Sofrimento de Madeleine em "Pantanal" resume cotidiano misógino das mães no Brasil

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Bruna Linzmeyer é Madeleine em
Bruna Linzmeyer é Madeleine em "Pantanal" (Foto: Reprodução/Globo)

Madeleine (Bruna Linzmeyer) chegou no Pantanal cheia de caprichos e conquistou o ranço de parte do público. O sofrimento da personagem no capítulo desta segunda-feira (4), no entanto, fez o jogo virar. Provavelmente, a maioria das mulheres se sensibilizou com a dor da esposa de José Leôncio (Renato Goés).

O episódio, que contou com uma passagem de tempo, mostrou a gravidez e o nascimento da criança. Assim que descobriu a gestação, Madeleine (Bruna Linzmeyer) falou para o marido que gostaria de ficar com a família no Rio de Janeiro pelo apoio e estrutura. Sem pensar nas inseguranças da amada, o peão a impediu de viajar e ordenou que esperasse na fazenda.

Meses se passaram e o discurso do marido não mudou. "Você só tá querendo ir para o lado da sua mãe para levar meu filho para longe de mim", disse Leôncio (Renato Goés), após incontáveis apelos de Madeleine (Bruna Linzmeyer). Sozinha, enquanto ele passava semanas viajando, a moça chegou a escrever cartas relatando seu sofrimento para a família.

Tudo piorou quando a bolsa estourou e Madeleine (Bruna Linzmeyer) tentou atrasar o nascimento do filho para que o pai chegasse a tempo. Sobrou para Filó (Letícia Salles), que não gosta dela, passar por cima de tudo o que pensa para ajudá-la no parto. Quando José Leôncio (Renato Goés) finalmente chegou em casa, a esposa já havia parido e afirmou que jamais o perdoaria.

Rede de apoio

Embora as cenas sejam de uma novela escrita originalmente nos anos 90, o sofrimento da personagem de Bruna Linzmeyer é legítimo e resume o cotidiano misógino das mães no Brasil. Mesmo em circunstâncias diferentes, muitas mulheres sentem falta de uma rede de apoio durante e depois da gravidez. O abandono pode ser reflexo de um relacionamento abusivo, como o da trama, e outros diversos motivos, como falta de recursos financeiros.

Segundo a ex-BBB Marcela Mc Gowan, que já atuou como ginecologista obstetra, o desejo da personagem não está errado. A rede de apoio é fundamental para fortalecer a mulher no período gestacional. "Ela vai precisar entender esse novo momento que tem que lidar com cansaço, angústias, mudanças no corpo, hormônios. Ter alguém para dividir tudo isso, trocar com sinceridade e confiar, é um privilégio", afirma.

A presença do parceiro na hora do parto também tem sua importância. Madeleine (Bruna Linzmeyer) não exagerou quando sentiu a ausência de Leôncio (Renato Goés). "Mesmo que você tenha uma equipe técnica de suporte, uma doula, ter alguém da família é uma divisão daquele momento, não fica sendo uma responsabilidade só da mulher, que é o que geralmente as pessoas entendem socialmente. Não fica como se o papel da maternidade fosse superior a paternidade ou da mãe que não gestou. É uma conexão em que os dois se sentem participantes da situação", defende Marcela.

As atitudes de José Leôncio (Renato Góes) são herança do patriarcado. O personagem é frio com a esposa naturalmente. Ele acha comum impedi-la de viajar para ver a família. Ele só pensa nos próprios desejos. Ele é incoerente quando diz que não quer que o filho cresça distante, já que passa meses viajando em comitiva. Em um diálogo, ele afirmou que a companheira não estava doente, apenas grávida, como se a vontade dela não tivesse sentido ou importância em situações que não fossem de risco.

