Sexo entre Jove e Juma é oportunidade perdida de falar sobre educação sexual na TV

Jove e Juma transam em
Jove e Juma transam em "Pantanal" (Reprodução Globo)

Após três meses de "Pantanal", o público finalmente assistiu a esperada cena de sexo entre Jove (Jesuíta Barbosa) e Juma (Alanis Guillen). A repercussão deixou os fãs da novela divididos: embora muitos tenham elogiado a atuação dos atores, o texto com riqueza de detalhes causou constrangimento e questionamentos sobre a verossimilhança da cena.

O que chamou a atenção, entretanto, é a decisão do autor Bruno Luperi de não atualizar o roteiro original de Benedito Ruy Barbosa. Assim como na versão de 1990, os personagens transaram no rio e posteriormente na tapera, e Juma teve muito medo de aproveitar o momento de amor com o namorado pelo receio de engravidar. O mesmo aconteceu com a mãe da jovem, Maria Marruá, que na primeira fase da novela fez uma greve de sexo com o marido por medo de engravidar após ter três filhos assassinados pela grilagem no Paraná. Eventualmente, Maria cede, e acaba engravidando de Juma.

Assim como na cena de Maria Marruá, em nenhum momento a trama discute o uso de métodos contraceptivos, muito menos a soberania e conhecimento do próprio corpo que muitas mulheres são negadas por falta de informação e acesso à políticas públicas de saúde. Juma acha que não existe opção: para ela, ceder a seu desejo significa obrigatoriamente estar pronta para ser mãe, como se ela não pudesse fazer sexo apenas por prazer.

A trama também acaba falhando em outro ponto: Jove passa grande parte da segunda fase da novela ensinando Juma e trazendo a ela informações que lhe foram negadas, como acesso à leitura e escrita. Por que o personagem, então, não se pronuncia sobre um assunto essencial como educação sexual?

Antes de transar com Jove, Juma tem uma conversa com o Velho do Rio, e explica a ele que tem medo de ter um filho pelo histórico trágico que aconteceu com sua família. "É da tua natureza. Tá no teu caminho, como tá no caminho de toda árvore dar fruto. Não tem motivo para você lutar contra. Eu não morri no fogo porque tinha que estar aqui para receber um filho seu", dirá. "Pra ver uma 'cruza' do sangue dos Leôncio com Marruá! Me dá esse bisneto. Aceita o seu destino. Bota ele nas minhas mãos e me deixa cumprir o meu", responde a entidade.

Novamente, o discurso é problemático, já que nem toda mulher precisa ter filhos para ser feliz. Na coletiva de imprensa de "Pantanal", Jesuíta Barbosa e Marcos Palmeira (que interpreta José Leôncio) falaram que a trama está comprometida em trazer a essência da história original com atualizações necessárias, e o mito da maternidade compulsória acabou passando batido na hora de escrever o roteiro do remake.

Oportunidade perdida

Jove e Juma discutem após transa (Reprodução Globo)
Jove e Juma discutem após transa (Reprodução Globo)

A cena de sexo entre o casal protagonista era o momento ideal para falar de educação sexual, especialmente em um país no qual o tema ainda é tabu. Sem uma lei que obrigue o assunto a ser discutido de forma aberta e sem julgamentos nas escolas, o acesso a esse tipo de informação é ainda mais difícil. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, conduzida pelo governo brasileiro, mostra que 27% dos estudantes do ensino fundamental já tiveram relações sexuais, o que torna a educação sexual um tema ainda mais urgente. A chegada da informação é ainda mais difícil em zonas rurais isoladas, caso dos personagens de "Pantanal".

"É de fundamental importância discutir educação sexual na TV. Hoje, temos uma enorme parte da população que tem acesso a no mínimo um conteúdo digital, e a televisão é o principal deles. Do mesmo jeito que a televisão promove a sexualidade, precisa promover a educação sexual. Isso tem um impacto enorme na saúda da mulher, especialmente em termos de contracepção. É essencial que possamos trazer informação sobre contracepção e prevenção de DSTs, especialmente para meninos e meninas que estão começando a vida sexual", explica o Dr. Wagner Hernandez, mestre em obstetrícia pela Universidade de São Paulo (USP).

Estudos voltados para a população brasileira mostram que a falta de acesso à educação sexual impacta de forma desproporcional a vida das mulheres. De acordo com um estudo da Universidade de São Paulo conduzido em 2020, cerca de 55% das brasileiras nunca tiveram um orgasmo durante o sexo, e 74% das mulheres gozam apenas quando se masturbam sozinhas. Mulheres também encontram dificuldades na hora de falar abertamente sobre sexo, especialmente com seus parceiros.

"Mesmo no consultório particular, ainda vejo um percentual enorme de mulheres que não têm conhecimento de sua fisiologia e não conseguem ter uma vida sexual plena. Muitas mulheres até hoje não sabem o que é atingir um orgasmo. Existe muito a ser ensinado", afirma o médico.

Nos próximos capítulos de "Pantanal", a falta de educação sexual afetará Juma novamente quando a jovem descobrir que está grávida de Jove. "Educação sexual também é falar do acolhimento emocional dessa gestante, de acesso ao pré-natal. Sem informação, educação e acesso, teremos gestações de risco para a população, especialmente as mulheres que vivem longe de grandes centros", completa o especialista.