Shyamalan discute o que é ser herói em 'Vidro'

(Imagem: divulgação Disney)

Para muitos, a cultura dos super-heróis já extrapolou os limites do aceitável. “Você já viu uma convenção de fãs de quadrinhos?”, pergunta à certa altura de ‘Vidro a personagem de Sarah Paulson, se referindo às Comic-Cons e outros eventos similares, que juntam milhões de pessoas (muitas delas já adultas) dedicadas a idolatrar figuras como Batman, Superman, Deadpool, Mulher-Maravilha e tantas outras.

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O novo filme de M. Night Shyamalan surpreende por querer de alguma forma discutir e entender o fascínio que estas criaturas com super poderes exercem sobre o público. ‘Vidro’, portanto, deixa um pouco de lado as cenas de suspense de ‘Fragmentado’ e ‘Corpo Fechado’, seus antecessores nesta trilogia concebida pelo cineasta, para se concentrar no drama dos protagonistas. Suas habilidades seriam de fato autênticas ou meras ilusões de mentes perturbadas? Ou, em outras palavras, aquilo que os deixam mais fracos ou os fazem mais fortes?

A questão é central em boa parte da filmografia do diretor. Do menino que via gente morta em ‘O Sexto Sentido’ à garota cega de ‘A Vila’, passando pelo zelador introvertido de ‘A Dama na Água’, todos são heróis humanos cujas imperfeições acabaram se revelando fundamentais para dar sentido à própria existência e os colocando à serviço de um propósito maior.

Para a Dra. Ellie Staple (Paulson, a antagonista de ‘Vidro’), porém, tudo isso não passa de um distúrbio psicológico. Ela é especialista em tratar pessoas que sofrem de algo que chama de “síndrome de super-heróis”: indivíduos que acreditam possuir poderes sobrenaturais.

A Dra. Staple tem a chance de sua carreira quando ganha a oportunidade de estudar de perto David Dunn (Bruce Willis), o vigilante capaz de com um simples toque visualizar os crimes cometidos por outros sujeitos apresentado em ‘Corpo Fechado’; o fisicamente frágil, mas maquiavelicamente genial Sr. Glass (Samuel L. Jackson); e as vinte e cinco personalidades que coabitam o corpo e mente de Kevin Wendell Crumb (James McAvoy, repetindo a performance assombrosa de ‘Fragmentado’). Os três estão isolados do mundo, internados na ala psiquiátrica de um hospital.

O fato da maior parte da ação acontecer entre consultas e conversas nos corredores e salas da instituição resulta em um ritmo mais cerebral para o filme. Para evitar cair na monotonia, Shyamalan pega emprestado um pouco da linguagem clássica das HQs, com ambientes de cores bem definidas e visual que emula os quadrinhos, ora com planos detalhe bem marcados (a parte de baixo do rosto de Samuel L. Jackson quando ele fala ao microfone), ora apostando na profundidade de campo (as cenas do confronto final, no clímax).

Assim como o trio Willis-Jackson-McAvoy, Vidro traz o retorno de personagens como Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), a garota sobrevivente de ‘Fragmentado’, e Joseph (Spencer Treat Clark), o filho de David Dunn em ‘Corpo Fechado’ – longa do qual algumas cenas são relembradas.

Mais do que estas voltas, o que une os três filmes é a coesão temática, mesmo que as abordagens sejam diferentes entre si. Mais contemplativo que os outros trabalhos de Shyamalan, esta é a história que parece resumir de forma definitiva sua filosofia: todos temos o extraordinário dentro de nós. Ainda que setores da sociedade insistam em drenar nossas capacidades.