SPFW repudia Bolsonaro e o desmatamento com Paulo André e Sônia Guajajara

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A sensação de pesar com a política brasileira e o sangue de indígenas, negros e vítimas da Covid-19 estão entranhados na moda vista nesta São Paulo Fashion Week. A cada desfile há sempre um corte, cor, estampa ou presença que expõe o descalabro.

O furdunço de celebridades e flashes ainda é o mesmo de sempre, como o do desfile da Misci, mais aguardado da noite de quinta-feira, que reuniu um time de mulheres tão diferentes quanto a filha de Xuxa, Sasha, e a influenciadora Silvia Braz, uma das preferidas do luxo no país.

Quem via as blogueiras disputando a tapa um lugar nos bancos apertados do Komplexo Tempo, na zona leste, só para fotografar as passadas do "top" do momento, o ex-BBB e atleta Paulo André, o P. A., talvez não entendesse que a intenção do estilista Airon Martin era cutucar.

Cutucou o desmatamento sem precedentes da Amazônia nos últimos anos, com uma estampa verde e marrom, vestida por P. A., que simulava pedaços arrasados de terra.

Cutucar a fragmentação do país, apostando em joias com formato de um mapa do Brasil quebrado, convertidas em aviamento e joias. E, por fim, cutucar aquele que enxerga como regente dessa marcha funesta, o atual ocupante do Planalto, com uma série de looks vermelhos berrantes que serviam como pontos de cor para a coleção, majoritariamente neutra e talvez a mais inteligente desfilada por Martin em sua curta história na SPFW.

É curioso como ele, mato-grossense e cuja cidade natal, Sinop, é símbolo do agronegócio, consegue chegar a uma clientela abastada que pode pagar caro pelos conjuntos de alfaiataria e seda pura, cortados com rigor matemático e, ao mesmo tempo, vestir todos com imagens simbólicas do terror romantizado como Maria Bonita e Lampião, personagens explorados agora.

Casal pop do banditismo brasileiro, os dois guardam história controversa, lidos por uns como heróis da resistência no sertão e, por outros, sanguinários sem escrúpulos. Martin, espertamente, abraça essa dubiedade unindo a iconografia do cangaço com a tesoura clássica do luxo.

Falar de resistência também foi o norte do desfile de Naya Violeta, horas antes da Misci, que pôs na passarela a líder indígena Sônia Guajajara, trajada com o patchwork colorido que remete aos povos ancestrais do país. Ícone da resistência contra o assassinato em massa dos povos indígenas ocorrido nos últimos anos, ela levou à passarela da SPFW esse debate quando levantou uma bandeira na qual se lia "SP é terra indígena".

São as palavras represadas que se transformaram em tecido nesta metade de temporada. A Silvério, do estilista e cofundador do Projeto Sankofa, Rafael Silverio, vestiu seus modelos com looks pretos cujo interior revelava cores.

A desconstrução da alfaiataria de sua marca apareceu na passarela, mas foi revista em detalhes do guarda-roupa feminino, vide as caudas de sereia desfiladas por Pedro Scooby, ex-BBB e surfista, agora Tritão.

Mas foi no desfile de João Pimenta, no final da tarde de sexta-feira, que todo esse desânimo com a realidade foi vertida na passarela com poesia, tesoura afiada e conexão com o tempo.

Esse estilista mineiro, que se firmou como um dos maiores pensadores da moda masculina brasileira, releu parte da indumentária da Idade Média, a alfaiataria contemporânea e acessórios que relembram o figurino distópico de "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, para infusionar tudo numa espécie de velório.

Segundo ele, o cortejo fúnebre tem a cara dos dias de trevas do Brasil pandêmico e encerram sua trilogia de coleções voltadas ao terror do dia a dia.

Todo em preto, o desfile se iniciou com capas que fecham os corpos como mantas que enclausuram os desejos. Ao retroceder o relógio da moda no compasso do que se vê nas ruas, aplica anáguas ao look de alfaiataria para homens, cerra as cabeças com toucas que bloqueiam a visão periférica e mistura elementos dos cavaleiros das Cruzadas.

O metal não aparece em armaduras, mas em alfinetes que prendem as aplicações de brilho que Pimenta construiu como esqueletos, o final da linha para corpos outrora vivos.

Do look das viúvas, retira as rendas e os véus para levar para dentro de suas sobreposições, como se quisesse esconder qualquer resquício de beleza dentro das roupas.

Não que elas fossem desprovidas de graça. Ao usar veludos, jacquards, couro sintético, náilon, malhas e tecidos acetinados, o estilista consegue criar efeitos de luz nessa sinfonia de looks sombrios, na qual um corvo era a única imagem viva estampada.

As lantejoulas pretas e os pontos de luz que forraram esses tecidos começaram a aparecer no meio da apresentação, pouco a pouco, para criar a ideia de luz no fim do túnel, uma esperança de dias melhores que, embora ofuscada pela ausência de cor, ainda reflete em algum lugar esperando ser acesa novamente.

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