Síndrome que tirou Lady Gaga do Rock in Rio atinge até 3% da população brasileira

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Por Juliana Damasceno

A fibromialgia é de origem desconhecida até para os especialistas e precisa de um tratamento especial, que vai muito além dos consultórios médicos.

Começou com Lady Gaga, que na véspera de sua esperada apresentação no Rock in Rio – que terminou no último dia 24 de setembro -, cancelou um dos shows mais esperados do festival. E então a palavra fibromialgia, não muito conhecida, ganhou o vocabulário popular.

Pouca gente sabe, mas as dores constantes e intermitentes no corpo, que caracterizam o distúrbio, são de fundo emocional. Os portadores as sentem, intensamente, por longos períodos, especialmente muita sensibilidade nas articulações, nos músculos, tendões e em outros tecidos moles.

Pesquisas apontam que o cérebro dos que sofrem com a fibromialgia processa de forma descontrolada os sinais de dor que o corpo apresenta – o que só proporciona ainda mais sofrimento. E relaxantes musculares e anti-inflamatórios não solucionam a questão, uma vez que a síndrome, um tanto difusa, não chega a ser uma inflamação, de fato. Muitos doentes costumam dizer que não existe sequer um foco de dor: quando ela ataca, pode irradiar da ponta dos pés até “os fios de cabelo”.

A origem ou causa da fibromialgia, segundo especialistas, ainda é obscura. Fadiga diurna, um sono nada reparador, músculos e articulações rígidos, formigamento sensação de inchaço, boca seca, tontura, palpitação, dores no peito e alterações no humor são alguns de seus sintomas. Por vezes, alguns destes, por outras, todas de uma só vez.

A Dra. Maira Saul, especialista em Acupuntura, Medicina Física e Reabilitação e Dor, explica que a síndrome acomete pacientes em diferentes graus, mas em sua maioria, eles relatam sensação de cansaço diurno como sequer tivessem repousado. E o estado pode se agravar ainda mais. “Pernas inquietas, intestino e bexiga irritáveis, dificuldades de concentração e memória. Há ainda a associação frequente com transtornos de ansiedade e depressão”, conta a médica.

O diagnóstico é essencialmente clínico, de acordo com ela. Dores difusas, em mais de três segmentos corpóreos há pelo menos três meses já levam o médico a suspeitar de fibromialgia. “Uma sensibilidade exacerbada ao toque em regiões do corpo pré-mapeadas, os chamados ‘Tender Points’, podem ajudar a estabelecer o diagnóstico, especialmente na ausência de outras condições clínicas que poderiam justificar a dor”.

Estrela pop não é a única

Muitas celebridades de diferentes setores da arte e das ciências declararam sofrer com a fibromialgia, mesmo quando a doença nem era muito difundida. O biólogo Charles Darwin e a pintora mexicana Frida Kahlo foram algumas uma das vítimas. O ator Morgan Freeman e a cantora irlandesa e ativista Sinead O’Connor também já declararam portar a síndrome. No entanto, pesquisas apontam que, embora a faixa etária não seja exata, mulheres são mais atingidas que os homens.

“De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (2004), a fibromialgia acomete por volta de 2 a 3% da população brasileira, mais frequentemente mulheres adultas, impactando fortemente a qualidade de vida, relações interpessoais e atividade profissional”, conta a doutora.

A causa ainda é um mistério para os cientistas. Segundo a especialista brasileira, que hoje atua nos Estados Unidos, estudos apontam para um fenômeno complexo, envolvendo fatores genéticos e ambientais.

“Acredita-se que haja uma falha no processamento da experiência dolorosa pelo sistema nervoso, algo como uma hipersensibilidade generalizada, mesmo sem dano tecidual ao organismo. A sintomatologia pode ser despertada após eventos estressantes como luto, acidentes, quadros infecciosos, ou mesmo outras doenças reumatológicas, de acordo com o National Institutes of Health da American College of Rheumatology”.

Exames complementares de sangue e de imagem são solicitados na etapa de diagnóstico para excluir outras causas de síndromes dolorosas como artrites, lúpus sistêmico – que Gaga já assumiu ter embora sem sintomas-, distúrbios da tireóide etc.

“Justamente por tratar-se de uma síndrome de dor crônica sem evidência justificada por exames complementares, infelizmente há uma estigmatização do diagnóstico e das queixas, não sendo raro pacientes relatarem desdém, dúvidas e julgamentos sobre a experiência da dor, mesmo por profissionais de saúde, o que pode prejudicar a busca por ajuda profissional e efetivo tratamento”, lamenta Maira.

Ainda não há uma cura definitiva, mas a possibilidade de controle efetivo das crises dolorosas. É importante, após o diagnóstico, esclarecer todas as dúvidas do paciente e orientar continuamente sobre o tratamento e medidas para alivio dos sintomas.

“Geralmente é utilizada uma abordagem multiprofissional, incluindo prescrição de medicamentos e técnicas para o controle da dor crônica e do transtorno de sono pelo profissional médico, algumas medidas preventivas para a higiene do sono, controle do stress, estímulo à atividade física regular, psicoterapia individual, terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio em comunidade e até medidas para reabilitação profissional”, conclui.