Silvio Santos: por que não devemos passar pano para o comportamento masculino

Silvio Santos espiou o decote da apresentadora Lívia Andrade e fez pouco caso de uma reportagem escrita por uma mulher sobre ele (Foto: Reprodução / SBT)

Silvio Santos é um grande nome da televisão brasileira, mas tem gerado muitas polêmicas nos últimos tempos. Na mais recente, ele "espiou" o decote da apresentadora Lívia Andrade e afirmou que é "misógino".

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Durante o seu programa no SBT, Silvio leu uma reportagem da ‘‘IstoÉ escrita pela advogada Vivian Lopez Valle, que dizia que o apresentador tem tido atitudes machistas, racistas e sexistas - e ele comentou, com ironia, de tudo o que texto dizia.

Leia também:

Para quem ainda não compreende o termo, misoginia vem de um termo grego que significa "ódio à mulher". Não necessariamente o homem misógino age com violência, exemplificando esse ódio, mas tem uma sensação de repulsa, de reversão, principalmente quando a mulher não corresponde ao que ele considera um comportamento adequado ou ideal. Em casos de misoginia, o homem tem uma visão superior e, mesmo que de forma inconsciente, se sente melhor que a mulher a ponto de tratá-la até com certa crueldade.

Muitos dizem que a idade de Silvio, 88 anos, deve ser levada em consideração ao julgar esse tipo de comentário e "brincadeira", mas a verdade é que a sociedade sempre teve uma visão infantilizada dos homens, de forma que os seus comportamentos são tratados com panos quentes. Ou eles são "só garotos ainda imaturos" (e já vimos isso até mesmo com pessoas acima dos 30 anos de idade), ou já são "velhos demais e não devem ser levados tão a sério".

Homens cresçam

Acontece que esse tipo de situação não pode ser encarada de forma leviana, porque passar pano para um comportamento misógino ou machista é o que mantém a sociedade no mesmo lugar.

Os números não mentem. A América Latina é um dos lugares mais perigosos para as mulheres. Por aqui, nove mulheres são assassinadas por dia, vítimas da violência de gênero. Diz a ONU, inclusive, que a região é a pior para as mulheres fora de uma zona de guerra.

O Brasil, claro, está muito incluído nisso. O país tem a 5ª maior taxa de feminicídios do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, com 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres - no mundo, a média é de 2,3 mortes para cada 100 mil.

E, sim, tudo isso começa com a perpetuação de um comportamento machista e misógino, que fomenta uma visão inferior das mulheres em relação aos homens e é usada como justificativa para atos de violência.

É por isso, que, nesse aspecto, o movimento feminista se mostra tão importante. E, aqui, é importante lembrar que o contrário de misoginia não é feminismo, mas misandria. Ou seja, o feminismo não especifica o ódio aos homens, mas a busca por uma visão igualitária entre homens e mulheres, de forma que ambos gêneros tenham igual importância e relevância social e política.

É preciso problematizar comentários debochados como o de Silvio Santos porque, sendo dono de uma das maiores redes de televisão do Brasil, com um alcance de público gigantesco, ele ensina a quem o assiste que esse tipo de comportamento e tratamento com as mulheres é aceitável - é como uma permissão pública para tratar as mulheres com desrespeito.

Além disso, é tirar o homem do pedestal em que ele mesmo se colocou e procurar fazê-lo entender que, só porque ele é de um gênero diferente e historicamente considerado mais relevante, não significa que isso seja verdade. É fazer ele mesmo, e todos aqueles que o acompanham, questionarem se a sua postura diante das mulheres é mesmo uma de igualdade ou se existem ajustes de mentalidade a serem feitos.

Aliás, nos últimos anos temos visto uma crescente de mulheres falando publicamente sobre casos de abuso sexual e estupro e grandes nomes de Hollywood, como o produtor Harvey Weinstein, serem levados às autoridades por sua conduta.

Independentemente da idade de alguém, comportamentos machistas ou misóginos devem, sim, ser revistos e reconsiderados se o objetivo é a construção de uma sociedade mais igualitária e melhor para todos - e, com certeza, espiar o decote de uma mulher na TV e fazer pouco das opiniões de outra em rede nacional, não colaboram para essa visão positiva do futuro.