'Special', novo álbum de Lizzo, oscila entre o clichê e o extraordinário

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Muito mais difícil do que produzir uma obra deslumbrante é repetir a mágica. É o caso da cantora Lizzo, que na sexta (15) lançou seu quarto disco da carreira, "Special", depois de passar dois anos isolada em casa, "rebolando e fazendo smoothies", como ela própria diz na letra de "The Sign", que abre o novo álbum.

Considerada uma das maiores revelações da música americana de 2019, Lizzo não precisa de muito para arrancar elogios do público. Dona de um vozeirão sedutor que alcança notas graves e agudas com facilidade, a flautista ganhou fama com músicas que fogem da mesmice do mainstream e unem elementos do rap, do soul, do R&B e do pop com bastante identidade.

"Cuz I Love You (Deluxe)", disco que consagrou Lizzo e lhe rendeu oito indicações e três estatuetas do Grammy, em 2020, é uma prova de que a cantora sabe bem como produzir uma obra-prima que, acima de tudo, transborda originalidade.

O mesmo, no entanto, já não pode ser dito de "Special", que, apesar de ser bom, deixa lacunas, com algumas faixas que ficam limitadas à entediante caixinha do "mais do mesmo".

Sob produção de Ricky Reed, Mark Ronson, Max Martin e Benny Blanco, o álbum engata com "The Sign", que traz um refrão chiclete, acompanhado de uma harmonia dançante e letra engraçada, o que, aliás, é comum na composição da artista. Mas a totalidade da faixa é pouco significativa e soa clichê.

Em sequência, "Special" traz o hit "About Damn Time", que é febre no TikTok desde o lançamento, em abril deste ano, e dá um frescor na carreira de Lizzo com uma estética sonora com traços da disco music —gênero que se encontra em outras faixas e vive hoje um revival, na voz de cantoras como Dua Lipa e Beyoncé—, batidas que remetem ao som suingado de "Lose Yourself Dance", do Daft Punk, uma flauta em destaque e um groove à la discoteca. É uma das ótimas faixas do álbum.

Logo depois, porém, a obra afunda numa atmosfera fraca, com melodias pouco desenvolvidas, chegando até mesmo a soar cansativa. Em "Grrrls", Lizzo acrescenta uma leve pegada rapper ao pop e aposta numa letra feminista que debocha de "Girls", canção dos Beastie Boys que foi lançada nos anos 1980 e tem versos misóginos. A ideia é criativa e instigante, mas mal executada, resumindo-se a uma letra verborrágica e uma harmonia pouco envolvente.

Algo semelhante acontece nas faixas "2 Be Loved (Am I Ready)", "I Love You Bitch" e "Special". Na primeira, sintetizadores produzem um som que transita entre o pop, o new wave e o rock, enquanto versos sobre amar e ser amado expressam de forma bem-humorada a sensação de sentir um friozinho na barriga num romance. A canção até tinha potencial, mas não foi suficientemente explorada, sobrando uma música sem originalidades.

A segunda, que é um soul com letra divertida e estética de fim de festa, é básica e traz repetições em excesso. Novamente, fica a ausência da conquista.

Já a terceira, que dá nome ao disco, embala num groove político, com versos que variam entre boas sacadas e clichês como "Could you imagine a world/ Where everybody's the same?", ou "Você pode imaginar um mundo/ Onde todos são iguais?", num aceno crítico a conceitos como racismo, gordofobia e autoestima. Apelativa, a letra ecoa um quê motivacional cafona. O arranjo, porém, é mais cativante do que o das faixas anteriores.

O melhor do disco vem mesmo depois, com músicas realmente incríveis —com exceção para "Birthday Girl", que parece ter saído de um filme adolescente da Disney.

Ao som de guitarra rasgada e vocais de soul, "Break Up Twice" traz um sample de "Doo Wop (That Thing)", de Lauryn Hill, muito bem adaptado, num R&B magnético que faz seu corpo ser rapidamente fisgado. A faixa remete ainda a um estilo Amy Winehouse, o que é explicado pela produção de Mark Ronson, que já trabalhou com a britânica.

"Everybody's Gay" se joga em sintetizadores que põem a era disco para reverberar no corpo do ouvinte, faz referências a "Thriller", de Michael Jackson, e seduz em poucos instantes. Já "Naked", que tem metais bem harmonizados, ritmo mais lento e clima intimista, oferece boas doses de sensualidade, atiçando o desejo pelo replay.

Com um vocal marcado por notas agudas, "If You Love Me" é uma gostosa balada romântica com traços de gospel, pop e soul. E "Coldplay", como o nome sugere, é repleta de referências líricas à banda britânica do hit "Yellow" —cujos versos são aqui sampleados— e esbanja criatividade.

Ainda que tenha músicas incríveis, "Special" traz uma Lizzo numa versão mais comercializada, sem grandes ousadias a oferecer. O álbum deixa um pouco de lado os vocais rasgados que são marca da americana e oscila entre o extraordinário e o sem graça.

A cantora que despontou com o hit "Truth Hurts" tem uma trajetória que aguça expectativas alheias, o que é fruto principalmente de seu primeiro álbum, "Lizzobangers", de 2013, quando vivia uma fase rapper calcada no hip hop dos anos 1990 e 2000, e de "Cuz I Love You", de 2019, quando conquistou de vez os holofotes por uma obra fascinante que não hesita em ousar.

Mas, em "Special", vemos a cantora exibir um trabalho aquém do esperado. E saber que Lizzo é capaz de ir além é talvez a parte mais frustrante.

SPECIAL

Onde Disponível em todas plataformas digitais

Autor Lizzo

Gravadora Atlantic Records

Avaliação Bom

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos