'It's a Sin', série sobre a Aids, é a primeira obra imperdível deste ano

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo tendo assistido a quatro episódios em português e a um em espanhol --são apenas cinco no total, de mais ou menos 40 minutos cada um--, com legendas na mesma língua impossíveis de tirar da tela, posso dizer que "It's a Sin" se provou a primeira produção imperdível do ano.

A produção original do britânico Channel 4 chega ao Brasil pela HBO Max, canal de streaming que estreou no Brasil no final de junho cheio de problemas. Os programas não têm trailers, é dificílimo ir para frente e para trás nos episódios, quando você baixa uma série ou um filme para assistir offline não tem controle algum de em que língua o programa vai estar e não consegue trocar no percurso.

Ainda assim, vale o perrengue. Deixa "Friends: The Reunion", carro chefe da chegada do canal de streaming no Brasil, parecendo um ensaio geral do que estava mesmo por vir. E olha que ainda nem estamos falando de "Hacks", a outra super-série que a HBO Max tornou disponível na estreia e que vem conquistando críticas exaltadas mundo afora. Mas isso é assunto para outra resenha.

"It's a Sin" foi criada e teve seus cinco episódios escritos pelo produtor britânico Russell T. Davies, da igualmente imperdível "Years and Years", de 2019, que olhava para o futuro de maneira assustadora para a época, mas que, no ano seguinte ao seu lançamento, teve sua distopia superada pela realidade da pandemia da Covid-19.

Dessa vez, Davies mira o passado, os muito distantes anos 1980, quando outra pandemia assolou o planeta, a da Aids. A coincidência é proposital, obviamente, e torna tragicamente atual a história fictícia, mas baseada em fatos reais, de um grupo de amigos que dividem uma casa em Londres.

Na verdade um apartamento, apelidado por eles de "Pink Palace", o "Palácio Rosa", uma brincadeira com o fato de que a maioria de seus moradores eram gays. O primeiro episódio apresenta os protagonistas em suas famílias e conta qual foi a desculpa de cada um para sair de casa e se mudar para a capital, onde buscam um estilo de vida bem diferente do que tinham.

Era o início dos anos 1980, uma década que começa, para esses personagens, ao mesmo tempo que a vida adulta, e traz a promessa da liberação sexual, comportamental, financeira.

Mas, conforme o tempo passa e a Aids avança pelo mundo, a realidade desses personagens move em uma direção perversa, cheia de dor e solidão. A mudança de tom se dá gradativamente e demonstra o total controle que Russell T. Davies tem da sua narrativa.

Do primeiro ao último episódio, a grande festa que era a vida desses jovens vai se transformando, acontecimento triste após acontecimento triste, na certeza da solidariedade total que demonstram perante uma crise, mas que, apesar disso, no final, desemboca em uma tragédia.

No percurso, no entanto, há muitos momentos deliciosos de acompanhar. Esse não é um grupo de bons meninos, muito menos de mártires, mas sim de pessoas complexas que viveram um período horrível. E que, por isso, fazem a morte, que entra estilo pé na porta no meio da trama, parecer muito mais realista.

"It's a Sin" tem, entre seus protagonistas muito bem escolhidos, Ritchie Tozer, papel de Olly Alexander, cantor do grupo britânico "Years & Years" -nada a ver com a série homônima- e a participação especial de dois atores consagrados e abertamente gays, o americano Neil Patrick Harris, de "How I Met Your Mother", e o britânico Stephen Fry, de "Gosford Park".

A melhor amiga de Ritchie é Jill Baxter, papel de Lydia West --esta, sim, da minissérie "Years and Years". Seu primeiro parceiro é Ash Mukherjee, um descendente de indianos interpretado por Nathaniel Curtis. Colin Morris-Jones é o mais certinho da turma, papel de Callum Scott Howells, que trabalha como assistente de alfaiate em uma loja fina de Savile Row.

Roscoe Babatunde, interpretado por Omari Douglas, completa o grupo, como o filho de uma família de nigerianos que promove rodas de orações para livrar o filho da "maldição do homossexualismo".

Ao final dos cinco episódios, o telespectador se apaixona por cada um desses jovens, cheios de anseios, ambição e a falta de juízo próprias da idade. Eles têm defeitos também. E se parecem muito com os amigos que todo mundo já teve um dia, que alguns continuam tendo, e com quem dá muita vontade de formar uma família.

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IT'S A SIN

Onde Na HBO Max

Elenco Olly Alexander, Nathaniel Curtis, Shaun Dooley

Produção Reino Unido, 2021

Avaliação: Muito bom

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