Djonga faz convite para elite branca absorver seus versos políticos

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Djonga no show do Lollapalooza Brasil 2022.
Djonga no show do Lollapalooza Brasil 2022. Foto: Iwi Onodera/ Brazil News

Resumo da notícia:

  • Show de Djonga é um convite para elite branca absorver seus versos políticos

  • Assistir ao rapper no Lollapalooza foi uma experiência inesquecível pelo grito de representatividade

  • Ascensão do mineiro e de outros artistas pretos é chance de fazer o branco ouvir pela arte

Esse texto não é uma desculpa por ser branco e nem vai se transformar numa música intitulada "Branquitude" ao estilo da "Masculinidade" de Tiago Iorc. Entender que somos racistas pela nossa existência é o primeiro passo para se desconstruir de uma tentativa frustrada de se despir de uma dívida que é histórica. Desprender de uma estrutura social que insiste em permanecer presente em pleno 2022.

Lollapalloza 2022

A partir disso, quero compartilhar uma visão de quem esteve no meio da multidão que vibrou pelo show de Djonga no Lollapalooza, no último domingo (27). Me chamou a atenção a plateia predominantemente branca apesar da enorme representatividade preta do rapper e o ativismo contra o racismo presente em suas músicas.

De certa maneira, isso escancarou o elitismo do festival, com ingressos que chegavam próximo de R$ 5 mil, alcançando a população branca em sua maioria por diferenças sociais que ainda colocam os negros como cidadãos marginalizados na sociedade.

Foi curioso ver o público se entregando aos hinos de resistência da comunidade negra, que até criticam pessoas como as presentes no show, com as letras na ponta da língua. E mais interessante ainda foi notar que o rapper tem consciência sobre estar ocupando um espaço importante para ser ouvido além do contexto periférico e que aproveita a oportunidade para chamar o povo para a luta protagonizada pelos negros. E lembrando que racismo é um problema criado pela branquitude, logo ela precisa resolver.

"Fogo nos racistas"

"Isso é de vocês [brancos] também. Para os filhos de vocês. Vocês têm que lutar junto 'com nós'. O bagulho é difícil demais", declarou em cima do palco, no Autódromo de Interlagos, para milhares de pessoas que estavam presentes. O músico Francisco Gil, da banda Gilsons, fez questão de ver o mineiro ao vivo pela primeira, declarou para reportagem do Yahoo minutos antes do show começar.

Vale lembrar que sou uma mulher no alto de meus privilégios como pessoa branca e de classe média alta, e me vejo num constante exercício de descer a escada social e racial a qual estou inserida. É sobre colocar os "óculos morais" para se despir da miopia social que tende a me impedir de enxergar além dos meus iguais. E deveria ser uma prática cada vez mais comum entre os meus semelhantes.

Entrar em contato com a narrativa da comunidade preta é entender que certos posicionamentos são resultado de uma luta cansativa para ser enxergado, respeitado. Eles estão exaustos de implorar por respeito e Djonga passa esse recado muito bem.

Essencialmente político, o rap do mineiro, assim como dos paulistanos Emicida, Mano Brown, do carioca Marcelo D2 e de tantos outros artistas pretos, é uma forma indispensável de disseminar a realidade cruel dos negros para o entendimento da população branca por meio da arte. Isso porque a música amplia a voz a quem não seria ouvido se não estivesse em cima de um palco de um grande evento de proporção mundial.

É de conhecimento público que a sociedade inviabiliza a periferia e tudo que vem dela. E isso só fica diferente quando os detentores do capital percebem que a cultura da favela pode ser lucrativa. De fato, não é a maneira ideal de ocupação de espaços predominantemente brancos acontecer, mas é a forma que acontece até então. Enquanto alguém "de cima" enche o bolso, os versos carregados de representatividade chegam cada vez mais longe e ensinam o que as aulas de história ainda tendem a ignorar nas escolas. Mas ainda precisamos de respeito, isso vai além de dinheiro.

Ver o lema "Fogo nos racistas" ser gritado em alto e bom som em todas as performances de Djonga é identificar que a ocupação está acontecendo aos poucos. E com um detalhe: ele aparece todo grifado, como foi possível ver no look do músico, vestido de marcas importadas como Gucci e Burberry, passando o recado que a elite também passou a ser o seu lugar.

“Quero ouvir ['lema fogo nos racistas'] com muita força, para o mundo inteiro ouvir, e ver se acaba com essa palhaçada de uma vez. 'Nós' não aguenta [sic] mais perder criança na favela com bala perdida. Não aguenta mais polícia parando a gente na rua por a gente ser quem a gente é. Não aguenta mais ser perseguido por segurança no shopping”, declarou o rapper, incentivando o público a levantar o braço, com o punho fechado, em sinal de protesto.

Independentemente do gosto musical, assistir ao show de Djonga é uma experiência de imersão em suas manifestações políticas e um convite a pensar como você, pessoa branca, está lidando com seus privilégios frente aos constantes sofrimentos impostos diariamente ao povo negro. Existe a Júlia antes e depois de testemunhar uma aula do rapper no palco.