Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis - Crítica do Chippu

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Parece que estamos de volta em 2008, 2009 ou 2010. A Fase 4 do Marvel Studios e seu universo cinematográfico (MCU) começou, tecnicamente, com as séries do Disney+ e Viúva Negra há três meses, mas com Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis o estúdio nos dá a impressão de estar iniciando algo novo, explorando um novo cantinho deste mundo cheio de heróis, vilões, magos e alienígenas?. É uma fórmula vista inúmeras vezes em filmes do tipo; um personagem inédito cuja vida fica de cabeça para baixo, descobre poderes e precisa lidar com ameaças (e com problemas paternos).


O sujeito da vez é Shang-Chi (Simu Liu), um guerreiro de artes marciais vivendo escondido em São Francisco sob o nome de Shaun - sim, uma péssima identidade secreta, como sua amiga Katy (Awkwafina) deixa claro ao descobrir - e trabalha como manobrista em um hotel de luxo. Shaun está tranquilo com sua vida, comendo na casa de outras famílias asiáticas e indo com a best para karaokês durante a noite, mas quando um grupo de assassinos de um grupo chamado Os Dez Anéis aparece, enviados numa missão pelo pai do protagonista, Wenwu (o magnífico Tony Leung), ele precisa dar lugar a Shang.


Por se tratar de uma história de origem, A Lenda dos Dez Anéis carrega todas as limitações conhecidas neste tipo de narrativa. Há inúmeras cenas de exposição, pelo menos duas figuras servindo como narradores, flashbacks explicativos e muitas aulas sobre conceitos mágicos. Mas você sabe, a Marvel aprendeu a fazer isso sem perder o humor e carisma, garantindo a diversão da audiência mesmo nos momentos mais didáticos.


Mas quem é Shang-Chi? Depois de ver o filme, você terá uma ótima noção da descrição dos seus poderes, habilidades e inimigos. Entretanto, apesar de ser uma origem, essa história parece mais preocupada em nos apresentar a mitologia, deixando o herói em segundo plano. Ele é engraçado? Arrogante? Carinhoso? Eu não sei dizer. O personagem é um quadro em branco que permanece em branco.


É difícil entender quem, exatamente, é o culpado por isso. O roteiro, escrito por Dave Callaham, Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham, faz o básico e não muito mais. Ele nos mostra Shang-Chi fugindo de suas responsabilidades, família e desafios, cria um arco no qual o clímax emocional é o personagem não abandonar uma pessoa querida pela segunda vez, e termina formando um herói. Mas nunca há toques para temperar sua personalidade. Grande parte do sucesso desses Vingadores vem dos momentinhos quietos nos quais os diretores e roteiristas conseguem encaixar uma peça de desenvolvimento pessoal em meio ao enredo maior.


Isso, em grande parte, fica a cargo dos atores. No geral, o MCU deu muito certo por escolher os intérpretes certos, cheios de carisma e qualidade para transformar suas figuras de ação. Basta ver uma entrevista para ter certeza da capacidade de Liu de fazer parte deste céu de estrelas. Dentro do filme, por outro lado, ele desaparece, diluído pela história e efeitos especiais. Talvez o ator precise de mais material, de um roteiro mais desenvolvido, tempo com o personagem.


Ele não precisa, com certeza, de um elenco de maior qualidade. As pessoas ao seu redor, em especial Awkwafina e Leung, capricham nas atuações e personagens, inevitavelmente silenciando o protagonista e tomando conta das cenas. Veterana da comédia e de histórias asiáticas sobre dramas familiares, Awkwafina está claramente se divertindo muito, elevando o nível das piadas do roteiro com seu timing perfeito, expressões faciais acentuadas e fala meio desesperada, sempre ofegante. O roteiro de Shang-Chi faz enormes exageros para justificar a presença de Katy na jornada do herói, e ainda mais para mantê-la no futuro do MCU. A garota dirige como Vin Diesel em Velozes e Furiosos, por alguma razão, e aprende arco-e-flecha mais rápido que Legolas. Nada é justificado ou explicado, e tudo é uma desculpa para manter Katy presente, mas isso pouco importa diante do quão lúdico ela torna o filme.


