“Sociedade tolera várias pequenas violências que destroem uma pessoa”, dizem diretores de filme LGBT premiado

Cena do filme ‘Tinta Bruta’, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (Imagem: divulgação Vitrine)

Pedro, o protagonista de ‘Tinta Bruta’, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, é um jovem tímido e recluso, que responde criminalmente um processo por agressão. Na solidão de seu quarto, de frente para o computador, com a luz negra iluminando seu corpo nu e coberto de tintas, ele se transforma no Garoto Neon, e faz vídeos carregados de erotismo, assistidos por dezenas de internautas.

É o retrato de uma geração que aprendeu a se expressar com mais desenvoltura no mundo virtual do que no material, algo recentemente também discutido pelo viés do terror em ‘Cam‘, produção disponível na Netflix.

“No momento em que a gente vai para o ambiente virtual a gente filtra o que quer colocar ali dentro. Como a gente quer se comportar, como quer se mostrar. A tendência é criar uma persona idealizada de quem a gente gostaria de ser”, explica um dos diretores do filme, Marcio Reolon, em entrevista ao Yahoo!. “Mesmo estando apartado da sociedade, criando o Garoto Neon ele pode exercer a sua sexualidade ali”, complementa Filipe Matzembacher, também diretor de ‘Tinta Bruta’.

A dupla gaúcha formada por jovens que mal passaram dos trinta anos de idade se firma neste segundo trabalho em longa-metragem como uma força autoral dentro do cinema brasileiro. A obra recebeu o prêmio de melhor produção com temática LGBT este ano no prestigiado Festival de Berlim e saiu do Festival do Rio, em novembro, com cinco troféus: Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Ator para Shico Mengat, Melhor Ator Coadjuvante para Bruno Fernandes e Prêmio Petrobras de Cinema.

Em ‘Tinta Bruta’, eles investigam os olhares que a sociedade reserva aos homossexuais. “Esse é um personagem que sente os olhares muitas vezes de forma violenta. Seja das pessoas nas ruas, das pessoas nas janelas observando, que de certa forma até se relacionam com os avatares anônimos da internet”, diz Matzembacher.

“Hoje a gente está o tempo todo sendo observado. Certamente isso também aumenta a nossa ansiedade diária”, afirma o cineasta. “É uma questão que para alguns grupos sociais  se torna duplamente violenta. Porque tu nunca vai entender porque as pessoas estão te olhando. Será que estão só querendo me olhar ou porque me leram como parte de algum grupo social?”.

A violência figurativa, manifestada através de bullying, preconceito e exclusão, pode trazer consequências físicas. Pedro (Schico Mengat) responde no tribunal por ter reagido às provocações partindo para as vias de fato, mas não demonstra arrependimento. Desamparado pela família e numa espécie de exílio semi-voluntário, ele revela que poderia ter se matado por não aguentar mais o tratamento que recebia dos colegas de escola.

“O que é muito forte nesta questão é como a sociedade tolera repetidamente várias pequenas violências que vão destruindo uma pessoa com uma brutalidade muito grande. Isso muitas vezes tem um potencial letal, ou então causa diversos danos que perduram por toda uma vida, e isso é tolerado”, define Reolon. “Mas no momento em que chega a um extremo e aquela pessoa não aguenta mais, e aí reage, aí sim vira um problema”.

Numa época em que discursos de intolerância ganham espaço na sociedade e política, o cinema pode ser um refúgio? A dupla acredita que sim. “Eu acho que o cinema é essencial, primeiro por ser uma maneira direta de um grupo de pessoas se expressarem”, argumenta Matzembacher. “E de um outro grupo de pessoas conseguir se enxergar na tela e discutir essas representações, esses corpos, essas vozes, essas histórias. A ausência disso no cinema é violenta, apaga e marginaliza esses grupos. Então acho que quanto mais olhares honestos e plurais tivermos nestes próximos anos, a gente vai conseguir discutir mais a sociedade brasileira”.