Ativista diz que postura considerada racista de Silvio Santos "alimenta discurso de ódio"

Jennyfer Oliver e Silvio Santos (Foto: Reprodução / SBT)
Jennyfer Oliver e Silvio Santos (Foto: Reprodução / SBT)

Silvio Santos virou assunto mais uma vez na manhã desta segunda-feira (9). Isso porque, no último domingo, (8), durante o seu programa, ele protagonizou mais uma polêmica ao impedir que uma mulher negra ganhasse uma competição musical.

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Na atração, as participantes mostravam o seu talento para o canto, mas Silvio interrompeu a performance de Jennyfer Oliver, a última a cantar, alegando que a música escolhida por ela era chata. Depois, pediu pela votação do público que, mesmo com a interrupção, escolheu Jennyfer como a melhor da noite.

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Silvio anunciou que daria o valor de R$ 500 para todas as participantes, mas que escolheria, ele mesmo, a vencedora do dia. "Se eu estivesse na minha casa, na minha opinião, a melhor intérprete seria você, Juliana. Você é muito bonita e canta muito bem, mais R$ 500 para a Juliana", disse o apresentador.

Pela internet, comentários de que o apresentador foi racista rechearam as redes sociais, e o seu nome entrou nos assuntos mais comentados do dia no Twitter. Já em sua página no Instagram, Jennyfer comentou as notícias sobre o assunto explicando que, em primeiro lugar, as músicas cantadas foram escolhidas pela própria produção do programa e, segundo, que ela acredita que a parte da interrupção seria cortada do show, gravado há três semanas.

"O povo sentiu a situação, eu fiquei super constrangida no momento, mas como demorou três semanas pra ir pro ar, eu não podia mencionar nada sobre o assunto, muito menos expor nada", disse ela nos Stories. "Jurava que ia ser editado e eles iriam pular a parte que ele me barrou de cantar a música. Em nenhum momento eu postei nada falando que ele tinha sido racista, mas as pessoas sentiram e postaram. Eu respeito a opinião de todo mundo, cada um tem a sua. Em nenhum momento me fiz de vítima, mas eu me senti super constrangida sim pela situação".

Jennyfer explica que respeita os comentários das pessoas sobre o caso, mas que a única coisa que ela sentiu foi ter sido prejudicada naquele momento. Para ela, o programa deveria medir a qualidade vocal das participantes e não sua aparência, mas que, no Brasil, são poucas as atrações que fazem isso de fato.

"O quadro era para cantoras e não para beleza. Todas as meninas eram lindas, na minha opinião, todas cantam bem e não é um programa de TV que vai qualificar o que era bom ou não. Ganhamos dinheiro, pagamos as contas já e o Silvio vai continuar podre de rico. Não vai adiantar nada ficar brigando pelo o que a gente acha que é certo. O certo hoje é errado e o errado é considerado certo".

Este ano, Silvio Santos esteve nas manchetes das notícias mais de uma vez por conta de comentários racistas e machistas, inclusive colocando mulheres em situações desconfortáveis ao vivo na televisão. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da emissora não respondeu às tentativas de contato.

O que fazer agora?

A escritora e ativista negra Joice Berth atenta para o fato de que esse caso representa a “alimentação de um discurso de ódio” frente a um trabalho coletivo de luta contra o racismo. Segundo ela, o número de pessoas brancas que entendem que precisam lutar contra esse problema social está crescendo, mas, ao mesmo tempo, casos como esse não podem ser ignorados para não desmerecerem os avanços feitos até agora.

“Quando uma pessoa de grande repercussão social, um comunicador histórico, insiste em humilhar pessoas negras de uma maneira tão baixa, cometendo violências passivas diante do seu público, está lutando para que a conscientização do quão violento é o racismo e seus desdobramentos seja paralisada", explica.

Joice reitera que estamos caminhando para um tempo em que os discursos de ódio precisam ser barrados - e não incentivados ou ignorados -, e as devidas atitudes a seu respeito sejam tomadas. Tudo isso para que a sociedade consiga, de fato, eliminar as mentalidades que alimentam a violência e as opressões de todo tipo. Por isso mesmo, um caso como esse não pode deixar de ser lidado da forma mais adequada para o tamanho da repercussão e alcance dos seus personagens.

A escritora diz que o cenário ideal seria que Silvio fosse afastado do seu papel de apresentador e uma pessoa negra, lúcida e consciente de todos os mecanismos que perpetuam o racismo, assumisse o seu posto à frente do programa. “Trabalhando de forma séria contra essas violências passivas que ele vem praticando", completa.

Além disso, ela acredita na importância de educar e conscientizar o público da emissora a respeito de temas como o próprio machismo, de forma a massificar o conhecimento e tornar a luta ainda mais abrangente e bem-sucedida. “E, digo mais, muitas pessoas anseiam por isso. Muitas pessoas querem entender sobre racismo, machismo, lgbtfobia e todas essas questões que parecem simples mas exigem conhecimento, leitura, reflexão e muito boa vontade", diz.

Em um país tão grande, diverso e desigual como o Brasil, a TV ainda tem sua relevância como formadora de opinião e, no mínimo, é trabalho dos seus canais de comunicação levarem ao público discussões e conhecimentos sobre temas tão relevantes e atuais como esse. “Nem todo mundo tem tempo e infraestrutura de vida para acompanhar as discussões da internet", finaliza.