Shakira e Miley Cyrus provocam fetiche pela dor da traição com música de corno

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP - Show da cantora americana Miley Cyrus no Anhembi, em SP. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP - Show da cantora americana Miley Cyrus no Anhembi, em SP. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, E BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Shakira não tem pudores ao escancarar os podres do seu ex-marido na canção "Bzrp Music Sessions, Vol. 53". Miley Cyrus, mais sutil, se diverte sozinha enquanto lembra os vacilos de um antigo amor no clipe de "Flowers". Com sede de sangue, a americana SZA canta em "Kill Bill" que não se importa de ir para o inferno depois de matar seu ex-namorado e a nova amante dele.

São divas pop que assumiram sua dor de corno ao escrever letras vingativas em que demonizam seus ex-companheiros. As declarações polêmicas viraram tema de discussão nas redes sociais e na imprensa do mundo todo, o que alçou as três cantoras ao topo das paradas. O trio vem ocupando as primeiras posições da lista de faixas mais ouvidas no mundo do Spotify nos últimos dias.

Não é exatamente uma novidade que artistas da música ponham na vitrine e lucrem com a dor de cotovelo, mas é curioso que os três primeiros grandes hits do ano abordem o tema de formas tão viscerais. O fascínio pelo sofrimento de celebridades é uma concepção centrada no fetiche, afirma a psicanalista Maria Homem.

O movimento mostra um caráter mórbido dos fãs, diz Homem, que chama a espetacularização do chifre alheio de uma ação voyeurista. É como se as pessoas se excitassem ao saber de um caso de traição. "Dá alívio porque é o outro que está naquela situação, não a própria pessoa. Alguns se identificam com esse enfeitiçamento despertado pelo espetáculo."

"Precisamos seguir artistas que achamos incríveis porque o universo consumista contemporâneo está centrado na sua fetichização", acrescenta a psicanalista. "O mercado de consumo, que inclui as celebridades, faz isso o tempo todo."

A própria Shakira parece saber que sua exposição exagerada dá lucro. Na música, depois de esculachar Gerard Piqué, o ex-jogador de futebol espanhol com quem foi casada por 11 anos, a colombiana canta que "mulheres já não choram, e sim faturam".

Cyrus, por sua vez, alcançou pela primeira vez o topo das músicas mais ouvidas do Spotify global com sua "Flowers", feito que deve render louros ainda na Billboard Hot 100, a principal parada dos Estados Unidos.

Mais do que assumir o drama do ressentimento, Homem, a psicanalista, diz que as cantoras vão além do lamento -elas querem questionar a si mesmas.

Cyrus é quem melhor representa esse movimento de autodescoberta. "Eu posso comprar flores para mim/ posso me levar para dançar/ posso me amar melhor do que você pode", ela canta no refrão chiclete, que supostamente seria direcionado ao ator Liam Hemsworth, com quem ela foi casada por pouco menos de um ano.

Entoar a dor de corno é paixão nacional também. No Brasil, músicas sobre ex-namorados traidores lotam as rádios e as playlists mais populares dos streamings musicais. O tema é antigo, mas ganhou tração nos últimos anos por causa de Marília Mendonça, a capitã do feminejo, faceta do sertanejo protagonizada por mulheres.

A rainha da sofrência, como ela mesma se vendia, levou às paradas dezenas de canções ressentidas por causa de um amor que não deu certo. Seu hit "Infiel", que ultrapassou meio bilhão de visualizações no YouTube, foi a música mais ouvida do país em 2016. Até hoje Mendonça encabeça as listas de sucessos.

O sertanejo sempre falou de cornos, mas de uma forma diferente do pop. "É um gênero que traz menos o lado pessoal dos artistas. Na maioria das vezes, os cantores sertanejos só interpretam letras de outros compositores. No pop, o processo é mais lento e traz a vivência do artista", diz Carol Biazin, que é cantora e compositora.

