Sexo não é tabu na terceira idade: “A menopausa é vista como um hiato na vida da gente”

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Sexo não precisa ser tabu na terceira idade (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)
Sexo não precisa ser tabu na terceira idade (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)

Depois de sofrer com inúmeras traições, Isabel Dias, 66, resolveu se separar e começar uma nova vida. Isso incluía criar um perfil em aplicativos de namoro, sair com homens e descobrir sua sexualidade mesmo estando mais velha. “Fiquei casada 31 anos e quando fui traída, ainda sentia culpa. Nós, mulheres, nos culpamos por tudo. Adoramos sentir culpa”, afirma a escritora.

E se para alguns a ideia de conhecer gente nova estando na terceira idade parecia loucura, para ela, foi libertador. Depois de vários encontros, ela pôde explorar o seu lado sexual que tinha sido esquecido havia muitos anos. Isabel ainda resolveu conhecer o próprio corpo, o que ainda é muito tabu entre as mulheres, principalmente nesta fase da vida. “A menopausa é vista como um hiato na vida da gente”, diz.

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Diante de muitos dates (encontro em tradução livre), ela começou a escrever alguns contos eróticos e detalhar as saídas que estava tendo com os homens que conhecia. “É engraçado, uma adrenalina e voltar à fase de paquera, que não fazia há mais de 30 anos, foi uma adolescência na velhice”, relembra encantada.

Todos os relatos eram guardados nos papéis, até que um dia ela compartilhou os contos com o filho e ele reconheceu que o personagem era a própria mãe. “Ele disse que era eu e neguei. Mas como ele é jornalista, me encorajou a escrever mais, revisou meus textos e publiquei um livro com as histórias”, relembra.

A princípio, a ideia era um pouco assustadora e ela pensava como uma pessoa de 60 anos vai se expor e contar suas aventuras sexuais. Mesmo assim, ela não desistiu e a obra literária deu tão certo que Isabel resolveu apostar em título empoderado: “32. Um Homem para cada ano que passei com você” (editora Boa Prosa). Depois disso, foram muitas cópias vendidas e convites para participar de programas de TV e debates sobre o tema nas redes sociais.

Por que sexualidade ainda é tabu na terceira idade?

Assim como Isabel, muitos idosos têm vergonha de falar abertamente sobre sexo e se retraem quando saem de relacionamentos longos.

Sem tabu

Entender que o corpo demora para entrar no ritmo é o primeiro passo e não o fim (Foto: Getty Images)
Entender que o corpo demora para entrar no ritmo é o primeiro passo e não o fim (Foto: Getty Images)

Claro que é normal sentir-se um pouco perdido ou desacostumado em começar algo novo com uma pessoa, mas a idade não é e nem deveria ser impeditivo para retomar a vida sexual. “De uma certa maneira, ainda persiste a ideia que a atividade e práticas sexuais estariam reservadas aos mais jovens, como se estar com mais idade representasse uma desvantagem e, portanto, menos "capazes", explica Giancarlo Spizzirri, psiquiatra, doutor em ciências da saúde pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP).

Débora Padua, sexóloga e fisioterapeuta pélvica, também destaca que o preconceito e estereótipos em relação ao sexo na terceira idade ainda é mais persistente com o gênero feminino.

Para a especialista, ainda há muito machismo nos julgamentos, mesmo quando falamos de uma mulher mais velha, independente e livre. Muitas vezes, as pressões vêm delas mesmas. “Até as próprias mulheres têm uma dificuldade de aceitação. Principalmente por questões corporais”, diz.

E mesmo a mulher tendo uma baixa de hormônios e convivendo com a menopausa, ainda é possível usar artifícios para melhorar o prazer, lubrificação e até a libido. “Algumas pacientes reclamam do ressecamento vaginal, mas hoje em dia há muitos hidratantes, lubrificantes." 

Como voltar a enxergar o sexo na vida

Descobrir uma sexualidade, seja acompanhada ou sozinha, pode demorar algum tempo, mas pode ser feita. O primeiro passo para a mulher se sentir confortável é procurar um ginecologista para fazer exames, ver se o canal vaginal está sem problemas ou se precisa de algum cuidado. Não tenha vergonha de cuidar da saúde íntima nesta fase.

Se o momento for muito difícil e com muitas barreiras, tente procurar uma psicoterapia para falar abertamente sobre os medos e anseios nesta fase de retomada. “Aos poucos, ela vai entender que se encontrar e estar com outras pessoas”, afirma Padua.

Por último, procure grupos que tenham interesses em comum e procure voltar a conviver com as pessoas. A solidão pode ser bem prejudicial para o público da terceira idade. Lembrando que não há regras, e a pessoa deve fazer o que sente vontade e o que deixa mais confortável. “Eu diria que para todos que enfrentam situações como essa, procurem seus pares”, destaca Spizzirri, que também faz parte do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas.

Por outro lado, o psiquiatra faz ressalvas e também pede um pouco de cautela nesse processo. “Quando pensamos nisso as políticas públicas de saúde precisam estar atentas às necessidades daqueles que com mais idade enfrentam problemas como simplesmente andar em calçadas que não os farão cair, por exemplo”, alerta o psiquiatra.

Masturbação na terceira idade

Para ajudar no processo, também é possível conhecer o próprio corpo e dar espaço para o que, de fato, descubra o que dá prazer.

De acordo com os especialistas, muitas mulheres passam a vida inteira sem conhecer o próprio corpo. Já outras mentem e escondem que não se tocam, principalmente pelo tema ainda ser tabu na sociedade. “A sexualidade é um direito humano fundamental, ela está relacionada intimamente com a nossa existência/experiência de vida, cada vez as pessoas com mais idade estão se apropriando desse direito fundamental”, reforça o psiquiatra.

Não precisa ser algo mandatório, mas caso tenha vontade e curiosidade não há problema nenhum. Muito pelo contrário: ajuda a potencializar os prazeres do corpo e a deixam mais livre para experimentar com o parceiro. “Para aquelas que nunca fizeram, elas podem ter ótimas sensações com o próprio corpo, caso ela não queira ter um prazo. O corpo com o sexo funciona, seja a pessoa acompanhada ou sozinha”, conclui a sexóloga.

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