Sidarta Ribeiro: “É muito claro no Brasil que temos problema para sonhar o coletivo”, avalia neurocientista

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Sidarta Ribeiro, pesquisador e vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) (Foto:Divulgação)
Sidarta Ribeiro, pesquisador e vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) (Foto:Divulgação)

As horas de sono são etapa fundamental do dia para consolidação de memórias, de aprendizados e desintoxicação do nosso cérebro. Esse período de descanso do corpo, alvo de cada vez mais interesse, é habitado por sonhos, que nos acompanham a cada noite mas deixaram de ser compartilhados e de ter relevância em nossa sociedade.

É para estes eventos oníricos que o renomado neurocientista Sidarta Ribeiro pretende redespertar nossa atenção. “O sonho é uma simulação de um futuro possível com base nas probabilidades do passado”, explica o pesquisador e vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

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O neurocientista defende a concepção dos sonhos como um oráculo probabilístico, que nos faz inventar e experimentar futuros possíveis e ajuda a tomar decisões. “O problema é que a gente abriu mão deste farol para o futuro”, alerta.

Em seu livro “O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho” (ed. Companhia das Letras), um dos mais vendidos no Brasil em 2020, Sidarta reconstrói a história do conhecimento sobre os sonhos e conecta os conhecimentos da evolução biológica e da neurociência ao lugar privilegiado que os sonhos tiveram ao longo dos séculos nas religiões e na literatura.

Preocupado com as crises atuais, da crise sanitária à emergência ambiental passando pelo negacionismo e pelo populismo, o neurocientista defende que este oráculo volte a ser ouvido coletivamente, junto com a ciência, para que possamos pensar novos futuros. “É muito claro no Brasil que temos um problema para sonhar o coletivo”, diagnostica.

Seguem os principais trechos da conversa com Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro:

Como o sonho pode ser visto, de maneira científica, como um oráculo?

Sidarta Ribeiro - O sonho é uma simulação de um futuro possível com base nas probabilidades do passado. Evoluiu há 220 milhões de anos na linhagem dos mamíferos, que foram aqueles capazes de estender o sono REM de poucos segundos para muitas dezenas de minutos. E assim criaram um espaço de simulação que permite construir uma longa história, uma sequência coordenada e longa de comportamentos. Isso aparentemente foi muito adaptativo porque quase todos os mamíferos, com exceção dos mamíferos aquáticos que precisam nadar o tempo todo, todos têm sono REM [momento do sono com sonhos mais vívidos] e um sono REM muito longo.

Para algumas pessoas os sonhos vêm como esperança, como inspiração, como entusiasmo, ganho de profundidade, aumento do volume da vida psíquica

A ideia é que esse oráculo probabilístico [o sonho] veio quase como um subproduto da reativação de memórias durante o sono, que é uma propriedade bastante antiga do sistema nervoso. No momento em que o animal está em sono, reativando memórias e essas memórias têm a ver com um passado recente e que sugerem emoções, por exemplo um pesadelo que o animal teve com algum tipo de ataque que sofreu durante o dia. Isso vai alterar a decisão do animal do lugar que ele vai visitar no dia seguinte e é uma forma do passado alterar o futuro. A reativação dessas memórias durante o sonho parece ter um papel importante neste acoplamento de passado para o futuro.

Se os sonhos são resultado de uma evolução adaptativa para sobrevivermos melhor, eles podem nos ajudar em um momento como este da pandemia?

S.R. - Eles podem nos ajudar, mas não necessariamente. Depende de nossa atitude em relação a eles. Normalmente na nossa sociedade, a gente espera que o sonho nos aconteça. A gente pode até criar condições propícias para que eles venham, mas a gente quase não tenta causá-los, criar intenções, propósitos, desejos conscientes que possam moldar os sonhos. Isso é uma coisa que é feita em outras culturas, onde existe uma arte de sonhar. Nas pessoas que estão conseguindo dormir com qualidade e sonhar com qualidade na pandemia, os sonhos têm diagnosticado não só a grande situação de crise pela qual a gente passa, que não é só uma crise sanitária, é uma crise política, uma crise moral, uma crise econômica. Isso tem aparecido bastante. Por outro lado, também, para algumas pessoas os sonhos vêm como esperança, como inspiração, como entusiasmo, ganho de profundidade, aumento do volume da vida psíquica.

Acho que a gente tem que ter claro que as respostas oníricas à pandemia são tão distintas quanto as pessoas são distintas. Há pessoas que nem conseguem dormir por conta da pandemia, há pessoas que vão dormir tarde e vão ter pesadelos intrusivos e outras vão ter sonhos magníficos, épicos, sensacionais. Pessoas que sonhavam muito pararam de lembrar de seus sonhos.

No livro “O Oráculo da Noite”, você aponta que é recente na história do homem o momento em que deixamos de prestar atenção em nossos sonhos, e que isso pode ter graves consequências para nosso futuro. Você pode explicar esta ideia?

S.R. – Os sonhos são muito pouco importantes hoje em dia, quando a gente fala em sonhos as pessoas acham que estamos falando em um desejo de aquisição, sonho da casa própria. E por causa disso, a gente perdeu contato com este oráculo probabilístico. Ou as pessoas não lembram que sonham ou lembram que sonham, mas não fazem disso nada. O problema é que a gente abriu mão de um farol para o futuro.

O oráculo probabilístico é um farol impreciso, mas extremamente sensível para detectar coisas que estão acontecendo e podem impactar o nosso futuro. É frequente que uma pessoa adoecendo tenha sonhos que antecedem a consciência da doença meses e até anos antes dessa tomada de consciência.

