Solidão aumenta risco de doenças cardíacas na pós-menopausa, sugere estudo

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Estudo sugere que a solidão aumenta em 29% o risco de doenças cardíacas em mulheres após a menopausa. Foto: Getty Images

Pesquisas indicam que a solidão pode aumentar o risco de doenças cardíacas em mulheres que já passaram pela menopausa. Cada vez mais, as consequências do isolamento social estão vindo à tona.

As doenças cardíacas costumavam ser consideradas predominantemente masculinas. No entanto, somente no Reino Unido, 3,6 milhões de mulheres sofrem dessas doenças – número não muito distante dos 4 milhões de homens na mesma situação.

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Acredita-se que, antes da menopausa, o estrogênio ajuda a manter as veias das mulheres flexíveis, o que pode evitar ataques cardíacos e derrames. A redução desse hormônio no período da menopausa aumenta o risco de desenvolver doenças cardíacas.

Para entender melhor a relação entre doenças cardíacas e isolamento, cientistas da Universidade da Califórnia, em San Diego, analisaram cerca de 60.000 mulheres de 73 a 85 anos sem histórico de problemas cardiovasculares.

Aquelas com um nível de solidão e isolamento social considerado alto tinham 29% mais chances de sofrer um ataque cardíaco, um derrame ou morte por doença cardiovascular até quatro anos depois.

No entanto, esse número foi reduzido quando os cientistas levaram em conta variáveis ligadas ao estilo de vida, como tabagismo, atividade física e dieta.

Acontece que a solidão pode levar as mulheres que já passaram pela menopausa a desenvolver hábitos que não são saudáveis, o que pode ser bastante problemático considerando as restrições impostas no mundo todo para tentar controlar o coronavírus.

Os resultados foram apresentados na conferência sobre epidemiologia, prevenção, estilo de vida e saúde cardiometabólica da American Heart Association's (AHA) e ainda serão publicados em uma revista científica com avaliação de colegas.

"As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes de mulheres nos Estados Unidos", disse a dra. Natalie Golaszevskwi, líder do estudo.

"Estamos descobrindo que fatores não identificados nos cuidados habituais, como isolamento e solidão, podem aumentar o risco de que as mulheres desenvolvam doenças cardiovasculares".

"Somos seres sociais. Nessa época de Covid-19 [a doença causada pelo coronavírus], muitas pessoas são obrigadas a enfrentar o isolamento social e a solidão, o que pode acabar se transformando em uma situação crônica".

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Estudo sugere que a solidão aumenta em 29% o risco de doenças cardíacas em mulheres após a menopausa. Foto: Getty Images

"É importante entender melhor os efeitos agudos e prolongados dessas experiências para a saúde cardiovascular e o bem-estar geral", conclui.

A solidão costuma ser associada à saúde mental, mas também pode ter consequências físicas.

Em 2010, cientistas da Universidade Brigham Young, em Utah, concluíram que as pessoas com "relações sociais adequadas" têm 50% mais chances de sobreviver nos sete anos seguintes do que aquelas com "relações sociais ruins ou insuficientes". Isso equipara a solidão ao tabagismo e até mesmo à obesidade ou ao sedentarismo em termos de risco.

Mais recentemente, uma equipe da Universidade de Eastern Finland relatou que homens solitários têm 10% mais de chances de desenvolver um câncer.

Para entender melhor como a solidão afeta as mulheres após a menopausa, os cientistas de San Diego analisaram as participantes do estudo clínico da Women's Health Initiative.

Entre 2011 e 2015, as mulheres relataram suas atividades sociais, condições de vida, estado civil, grau de solidão e quantidade de apoio social.

A solidão também foi medida por meio de uma escala que leva em conta o relacionamento, as circunstâncias de vida e atividades sociais – como a frequência de encontros com amigos, idas a restaurantes ou participação em eventos.

Nos quatro anos seguintes, 1.599 ataques cardíacos, derrames ou mortes relacionadas a essas doenças aconteceram entre as mulheres analisadas.

O número de ocorrências foi 16% maior entre aquelas que tinham níveis mais elevados de isolamento social, que pode ser medido quantitativamente por meio do número de interações que uma pessoa tem em seus relacionamentos.

Foi comprovado que a solidão – o sentimento "percebido" de isolamento, falta de companhia e abandono – aumentou o risco em 11%.

No caso de isolamento e solidão combinados, a probabilidade aumenta 29%.

No entanto, o risco caiu quando o estilo de vida das mulheres foi levado em conta.

"As pessoas que passaram por isolamento social ou solidão tendem a não adotar ou a não se envolver frequentemente em comportamentos saudáveis, o que pode se tornar um padrão cíclico", explica a dra. Golaszewski.

"Com o tempo, os comportamentos insalubres, combinados com o isolamento social e o sentimento de solidão aumentam o risco de doenças cardiovasculares".

Os cientistas esperam que futuras pesquisas investiguem como as necessidades das mulheres podem ser atendidas no que diz respeito às relações sociais, especialmente em caso de luto pela perda de uma pessoa querida.

"Nossos resultados sugerem que a avaliação do isolamento social e da solidão, mesmo que seja por um breve questionário, deve ser incorporada aos cuidados padrão", complementa a dra. Golaszewski.

"Monitoramos a pressão arterial, o peso e a temperatura das pacientes. Da mesma forma, seria bom identificar as carências sociais delas para entender melhor o risco cardiovascular e desenvolver soluções", conclui.

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