'Shocking!' une loucuras surrealistas ao pink vibrante da estilista Elsa Schiaparelli

PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Numa antiga mansão do século 18, na praça Vendôme, na Paris dos anos 1930, um grande salão abrigava móveis criados pelo escultor Alberto Giacometti, retratos assinados por Man Ray -muitos da dona do estabelecimento- e uma releitura de um telefone na embalagem de um pó compacto concebida por Salvador Dalí.

Poderia ser o endereço de uma galeria de arte. Mas se tratava da nova sede da loja da estilista Elsa Schiaparelli, inaugurada em 1935.

"O ano em Paris foi marcado não pelas polêmicas dos surrealistas no café da praça Blanche [epicentro do movimento], ou pelo suicídio do meu grande amigo [o poeta surrealista] René Crevel, mas pela maison de moda que Elsa Schiaparelli abriria na praça Vendôme. Foi lá que aconteceram fenômenos morfológicos; era lá que a língua de fogo do espírito santo de Dalí desceria", diria o próprio surrealista espanhol, num trecho de suas memórias.

Dalí descrevia o evento que marcou a consagração total da estilista de origem italiana, expoente do surrealismo na moda e amiga dos principais integrantes do movimento -concentrados numa Paris onde ela e Dalí, de quem era íntima, se destacavam como duas grandes estrelas, criando não só peças de roupa e de arte, mas happenings e performances que encantavam na mesma medida em que provocavam e escandalizavam a sociedade francesa.

É essa atmosfera surrealista vibrante da época que se pretende recriar em "Shocking! Les Mondes Surréalistes d'Elsa Schiaparelli", ou "shocking", os mundos surrealistas de Elsa Schiaparelli, exposição no Museu de Artes Decorativas, em Paris, em cartaz até janeiro do ano que vem.

"Todos os vestidos, acessórios e obras são organizados na mostra para que o público entenda o contexto cultural e artístico da época, o que representava o surrealismo nos anos 1930 e como a efervescência de eventos fazia com que os artistas se concentrassem em Paris", diz Marie-Sophie Carron de la Carrière, organizadora da exposição.

Entre os quase 600 itens de "Shocking!", há croquis de coleções, vestidos, acessórios de moda e peças de decoração. Há também muitas fotografias de Man Ray, um casaco bordado com um desenho feito por Jean Cocteau, assim como outros desenhos assinados pelo escritor.

Entre as pinturas, está o quadro "Retrato de Nusch Eluard", de 1937, obra de Pablo Picasso, em que ele pinta a mulher do poeta Paul Eluard vestida com chapéu e joias de coleção lançada por Schiaparelli no mesmo ano.

Já de Dalí, há os quadros "Três Jovens Mulheres Surrealistas Segurando em Seus Braços a Pele de uma Orquestra", de 1936, e "Mulher-Gaveta", também daquele ano. O mestre surrealista, porém, também cria outras "obras" presentes na mostra, como uma peça talhada de cristal Baccarat amarelo translúcido, com um grande sol na ponta.

Escultura ou frasco de perfume? Moda ou arte? Quase 90 anos depois da primeira colaboração entre Dalí e Schiaparelli -o pó compacto na forma de um telefone, de 1935, exibido na exposição-, o julgamento sobre o que pode ou não ser considerado arte não parece ter tanta importância dentro da mostra.

O próprio Salvador Dalí criou, anos depois de sua colaboração com Schiaparelli, uma série de coleções de joias surrealistas, muitas delas expostas no Teatro-Museu Dalí, em Figueres, sua cidade natal, na Espanha.

Os muitos broches criados por Giacometti para Schiaparelli, portanto, podem ser encarados como microesculturas ou como uma peça de moda intrigante, assim como o colar "Aspirina", concebido pela escritora franco-russa Elsa Triolet em 1931 e primeira colaboração de Schiaparelli com um artista.

Antes disso, ela já havia se inspirado no mundo das artes para criar sua primeira coleção, em 1927, responsável por lançar a técnica de trompe l'oeil, ou ilusão de ótica, no mundo da moda, ao tricotar suéteres com desenhos que davam a ilusão de golas, laços, mangas e gravatas. Foi um sucesso imediato.

Além do trompe d'oeil fashion, a estilista ficou famosa mundialmente por "inventar" o rosa-choque, tom de cor-de-rosa vibrante lançado em 1937, junto com o perfume Shocking e cujo nome foi popularizado ao ponto de, décadas mais tarde, nos anos 1980, virar até título de música brasileira, em "Cor de Rosa-Choque", de Rita Lee, fazendo jus à versão do nome em português.

