Sonia Braga precisou bloquear seguidores após protesto em Cannes: "Falaram coisas horríveis"

Sonia Braga. Foto: Brazil News

Em cartaz nos cinemas como a médica Domingas em “Bacurau”, Sonia Braga, de 69 anos, comentou seu retorno às produções nacionais, depois de 30 anos morando fora do país. A atriz falou sobre os rumos da carreira e da política brasileira em entrevista ao jornal “O Globo” e comentou a repercussão dos protestos da equipe de “Aquarius” no Festival de Cannes, em 2016. Já naquela época, a reação violenta das pessoas a surpreendeu.

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“Quando a gente foi pra Cannes (onde a equipe do filme protestou contra o impeachment de Dilma Rousseff), foi uma loucura! Voltei e tive que bloquear metade dos meus seguidores, porque falaram coisas horríveis para mim. Não sabia que esse tipo de insulto poderia sair de um brasileiro para outro. Não entendo essas agressões a mim. Sempre fui simples, quis o bem”, afirmou.

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Sonia afirmou que deixar de fazer mais filmes e novelas em português fez falta e explicou por que ficou tanto tempo afastada. “Fui para os Estados Unidos de férias (em meados dos anos 1980), antes de fazer um filme que estava certo no Brasil. Como não faço dois trabalhos ao mesmo tempo, havia dito ‘não’ a todos os outros que tinham me oferecido. Só que o filme furou, resolveram fazer com outros atores. Eu estava em Nova York desempregada. Como tinha grana na época, resolvi ficar e estudar inglês. Aí começamos a divulgação de ‘O Beijo da Mulher Aranha’, veio o Oscar, fui integrar o júri de Cannes... Enfim, iam me convidando, eu, aceitando”, lembrou.

No entanto, ela considera que nunca parou de falar das questões do Brasil, que hoje se refletem em suas personagens. “Sabe quando essa consciência aconteceu na minha vida? Quando meu pai morreu, eu tinha 8 anos, e minha mãe, dona de casa, ficou com sete filhos e sem um tostão, em São Paulo. Nos mudamos para a periferia, ela virou costureira e alugou uma padaria. Eu, que até então, estudava em colégio de freira e tinha aula de piano, passei a carregar lenha para botar no forno da padaria, fui para colégio público e vi a vida como ela é. As freiras ofereceram que eu voltasse a estudar no colégio delas. Aí, no meio da aula de religião, eu perguntei: ‘Irmã, se todo mundo é igual por que não tem uma criança negra na escola?’. Não tenho como olhar uma criança pobre e não pensar sobre o processo dela até chegar à rua e pedir esmola”, contou.

No filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, a população de Bacurau age na contramão dos interesses políticos para garantir seus próprios direitos. Para a atriz, o Brasil ideal seria “um país digno para todos”.

“O Brasil que está na Constituição, em que todos são iguais, têm três refeições por dia, moradia e agricultura sem agrotóxico. Como chegamos ao ponto de ver criança na rua e fechar o vidro de medo? O Brasil nunca foi ok, resolvido. Mas quando vejo direitos conquistados com luta sendo destruídos e um presidente defendendo tortura, não entendo. Entendo menos ainda as pessoas que votaram nele”, criticou ela, que, no Festival de Gramado, em agosto, dedicou sua personagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.