Sobrecarga de trabalho e maternidade solo: o esgotamento social de mulheres

A jornalista Carol Pires uma das criadoras da newsletter
A jornalista Carol Pires uma das criadoras da newsletter "Folga" - A newsletter que é uma mãe pra você (Foto: Reprodução/Instagram@pirescarol)

Resumo da notícia:

  • Esgotamento emocional;

  • Saber que trabalho não é tudo e precisa cuidar da saúde física e mental;

  • Divisão de tarefas entre homens e mulheres

Os relatos da jornalista Carol Pires viralizaram nas redes sociais recentemente. Ela, conhecida por trabalhos de destaque nos últimos anos, como o podcast "Retrato Narrado", em que investiga a história de vida do atual presidente Jair Bolsonaro, trouxe à tona uma realidade cada vez mais comum, mas que segue escondida: a das mulheres que são mães e simplesmente não aguentam mais.

A história que Carol compartilhou no Instagram é impactante desde a primeira imagem, em que conta que a filha, Eva, ainda não tinha completado um ano quando a pandemia de coronavírus começou no Brasil.

"Sentia que, se mantivesse o foco no trabalho, o tempo passaria mais rápido (e da maneira menos enlouquecedora possível). Até que tudo começou a degringolar vagarosamente", escreveu ela.

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A queda foi grande. Primeiro, Carol descobriu que um familiar próximo estava com um câncer avançado - e morreu apenas quatro meses depois do diagnóstico. Depois, sua filha parou de falar - e a confirmação de que ela é autista veio com tudo.

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Nesse período, o casamento da jornalista também acabou. Ela viu o cabelo cair por causa do estresse, ganhou peso e recheou a agenda com mais trabalho para dar conta das contas - o que não tem sido fácil no Brasil pós-2018.

O último - e talvez mais chocante baque - veio quando Carol foi parar no hospital por conta de uma paralisia facial: "Pensei que se o exame confirmasse que eu tinha tido um pequeno aneurisma (o que explicaria metade do rosto paralisado), eu poderia pelo menos ter uma desculpa para descansar por alguns dias."

Infelizmente (ou felizmente) para ela, não era aneurisma, mas esgotamento emocional. O também diagnóstico veio como a comprovação de uma sensação que Carol já vinha percebendo em si: a do abandono.

Vou ver depois...

"Lembro de, durante o puerpério e, depois, na quarentena, me olhar no espelho e ver muito nitidamente que eu estava engordando de forma localizada, que minha musculatura estava ficando fraca, que minha pele estava mais flácida e manchada, e só conseguir pensar 'depois eu vejo isso', 'depois eu reverto'", conta ao Yahoo.

Mas eu não conseguia achar tempo nem energia para fazer exercícios nem para preparar uma comida mais saudável. Eu só queria terminar os trabalhos enquanto minha filha dormia e no pouco tempo que sobrava queria não fazer nada

A jornalista conta que sem cuidar da saúde física, a sua saúde mental "foi ladeira abaixo", porque esse processo vira uma bola de neve: você não tem disposição para malhar e não malha porque não tem disposição.

"Eu tomo antidepressivos há alguns anos e faço terapia. Mas esse também foi um período em que eu só conseguia renovar a receita do remédio, mas tinha pouca disposição e grana pra terapia psicológica, o que também foi ruim porque fiquei remediando a questão química, mas não a emocional. O resultado foi o que eu contei, um esgotamento emocional, mental e físico", diz.

Carol começou a usar o trabalho como uma forma de lidar com as questões pessoais, que pareciam cada vez maiores e mais pesadas. Hoje, ela percebe a armadilha que é pensar que trabalhar muito é sinônimo de sucesso e até de alto valor. Para ela, deveríamos trabalhar apenas o suficiente para ter uma vida digna e o discurso do "você é o que você faz" é muito perigoso - e deveria ser combatido.