"A temática do rosa-choque aparece em toda a exposição, mas a verdade é que há muitas gradações de tons de rosa na mostra", afirma Carron de la Carrière, a curadora. "Schiaparelli lançou o nome como uma jogada de marketing, ela era muito boa nisso."

Outras inovações atribuídas a ela na área dos negócios foram a de ser a primeira a aplicar o conceito de licenciamento de marca, de inaugurar a prática recorrente de colaboração de grifes de moda com artistas e a de criar coleções temáticas, vendendo a ideia de um conceito definido para cada uma.

No caso da estilista, as inspirações eram totalmente inesperadas para a época, como a de seu desfile "O Circo", de 1938, do qual faz parte o vestido com "estampa rasgada", que provoca um efeito de tecido dilacerado, revelando pedaços de carne --numa parceria com Dalí e referência à sua pintura "Três Jovens Mulheres Surrealistas", uma das duas presentes na mostra.

O frasco do perfume Roy Soleil, o do cristal Baccarat amarelo, é outro exemplo das muitas contribuições de Dalí para Schiaparelli -ele também pintou o convite do lançamento da fragrância para a imprensa.

Uma das mais importantes foi seu vestido-lagosta, usado em 1937 pela socialite americana Wallis Simpson, futura duquesa de Windsor, e fotografado por Cecil Beaton para a revista Vogue. As imagens confirmavam toda simbologia erótica do crustáceo, até então subjetiva no famoso "Telefone-Lagosta", objeto surrealista criado um ano antes pelo artista.

No vestido em questão, Dalí pintou a lagosta em organza de seda branca saindo do ventre da futura duquesa. Provocou polêmica. "A colaboração de Schiaparelli com Dalí foi muito profunda, porque ambos compartilhavam a mesma fantasia, a mesma obsessão pelo tema do sonho, que para o surrealismo é uma questão muito importante", afirma a curadora.

Causar impacto era o forte da estilista, e não à toa. Enquanto Coco Chanel -concorrente de Schiaparelli no período entre as grandes guerras, já famosa quando a designer italiana apareceu na moda- revolucionou o guarda-roupa feminino com elegância, simplicidade e funcionalidade, a revolução de Schiaparelli tomava o caminho da excentricidade, da fantasia e do humor.

Poucas tiveram a coragem de usar o chapéu-sapato, outra invenção em parceria com Dalí, dessa vez mencionando os pés, mais um tema surrealista recorrente.

Mas sua mensagem transgressora e avant-garde fascinava não só a alta sociedade parisiense e americana --Schiaparelli morou em Nova York antes de se mudar para a França e durante a Segunda Guerra Mundial--, mas também estrelas de cinema que eram suas clientes, como Marlene Dietrich e Lauren Bacall.

"A moda de Schiaparelli é tão atual que não sinto qualquer dificuldade em interpretar o que fez nos dias de hoje", disse Daniel Roseberry, em entrevista recente ao podcast da editora de moda britânica Suzy Menkes.

Diretor criativo da maison Schiaparelli desde 2019, o estilista americano veste hoje celebridades como Lady Gaga e Beyoncé. Uma seleção de suas criações atuais para a marca -a coleção de alta-costura foi desfilada no dia do coquetel de abertura da exposição- integra a mostra.

Nascida em Roma, em 1890, filha de um intelectual com uma aristocrata, Schiaparelli tinha, desde cedo, um "temperamento de artista", como definiu Carron de la Carrière. Recém-formada em filosofia na Universidade de Roma, publicou um livro de poemas eróticos, o que rendeu uma tentativa frustrada dos pais de internar a jovem num convento.

Aos 22 anos, foi trabalhar como babá em Londres, onde se casou com um conde, e, então, se mudou para Nova York. Lá, teve sua única filha e foi abandonada pelo marido infiel. Sem dinheiro, começou a trabalhar numa loja de roupas de Gabriële-Buffet Picabia, ex-mulher do artista Francis Picabia, onde conheceu Marcel Duchamp e Man Ray.

Quando o fotógrafo americano decidiu ir para Paris, Schiaparelli foi junto. Para sustentar a filha, fazia todo tipo de trabalho temporário, até que num deles conheceu o estilista Paul Poiret, célebre no Brasil por vestir Tarsila do Amaral, que a incentivou a lançar sua própria marca.

Autodidata e amante da arte, ela comentou sua relação com os surrealistas em sua autobiografia "Shocking Life", publicada em 1954, mesmo ano em que decidiu fechar sua maison e abandonar a moda. "Com eles você se sentia ajudada, incentivada, para além da realidade material e chata de fazer um vestido para ser vendido."