Sexualidade sem rótulos: posição de artistas demonstra expansão de pensamento

Cantor curtiu o festival MITA, em São Paulo, no dia 14 de maio (Foto: Patrícia Devoraes/ Brazil News)
Cantor curtiu o festival MITA, em São Paulo, no dia 14 de maio (Foto: Patrícia Devoraes/ Brazil News)

Com estilo andrógino (que é indefinido entre masculino e feminino), o cantor Vitão, de 22 anos, compartilhou, recentemente, novas reflexões sobre o entendimento da sua personalidade e desejos. "Cabelo, roupa e maquiagem não têm nada a ver com sexualidade. Eu mesmo estou em um momento de não saber o que eu sou", declarou à revista GQ.

"Não sei exatamente onde me encaixo. Até então sempre me vi como um homem hétero, sempre gostei de mulheres, mas cada vez mais entendo que talvez sexo seja mais do que apenas isso", disse o cantor.

Em declaração semelhante, sem se apegar a rótulos, a atriz Alanis Guillen, que dá vida à personagem Juma na novela Pantanal, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que "se relaciona com pessoas" e acha revolucionária a maneira como outras artistas têm assumido a bissexualidade. "Nossos desejos são nossos e não para servir a nada e nem ninguém. Mas entendo como é afrontoso ser uma mulher livre, que se expressa e que se tem pra ela", disse.

Para Ivani Oliveira, mestre em Psicologia Social, as declarações dos artistas representam uma tendência de expansão de pensamento. A especialista aponta que, ainda que parte dos brasileiros tenham posturas retrógradas, há outras formas de ver o mundo que tendem a ser cada vez mais difundidas.

“Estamos passando por mudanças na nossa cultura. Somos uma sociedade que teve que lidar com um processo que impôs uma lógica de relacionamentos. Temos pouco conhecimento da forma como se relacionavam os povos originários brasileiros, então fomos educados dentro da lógica europeia cis, hétero, que excluía muito as possibilidades da sexualidade humana”, reflete a psicóloga, que é professora na Universidade Cidade de São Paulo e integra o Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP).

Conforme explica Lúcia Alves da Silva Lara, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da FEBRASGO, sexualidade é um conceito amplo. “Diz respeito a como a pessoa se expressa, se comporta socialmente, e também sexualmente. A sexualidade envolve questões psíquicas, biológicas e ambientais”.

Lúcia considera que as pessoas têm sentido mais abertura e mais coragem para se expressar de diferentes formas. “Felizmente nossa sociedade tem evoluído, e os meios de comunicação também ajudam que as pessoas se expressem e observem umas às outras. Isso facilita, inclusive, para que pessoas que não têm tanto acesso à informação compreendam melhor essas questões”, afirma.

“Hoje me enxergo como lésbica, mas daqui dois anos, não sei”

Para Luisa Abrahão, de 23 anos, a descoberta veio há dois anos, depois de passar a adolescência reprimindo o que ela reconhece hoje como atração por mulheres. “Na fase mais aflorada da minha sexualidade, sonhava com meninas, mas é algo que eu sempre reprimia, porque algo no meu subconsciente dizia que não era certo”, lembra.

Luisa Abrahão (Foto: Arquivo pessoal)
Luisa Abrahão (Foto: Arquivo pessoal)

Esse “preconceito interno”, como ela caracteriza a barreira que impunha para não refletir sobre seus desejos, foi o que fez com que ela não percebesse que o sentimento de ciúmes exagerado que sentiu por algumas amigas se tratava de paixões adolescentes – algo que analisou alguns anos mais tarde, com a ajuda de uma psicóloga.

Luisa namorou um rapaz por três anos, e embora considere que não foi um relacionamento “de mentira”, ela não era tão feliz quanto poderia ser.

“As coisas começaram a mudar quando algumas meninas lésbicas e bissexuais entraram no meu time de futebol. A convivência com elas me fez ver que sentir atração por mulher não era algo absurdo, que poderia ser algo leve. Mas eu sabia que eu tinha que me aceitar primeiro e naquela época, eu refletia muito sobre o que as pessoas iam pensar”.