Em sua tese de mestrado em serviço social, a pesquisadora Lianzi dos Santos Silva disserta sobre o patriarcado e o que herdamos dele. O texto diz que "na sociedade patriarcal, as mulheres destinavam-se à obediência e a procriação. Eram 'boas' esposas e 'boas' mães, e pertenciam ao espaço doméstico. Através da imagem de fragilidade física da mulher construiu-se que sua natureza era inferior ao homem. Ela estaria propensa à passividade, à submissão, à docialidade, à meiguice e à clareza de sentimentos". Algo diferente do que lutamos para desconstruir hoje?

Acolhimento

Em "Pantanal", o que Madeleine (Bruna Linzmeyer) mais desejava era uma rede de apoio. Sem sensibilidade, o marido chegou a dizer que ela já tinha o auxílio da empregada Filó (Letícia Salles). A ajuda nas tarefas domésticas é importante, claro, mas nunca o suficiente. Uma rede de apoio também passa pelo lugar de escuta e apoio emocional. E os companheiros devem fazer parte. O problema é quando não existe esforço nem interesse, como é o caso de José Leôncio (Renato Goés).

Embora o episódio da novela tenha focado muito na gravidez e no parto da personagem, a rede de apoio é importante durante toda a vida da mulher. Não é o caso de Madeleine (Bruna Linzmeyer), branca e privilegiada, mas a maioria das mães do Brasil precisam trabalhar. O sofrimento triplica quando as portas são fechadas por preconceito e/ou falta de apoio.

Mulheres negras com filhos de até três anos são minoria no mercado de trabalho e enfrentam dificuldade para retomarem suas atividades econômicas depois da maternidade. É o que aponta a pesquisa Estatísticas de Gênero, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2019, mães negras, com filhos de até três anos, ocupavam 49,7% dos cargos. Neste mesmo contexto, mulheres brancas eram 62% e homens brancos 93%

Embora tudo isso já seja muito problemático, a falta de uma rede de apoio impacta até mesmo no direito de ir e vir da mulher. Recentemente, uma mãe paulistana viralizou nas redes sociais após compartilhar o constrangimento que passou ao ver seu filho impedido de entrar no aniversário de uma amiga no Miúda Bar, espaço "descolado" no bairro Santa Cecília. "Não era balada, não era noite, era um espaço aberto e eu só ia ficar um pouco", disse ela, que precisou voltar para casa.

Estamos em 2022, mas o desejo de calar e impedir mulheres, principalmente mães, de simplesmente viverem ainda é muito real.

Sororidade é a esperança

Apesar das cenas tristes, "Pantanal" trouxe um "respiro" ao mostrar a empatia de Filó (Letícia Salles) com Madeleine (Bruna Linzmeyer). A empregada, mesmo sem gostar da patroa, deixou todas as suas vaidades de lado e se manteve disposta a ajudar a mulher em trabalho de parto com carinho. Ela usou sua experiência para aconselhar, acalmar e até rezar por ela em um momento difícil.

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Em "Pantanal", Filó ajudou Madeleine no parto (Foto: Reprodução/Globo)

No "Encontro" desta terça-feira (5), a intérprete de Filó foi entrevistada por Fátima Bernardes e exaltou a sororidade das mulheres ao comentar a sequência. "Cena linda. Duas forças femininas lutando, uma confiando na outra, passando segurança", disse ela, que elogiou sua personagem por nunca ter entrado em disputa com Madeleine (Bruna Linzmeyer) mesmo sendo apaixonada por José Leôncio (Renato Goés).

O que é sororidade?

A sororidade vem da ideia de perceber todas as mulheres como irmãs em potencial. A origem do termo vem do latim “sóror”, que significa “irmãs”. Ou seja, pode ser considerada uma versão para mulheres do termo “fraternidade”.

A sociedade machista incutiu na cabeça das mulheres, durante muitos anos, que elas são inimigas, o que gerou uma competitividade feminina que ninguém sabe de onde surgiu exatamente.

Sendo assim, a sororidade propõe uma aliança entre mulheres, que é baseada na empatia (capacidade de se colocar no lugar da outra) e companheirismo. O objetivo é que mulheres não se julguem entre si sem nem ao menos se conhecerem.