A gente trocou a arte de sonhar no mundo ocidental, e depois em todo mundo, pela ciência, pela técnica. A gente prevê o futuro também com a ciência, inclusive de maneira muito exata. O homem consegue pousar na Lua e para isso tem que prever bastante o futuro. Mas a gente perdeu essa coisa mais holística, mais aberta, mais intuitiva, que é a prospecção do futuro que os sonhos provem. Eu diria que a ciência é um farol para o futuro muito forte, mas que pega só um pedacinho da realidade. Os sonhos são bem amplos, estão pegando muita coisa e não sabemos muito bem o que eles estão pegando e transformando em uma imagem, uma sequência, uma cena. Cabe interpretação.

Os sonhos têm diagnosticado não só a grande situação de crise pela qual a gente passa, que não é só uma crise sanitária, é uma crise política, uma crise moral, uma crise econômica

O que eu venho propondo é que chegou o momento de [fazermos] uma grande síntese. A gente precisa manter o farol da ciência aceso e precisa acender de novo o farol do sonho, e combinar essas duas coisas. Essa combinação é sinérgica, é cooperativa e vai produzir efeitos ainda mais poderosos, que vão nos permitir estimar melhor as consequências de nossos atos.

Nessa sua proposta, o sonho é entendido não só como experiência individual, mas como experiência coletiva

S.R. - Tem uma frase legal demais do pajé [ianomâmi] Davi Kopenawa em que ele diz que os brancos até conseguem sonhar, mas só sonham com o próprio umbigo. É uma dificuldade de sonhar o coletivo, de sonhar o que pertence a todo mundo.

É muito claro no Brasil que nós temos um problema [para] sonhar o coletivo. Olha a situação absolutamente caótica que temos na pandemia que é, sim, em grande parte culpa do governo federal, mas não apenas. A população entrou nessa, embarcou nessa: a realidade é o que eu invento. E eu não estou nem aí para os outros. Não é só que eu não me protejo, mas eu não quero que os outros possam se proteger. É uma sociedade muito autoritária e muito individualizada.

Costumamos dizer que sonhar não custa nada, que é acessível a todos. A pobreza afeta o sono e os sonhos? Quais os efeitos?

S.R. - A pobreza afeta muito o sono e por várias razões diferentes. Para começo de conversa porque as pessoas que vivem na pobreza tem pouca comida em casa e com barriga vazia é difícil dormir. Em segundo lugar, elas precisam se mexer e sair para trabalhar, fazer coisas para conseguir comida e isso também vai prejudicar o sono.

É muito claro no Brasil que nós temos um problema [para] sonhar o coletivo

O livro “Quarto de Despejo”, da Carolina Maria de Jesus, exemplifica muito isso. Só pelo relato dela dá para perceber como é difícil dormir bem em uma precariedade tamanha. Vários fatores contribuem para que o sono fique ainda pior, por exemplo, o fato de que as pessoas dormem em espaços exíguos, muitas pessoas dormindo na mesma cama, um desperta o outro. Um que estava trabalhando chega e acorda todo mundo. Conflitos, bairros violentos, conflitos entre moradores, conflitos com a polícia. Isso tudo faz com que o sono tenha uma qualidade péssima.

É uma população vulnerável economicamente que estará também vulnerabilizada ainda mais pelos deficits de sonho e de sono. Quais são [os efeitos], no curto prazo, dificuldade de concentração, deficit cognitivo e dificuldade de aprendizado, dificuldade de regulação emocional, as pessoas ficam muito irritadas. No médio prazo, desequilíbrio hormonal, diabete, problemas cardiovasculares e no limite uma tendência ao mal de Alzheimer. Tudo isso está ligado a sono de baixa qualidade, e o sono de baixa qualidade é uma praga na vida do pobre, porque o pobre trabalha longe, tem que pegar transporte, o trabalho dele é mais longo.

É uma situação que realmente prejudica enormemente as famílias de baixa renda e prejudica sobretudo as crianças, porque prejudica o aprendizado escolar. É uma coisa que reproduz desigualdade. Por isso que eu tenho defendido com bastante ênfase que as escolas abracem a necessidade fisiológica chamada sono como abraçaram as necessidades fisiológicas de se alimentar e ir ao banheiro. Se a escola não tivesse banheiro e não tivesse a merenda servida, ela não funcionaria. E ela também não pode funcionar com crianças que chegam completamente grogues de sono e não têm um local para a criança dormir sem ser criticada, cerceada ou mesmo ameaçada.

Como usar o sonho, nosso imaginário, para sair do buraco em que nos encontramos?

S.R. - Acho que esta é a pergunta crucial do nosso tempo. A gente precisa sonhar o futuro. A gente precisa construir o futuro e, antes disso, precisa imaginá-lo. E esta imaginação acontece de maneira muito especial quando a gente está dormindo. Então, a gente precisa ir além de criar oportunidades para ter este sonho, mas a gente precisa criar intenções associadas a esses sonhos, intenções de transformação positiva. A gente tem que acreditar que o Brasil é viável, não é que o Brasil é uma ruína de país, mas um país em construção.

Isso vale para a pandemia e para o planeta como um todo, isso tem a ver com a maneira como a gente come, como a gente se veste, como a gente se transporta. O impacto ecológico da espécie humana precisa ser mitigado e contornado. Não tem como a gente permanecer mais cem anos no planeta do jeito que a coisa vai.

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