Contar para a família não foi algo simples, mas por já ter outros familiares com orientações sexuais distintas do “padrão”, Luisa se sentiu mais confiante. Aceitou ir para a terapia a pedido da mãe, que pensava que ela poderia estar sendo influenciada, mas, no processo, descobriu que esses desejos eram mais antigos do que ela mesma reconhecia.

“Hoje não sinto mais atração por homens, mas não descarto a possibilidade de me apaixonar por um, ou por qualquer outra pessoa, no futuro. Me enxergo como lésbica, mas daqui dois anos, não sei. Tenho que pensar o que vai me fazer feliz”, analisa.

“Para mim, sempre foi tranquilo”

Já para Fernanda Trombini, de 22 anos, a mudança de interesse foi inesperada, mas tranquila.

“Eu me rotulava como hétero, mas sempre deixei aberto que se um dia gostasse de uma menina, aceitaria tranquilamente. Só que até alguns anos atrás, nem olhava para meninas, realmente não me interessava”, lembra.

Ela já era amiga de Nicole, sua namorada atual, há anos, quando as duas trocaram beijos em uma brincadeira de “verdade ou desafio”.

Fernanda, à frente, com a namorada Nicole (Foto: Arquivo pessoal)
Fernanda, à frente, com a namorada Nicole (Foto: Arquivo pessoal)

“Depois, ficamos de novo, fora de qualquer brincadeira dessa vez. Ela veio perguntar no dia seguinte como eu estava me sentindo, e para mim sempre foi muito tranquilo. Deu certo entre nós e eu deixei rolar”, conta.

Quando já estavam mais envolvidas, Fernanda conta ter decidido compartilhar com seus pais. “Minha mãe não aceitou bem, mas apesar de nunca tentar proibir nada, minha namorada não frequenta os mesmos lugares que ela. Já meu pai foi mais apoiador, conversou bastante comigo”.

Hoje, ela afirma manter, com naturalidade, a mesma posição de quando se considerava hétero. "Nunca me envolvi com uma pessoa transexual, por exemplo, mas se um dia alguém despertar meu interesse, não será um problema, de forma alguma”, ressalta.

A rede de apoio

Qualquer tipo de descoberta em relação a gênero, orientação sexual ou sexualidade em geral pode gerar angústia se a pessoa não encontra apoio no ambiente onde está inserida. “Há estudos que mostram que o sofrimento não é causado por essa pessoa ser diferente do que se espera que seja o ‘tradicional’, mas sim pelo preconceito dos outros”, aponta a mestre em Psicologia Social, Ivani Oliveira.

A especialista reforça a importância do acolhimento na área da saúde, sobretudo na da psicologia, que, de acordo com ela, tem seguido um modelo de saúde integral e alicerçada pela autonomia e autoafirmação de cada indivíduo.

“Se os profissionais de psicologia não estiverem preparados, terão que se preparar. Já há conjuntos de resoluções que estabelecem normas para a atuação profissional referente ao atendimento de pessoas não monossexuais. Existe o desafio da atualização, mas a vida, a cultura, a formação das identidades... Tudo isso é dinâmico, então é uma parte importante”, pontua.

A importância de se reconhecer no outro

Na opinião de Lúcia Alves da Silva Lara, da FEBRASGO, é importante que pessoas públicas compartilhem essas mudanças de identidade, identificação e desejos. “Muitas pessoas se compreendem de uma certa forma a partir do momento que assistem outras dando um relato, então, é importante, sim, que exista. E não há nenhum estudo comprovando que isso torne alguém que não é de uma certa forma [transexual, por exemplo] a vir ser só por ter visto outra pessoa”, ressalta.

A especialista reforça, ainda, a importância que o discurso informativo de profissionais de saúde tem para explicar como essas questões acontecem do ponto de vista científico, assim como as diferenciações de nomenclaturas. “Vai ajudar para que a compreensão seja facilitada e [para] diminuir a polarização”, conclui.