageia uma jovem branca que na vida real foi morta por radicais de direita americana durante uma passeata antirracista da qual ela participava.

SL - Sem dúvida. Eles querem, eles precisam nos dividir para nos conquistar. Precisam que estejamos separados para que eles prevaleçam. Minha convicção é a contrária a isso. Devemos nos unir a qualquer custo.

P. - Seu filme mais famoso ainda é "Faça a Coisa Certa" (1989), considerado pela crítica, hoje, um dos filmes mais importantes da história do cinema. O que era, naquele filme, afinal, fazer a coisa certa?

SL - A questão nunca foi "o que é fazer a coisa certa" e sim "qual personagem fez a coisa certa neste filme". O que procurei foi desenvolver personagens que tomam escolhas diferentes e colocar no colo do espectador a escolha de decidir quem fez a coisa certa. A polícia? Quem incendiou a pizzaria? Ao final do filme há uma frase de Malcom X defendendo a violência como autodefesa e outra de Martin Luther King, que rejeita a violência como resposta ao racismo sofrido. Qual dos dois está fazendo a coisa certa? A escolha tem que ser do espectador. Senão não há real transformação interna nele.

P. - Uma das grandes lendas do mundo do cinema é sobre como o diretor alemão Wim Wenders se recusou a premiar "Faça a Coisa Certa" no Festival de Cannes daquele ano, alegando que o filme era muito perigoso e que poderia incitar violência popular. Como é sua relação com isso hoje?

SL - Isso foi uma questão muito simples de racismo e ponto final. Meu amigo, já morto, Hector Babenco, era parte do júri e me confessou que ele e a atriz Sally Field, também jurada, brigaram muito para que meu filme fosse o escolhido. Mas o alemão bateu o pé de forma para mim nada suspeita.

P. - E como foi a experiência de presidir o júri do festival em 2018? O seu júri premiou o controverso "Titane", o que te chamou mais atenção no filme da jovem diretora Julia Ducournau?

SL - Coragem e bravura. Hoje, essas são as qualidades que mais admiro em uma pessoa que cria cinema. E quando você faz o filme onde uma mulher engravida de um velho cadilac, é sinal que você é a pessoa mais corajosa do pedaço.

P. - O senhor também é um dos mais disputados professores de cinema, e há 20 anos leciona na graduação da Universidade de Nova York. É famosa na internet uma lista que o senhor elaborou de filmes obrigatórios que seus alunos devem ver. A lista surpreende praticamente por ter apenas clássicos do cinema americano.

SL - Essa lista não vale há muito tempo já. Eu tenho que atualizá-la. Ainda assim, manter uma boa parte de clássicos nela é fundamental. É preciso conhecer tudo o que foi feito em cinema, as inovações de formato e linguagem que ocorreram em cada época. Nem que seja para depois negar tudo o que se viu e ir por outro caminho.

P. - Em sala de aula o senhor fala um pouco sobre o seu processo criativo? Como ele funciona?

SL - De várias maneiras. Em "Faça a Coisa Certa", primeiro eu só tive o título. Depois, só sabia que gostaria que o filme se passasse em apenas um dia. Em seguida, decidi que seria no dia mais quente do ano. E assim foi indo.

É algo que vem da inspiração. Mas isso não significa que não haja trabalho duro. Uma ideia não surge do nada. Ensino que é obrigatório exercitar a imaginação o tempo todo. A cabeça criando, com disciplina, o tempo inteiro. Costumo comparar com o sinal de wi-fi. Em lugar que não pega wi-fi e as antenas estão quebradas, a imaginação não chega. Então, a cabeça tem que estar equipada. Não estou falando de nada novo não. John Coltrane em "A Love Supreme", já dizia isso com seu jazz. Stevie Wonder, Milton Nascimento e Gilberto Gil fazem isso em suas canções.

P. - O senhor é o único cineasta do mundo que intitula seus filmes de "joint", um trocadilho com bagulho. Isso se tornou mais uma marca registrada, sua. Mas afinal, como surgiu essa ideia?

SL - "Joint" é uma gíria para um lugar onde pessoas que querem fazer uma coisa boa se juntarem. É um lugar físico, mas também um lugar metafísico. Mas é um lugar. Um universo onde se reúne um grupo de amigos profissionais que se admiram para fazer um filme. Onde se reúne uma família.

P. - O senhor tem uma família e é pai de dois filhos jovens adultos. Lembra da lista de filmes que disse que era necessária, nem que seja para negá-la?

SL - Sei que é controverso, mas é necessário enfatizar —é preciso negar o que os pais querem para nós enquanto carreira de trabalho, especialmente pais pretos. Eles querem o nosso bem, o nosso melhor, mas eles sofreram muito pelo caminho. Esse sofrimento eles, inconscientemente, acham que nós temos que passar também. Não somos mais escravizados. Somos bisnetos de escravizados. Ao mesmo tempo, toda a minha força criativa vem dos meus ancestrais, que são de Camarões, na África. A minha manifestação é a manifestação deles.

P. - No livro "Black People Invented Everything", ou pessoas pretas inventaram tudo, o jovem historiador Sujan Kumar Dass, diz que povos negros inventaram não só a roda, mas a matemática, filosofia, arquitetura, medicina, física. Não aprendemos isso nas escolas. O que fazer para reestabelecer esse erro que ocorre no mundo inteiro?

SL - As pessoas, até hoje, preferem acreditar que alienígenas fizeram as pirâmides do Egito, e não arquitetos negros. Mas acreditam que a muralha da China, ou qualquer outro grande monumento, tenha sido feito por seres humanos.

É preciso não ter medo de nomear esta estupidez seletiva pelo que é —racismo. Parece que neste século há uma disposição maior para que este entendimento aconteça. Para isso acontecer precisamos continuar produzindo, de novos acadêmicos a novos artistas. "Pantera Negra: Wakanda para Sempre", do meu amigo Ryan Coogler acabou de estrear e é um lindo filme. "Não! Não Olhe!", de meu amigo Jordan Peele, é um dos grandes filmes do ano. É preciso produzir e dar o exemplo.