Shein x Anitta: um mês depois, coleção que seria "para todes" ainda exclui pessoas gordas

Anitta com peças da coleção Shein x Anitta (Foto: divulgação)
Anitta com peças da coleção Shein x Anitta (Foto: divulgação)

"Para todes" ou "Para pouques"? Quando a collab Shein x Anitta foi anunciada, há cerca de um mês, os internautas comemoraram. Afinal, a cantora é uma das maiores referências de estilo no Brasil e a marca se tornou gigante do ultra-fast fashion por captar as principais tendências entre a geração Z, pelos preços acessíveis e pela grande variedade de tamanhos. Não tinha como dar errado.

No dia do lançamento, porém, tivemos uma surpresa: as primeiras peças disponibilizadas no site da marca não eram nada do que se espera de uma coleção livre de gênero. Até aí, "tudo bem", você pode se identificar como homem ou não-binário e querer usar uma minissaia ou um vestido, além das calças e shorts. Talvez a gente tenha se equivocado ao imaginar algo parecido com o que fazem a Another Place e a Baw Clothing, por exemplo.

Em seguida, muitos dos que avançaram para a área de compra, se decepcionaram pelos (poucos) tamanhos oferecidos. Mesmo hoje, com 99 itens à venda, apenas nove (N-O-V-E!) são encontrados quando filtramos a busca para XL/GG. E, realmente, conferindo o restante, tudo vai até o G (muitas vezes esgotado).

"Esperava roupas com mais personalidade, e não mais do mesmo. Mas o que me incomoda de fato é a forma como a coleção foi apresentada ao público e o que vemos na prática. O discurso 'para todes' se perdeu e ficou até incoerente com o que Anitta prega, que é essa questão do empoderamento feminino, da diversidade, da inclusão. Ainda mais porque a Shein já é reconhecida pela variedade de tamanhos", analisa Izabel Gimenez, criadora de conteúdo e ativista do movimento Corpo Livre, em entrevista ao Yahoo.

Outras inconsistências

Nos últimos anos, Anitta passou a usar a voz e a visibilidade que conquistou para apoiar causas relacionadas à preservação do meio ambiente, aos direitos humanos e aos direitos autorais. Por outro lado, a Shein está envolvida em diversas polêmicas que vão de encontro ao que a cantora defende nas redes sociais.

Pouco se sabe, por exemplo, sobre a cadeia produtiva da marca e a que tipo de condições são expostos os trabalhadores que a compõem. Óbvio, falamos da Shein, mas outras grandes marcas já foram expostas por buscarem mão de obra barata em países com legislações trabalhistas mais flexíveis — é o caso da Zara, que em 2017 foi responsabilizada por trabalho análogo à escravidão após um flagra feito seis anos antes.

"A Shein ainda é acusada de copiar criações de pequenos designers, grifes e até outras marcas de fast fashion. No caso dos pequenos designers, eles dificilmente terão fôlego para continuar trabalhando em meio a essa competição desleal e podem ir à falência", destaca a designer e especialista em Estética e Gestão de Moda Monayna Pinheiro, também empreendedora do segmento slow design e professora do curso de Moda da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

A produção de lixo têxtil também preocupa. Seja pela qualidade dos materiais ou pelo fato de a Shein basicamente ser pautada por algoritmos e tendências superpassageiras, essas roupas não foram pensadas para durar muito. Resultado? Os consumidores compram mais (por necessidade e para estarem "na moda") e as peças datadas ficam acumuladas no armário ou em algum lixão a céu aberto.

De novo: a ideia não é vilanizar Anitta ou a Shein, e sim todo o sistema que limita as opções de pessoas gordas e/ou que não têm condição financeira de adquirir os chamados itens-desejo em versões que sejam mais corretas ecologicamente falando. E, se este já não é um debate simples, fica ainda mais complicado quando celebridades atrapalham ao invés de ajudar.

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