Segundo ela, o tema dá tão certo no sertanejo porque letristas dessa área não miram um artista específico, mas a história que querem contar.

Biazin é próxima de Luísa Sonza, um dos principais nomes do pop nacional. Foi de uma parceria entre elas e a cantora Day Limns que nasceu a letra da faixa "Penhasco", do disco "Doce 22", que escancarou as dores de Sonza por um relacionamento findado. Ela havia terminado o casamento com o comediante Whindersson Nunes um ano antes de lançar a música.

Na letra, Sonza compara a dor do término com a de cair de um desfiladeiro. "Sabia que a queda era grande/ mas tive que pular/ quando segurei sua mão você soltou a minha/ e ainda me empurrou do penhasco." Biazin diz que o processo de composição foi introspectivo, feito num quartinho escuro enquanto Sonza desabafava. "Sou a favor dessa cuspida que o artista dá antes de eu escrever a música", diz.

Shakira, Miley Cyrus e SZA também escreveram suas canções rancorosas com ajuda de outros compositores. Mas isso não significa que as artistas não estejam cantando a própria verdade, diz o produtor musical Pablo Bispo, que escreveu dezenas de hits do pop.

Para compor uma canção, seja sobre corações partidos ou "bateção" de bunda, Bispo faz questão de se reunir com o artista. "No primeiro encontro, peço que a pessoa fale sobre a sua vida. A gente pergunta o que o artista sempre quis fazer e do que ele tem medo. É um exercício que ajuda a pessoa a colocar para fora a sua maior verdade."

Mas é possível que a letra comece a ser criada sem os pitacos do artista --é o caso de "A Tua Voz", do EP "Affair", lançado por Gloria Groove. Na faixa, a drag queen lamenta a perda de um amor que a deixou para ficar com outra pessoa. Gloria, que é casada na vida real, só embarcou na canção depois que os primeiros versos surgiram na mente de Bispo.

O produtor confessa que já levou seu coração partido para uma canção de outra pessoa --mesmo que de forma sutil. Pabllo Vittar brada contra a homofobia quando canta que tudo vai ficar bem na sua "Indestrutível", mas Bispo lembra que só queria consolar a si próprio quando escreveu o verso. Ele havia acabado de terminar um relacionamento.

Não é de hoje que musas da música pop fazem sucesso com canções cheias de alfinetadas para ex-namorados. Taylor Swift, por exemplo, consagrou sua carreira lançando indiretas para seus antigos affairs, que vão de Tom Hiddleston a Jake Gyllenhaal.

Na Espanha, a cantora Rocío Jurado se transformou numa espécie de diva da sofrência com a copla andaluza e o bolero ainda nos anos 1970. Em sucessos como "Ese Hombre" e "Embustero", transitou entre o desejo de desmascarar ex-companheiros e o encontro com a desilusão desmedida.

Nessa mesma época, a rainha do country Dolly Parton chegou ao topo das paradas com "Jolene". Símbolo dessa dor provocada pela traição, a canção faz uma súplica à mulher que ameaçava roubar seu companheiro, Carl Thomas Dean. Coincidência ou não, a cantora é madrinha de Miley Cyrus.

Com menos melodrama, a nigeriana Sade abordaria o mesmo tema no clássico "Smooth Operator", de 1984, em que o protagonista é um homem que parte corações por onde passa.

Mais recentemente, Madonna lembrou o fim de seu casamento com Guy Ritchie em "MDNA", lançado em 2012, ainda que não com a mesma força de Beyoncé no premiado disco "Lemonade", de 2016. Na faixa "Sorry", a cantora expõe uma infidelidade do marido Jay-Z, com quem acabou se reconciliando tempos depois.

A psicanalista Maria Homem afirma que essas são mulheres que entendem a importância de encontrar o lugar de valoração feminino. "Elas estão faturando milhões sendo as mais tocadas agora. Se empoderar diante da perda, do luto e da traição é fazer uma refetichização de si mesma."