Leung, por sua vez, é talvez o melhor ator a passar por um filme da Marvel num papel principal. O muso do genial cineasta Wong Kar-Wai faz aqui sua estreia em Hollywood e ouvi-lo falando em inglês será uma experiência curiosa para fãs de Chungking Express ou In the Mood for Love. Sua atuação, porém, não vai surpreender ao se mostrar ótima, cuidadosa e cheia de nuances. Conhecido por atuar com seus olhos, Leung melhora seu personagem a cada momento, adicionando profundidade a um homem que não se compara aos outros papéis de sua carreira no quesito de profundidade. Sim, isso não é nenhum 2046, mas Leung sai de Shang-Chi como seu claro vencedor. O levantar de suas sobrancelhas, desviar do olhar, sorriso no cantinho do rosto sempre foram suficientes para mover montanhas, e aqui não é diferente.


Neste caso, graças aos dez anéis mágicos em seus braços, a fonte do nome de seu exército privado, Leung quase consegue, literalmente, mover montanhas. A história de Shang-Chi apresenta novos McGuffins ao MCU na forma desses objetos milenares, igualmente poderosos e sedutores, e serão eles os responsáveis por juntar o herói conhecido nos quadrinhos como Mestre do Kung Fu aos outros Vingadores.


E se seu apelido é Mestre do Kung Fu, é justo esperar cenas de luta primorosas de Shang-Chi. De Jackie Chan a Iko Uwais, o cinema asiático de artes marciais produz alguns dos melhores filmes de ação já feitos, usando as coreografias de combate para comunicar romance, humor, ódio e outros elementos narrativos. A direção de Destin Daniel Cretton e sua equipe de dublês consegue esse feito em grande parte do longa-metragem. Na abertura, vemos Wenwu lutando e se apaixonando por Li (Fala Chen), num embate mais semelhante a uma dança do que uma troca de socos, onde cada figura tenta impressionar a outra com sua destreza e habilidades. Os dois se casam e ela dá a luz a Shang-Chi e Xialing, irmã subdesenvolvida do protagonista interpretada por Meng'er Zhang. Mais tarde, Shang-Chi precisa redefinir seu estilo e é guiado no treinamento pela sábia Ying Nan (Michelle Yeoh).


E quando é para passar humor e empolgação, o filme não falha. Sim, isso não é The Raid 2 ou algo da filmografia de Tony Jaa, mas há algumas das melhores cenas de ação do MCU. Duas sequências de luta vistas em trailers - uma num ônibus e outra na lateral de um prédio - são criativas, acrobatas e divertidas, misturando golpes e feitos para deixar claro o quão capaz nosso novo herói é.


Infelizmente, por ser um filme de herói que Shang-Chi também tem algumas das piores cenas de ação do universo Marvel. Conforme a história avança, o uso de elementos CG e efeitos especiais se torna cada vez mais necessário, culminando num terceiro ato onde os atores são as únicas coisas reais na tela, repleta de criaturas (algumas com design bem legal, para ser justo) e cenários cinzentos, dependentes de movimento de câmera rápidos demais para dar qualquer senso de clareza à audiência. No final do filme, Cretton não é capaz de elevar o espetáculo sem perder o precioso DNA que demonstrou no começo, quando seguia as regras do gênero de artes marciais ao mostrar as lutas com clareza, sem cortes desnecessários ou obstruções visuais.


Não é que todo CG seja ruim. O diretor mostra sagacidade ao combinar o uso dos anéis e outros poderes com a luta em si, contribuindo para os golpes sem perder o sudo-realismo da situação, mas quando a ameaça se torna, literalmente, grande demais, o equilíbrio desaparece.


Há muito para se gostar aqui, e mesmo defeitos como a atuação morna de Liu podem ser melhorados com roteiros mais interessantes e outras dinâmicas no futuro, mas Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, como verdadeiro começo deste novo Universo Marvel, não é suficiente para empolgar como desejamos, mesmo com uma cena pós-créditos digna de gritinhos no cinema.


Nota: 3/5


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