"Eu realmente gosto muito de trabalhar porque tive a sorte de conseguir trilhar uma carreira como repórter e roteirista escrevendo sobre questões que são muito importantes pra mim como pessoa, como cidadã", diz ela. "Então é fácil e perigoso cair nesse lugar de trabalhar excessivamente quando outras áreas da vida não estão legais. Porque meu trabalho gera debate, gera comentários, elogios, e algumas vezes tem impacto social. Então, preciso me vigiar para não tapar os buracos da vida pessoal buscando satisfação num monte de trabalho."

O catalisador da mudança

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O caso da paralisia facial foi o ponto de virada para Carol. A partir daí, ela se viu determinada a fazer mudanças que garantissem o sonho que ela sempre teve de ser uma mãe possível.

Para isso, ela decidiu voltar com a filha para a casa da mãe, em Brasília. Carol foi morar sozinha aos 20 e poucos anos e, desde então, casou duas vezes, teve uma filha, morou em Buenos Aires, em Nova York, no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de passar por um processo de mudança de profissão - do jornalismo para o audiovisual. Com a carreira consolidada, ela ganhava o suficiente para garantir uma boa estrutura para ela e para a filha, no entanto, quando o esgotamento emocional veio, ela percebeu que simplesmente não daria conta de gerenciar toda a estrutura que essa vida exigia.

Chorar acompanhada

"A carga mental pode ser muito cruel", reflete. "Então, a solução que vi naquele momento foi o de fechar aquela vida, encerrar todas aquelas contas e contratos, e recomeçar montando uma vida bem pequenininha, só eu e minha filha num quarto na casa da minha mãe, gerenciada por ela, e a partir dali remontar outra rotina, bem menor, conforme eu me sentisse mais forte. Hoje, minha vida é tão 'grande' quanto era antes – casa, maternidade, autismo, trabalho, namoro – mas agora com meu emocional fortalecido."

Além do suporte da mãe, a rede de apoio de Carol foi essencial em todo esse caminho. Fosse amigas que tiveram filhos na mesma época que ela, fosse a família direta - mãe, padrasto, irmã -, ela contou com as pessoas ao redor para se recuperar e se reerguer emocionalmente.

"Há muitos anos, uma terapeuta maravilhosa que mudou minha vida, a Lucy, me aconselhou chorar acompanhada. A ligar mesmo pra alguém e dizer: 'tô triste, posso te encontrar pra chorar um pouco?' Hoje, esse conselho é hábito. Eu choro sozinha, claro. Mas se é aquele choro doído que vai demorar a sair, eu peço para encontrar alguma amiga. Sentir que tem alguém ali pra segurar sua mão transforma o choro em alívio e cura mais rápido", conta.

O autocuidado e o desabafo público

Passado tudo isso, e hoje muito mais forte emocionalmente, Carol explica que ainda está longe de ter o autocuidado que deseja e merece - ela conta que é uma pessoa bastante indisciplinada quando o assunto são os exercícios físicos, por exemplo. No entanto, entende que a maternidade lhe deu clareza sobre os seus sentimentos e limites.

Se eu sinto que uma amizade ou uma relação ou um trabalho me trazem mais preocupação e chateação do que prazer, eu não pago pra ver. Fecho a conta antes que ela extrapolediz a jornalista

O resultado desse processo também foi visto pelas milhares de pessoas que comentaram e compartilharam as suas postagens nas redes sociais. Ela postou um pouco do que passou, apenas o necessário para que outras mulheres se conectassem com ela.

"Essas são dores que vivemos no íntimo, mas que, na real, são problemas sociais. É só ver nas centenas de comentários quantas mulheres se identificaram com naquilo - algumas sequer são mães. Se estamos todas passando pelo mesmo, o problema é da minha relação amorosa, da minha maternidade ou da sociedade?", reflete.

Para Carol, como diz o slogan feminista, "o pessoal é político". Com isso, ela quer dizer que sua ideia ao compartilhar sua história era abrir espaço para a conversa importante que é ensinar aos homens a abraçarem a paternidade assim como as mulheres foram ensinadas a abraçar a maternidade. A mudança, diz, tem que ser cultural, social e estrutural e passa pela forma como os homens de amanhã são criados, hoje. "Aí, sim, ninguém precisa pifar ao criar um filho. Então, o que eu espero, é ajudar a levantar essa conversa", finaliza.