Sexo e pandemia: mulheres querem viver o novo e gozar virou peça fundamental para saúde

O sexo e prazer para mulheres ainda é tema delicado e um tabu cultural. (Foto: Getty Creative)
O sexo e prazer para mulheres ainda é tema delicado e um tabu cultural. (Foto: Getty Creative)

Se uma gozando é bom, todas gozando é melhor ainda! O sexo e prazer para mulheres ainda é tema delicado e um tabu cultural, principalmente nesse momento "pós pandemia". O confinamento passou, mas deixa suas marcas, e a reabertura de eventos, comércio, entre outros, segue progressiva. Vivemos em um limbo. Teve quem recorreu aos aplicativos, ao sexting (conversas picantes e compartilhamento de conteúdos eróticos) e aos brinquedos. Teve também quem reformulou o relacionamento e descobriu novas facetas de si.

Um estudo produzido pelo Instituto Kinsey, dos Estados Unidos, sobre sexo pós-pandêmico, mostra que a vida sexual de 30% das mulheres entrevistadas melhorou. O número é pouco. Isso significa que pelo menos 70% não se sentem completamente satisfeitas.

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A compra de vibradores aumentou no Brasil durante período de quarentena. (Foto: Getty Creative)
A compra de vibradores aumentou no Brasil durante período de quarentena. (Foto: Getty Creative)

Ainda precisamos enfrentar barreiras social e cultural para sentir prazer

Medo, culpa e vergonha são sentimentos comuns para quem cresceu e foi criada em uma educação conservadora. Falar abertamente sobre sexo e admitir tudo de positivo e negativo que envolve o tema ainda é tarefa árdua. O ponto principal é: precisamos mudar essa perspectiva, e mudar por nós mesmas, não somente pelo outro.

Quem dá o conselho é a sexóloga Mariana Oliveira. Ela atende, em média, 15 pessoas toda semana, e costuma receber mulheres que querem melhorar o desempenho por causa do parceiro - algo que ela combate e trabalha. “Tem avanço (no tema) porque mulheres têm se aproximado do assunto, mas ainda é difícil. Existe a ideia de que tem que fazer sexo, gostar de sexo, ter orgasmo”, pontua.

Gozar não pode ser a única finalidade da relação, apesar de ser um ponto bastante apreciado. O que defendemos aqui é a descoberta por completo de nossos corpos, gostos e limites. Até chegar lá, pode ser possível recorrer a diversos especialistas. O físico e o mental precisam estar de acordo. “A gente tem um problema por causa da nossa educação sexual. É preciso entender que é normal perder ereção, por exemplo. Quanto mais ansiosa a pessoa fica, pior vai ser. É preciso buscar informações sobre o corpo, buscar ginecologistas, buscar atendimento psicológico”, lista a profissional.

“Passei a ver sexualidade como prioridade e gozar virou peça fundamental da saúde física e mental”

Se for para falar de reconexão e recomeços, a Auxiliar de Biblioteca Adline Alves viveu muito disso na pandemia. Ela já sentia-se desconectada de sua sexualidade havia um tempo, tanto por questões relacionadas à religião e também “por estar acomodada em um relacionamento que, apesar de bom e saudável, sofreu bastante com as mudanças de rotina da pandemia”, explicou ao Yahoo.

Nesses quase dois anos de Covid-19, a jovem de 25 anos teve a possibilidade de mudar alimentação, rotina de sono, exercícios e visual, o que desencadeou a vontade de estar mais confortável consigo mesma e “viver uma vida que faça mais sentido dentro de quem quero ser”.

“Passei a ver sexualidade como prioridade, pois a libido baixou muito e afetou o ânimo em várias áreas, não só no relacionamento com meu parceiro. Comecei a ver meu corpo como potência em todos os âmbitos e gozar como peça fundamental da saúde física e mental”Adline Alves

Adline ainda traz outro ponto importante: a missão de estar bem não é uma jornada individual. “A relação das mulheres com o sexo tem interferência direta da sociedade que a gente vive. Sem entender os contextos a que estamos submetidas, passamos a ver o tema com peso, julgamentos, medo e culpa que travam esse autoconhecimento”.

Adline criou uma nova e melhor relação com seu corpo e descobriu no relacionamento não-monogâmico uma outra perspectiva de felicidade. (Foto: Arquivo Pessoal)
Adline criou uma nova e melhor relação com seu corpo e descobriu no relacionamento não-monogâmico uma outra perspectiva de felicidade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Medo e culpa são palavras que se repetem não somente nesse texto, mas também nas consultas da sexóloga Mariana Oliveira. Ao Yahoo, ela ainda revelou dois recortes interessantes nos seus atendimentos: a maioria das consultas vem de casais e parte das mulheres trazem consigo uma criação religiosa e pouco desconstruída - “apesar de que uma ideia progressita de sexo pode não fazer sentido para algumas mulheres”, como fez questão de reiterar.

Mariana e Adline concordam em uma questão crucial: é preciso disseminar informação de qualidade sobre sexualidade. Para a jovem, estudar sobre o tema foi um divisor de águas. “Primeiro entender o contexto histórico-cultural de tanta coisa negativa envolvendo a sexualidade feminina, para depois ir me conectando com isso de forma mais sentimental e íntima. Não sei se faz sentido para todo mundo, mas me libertar dessas amarras da culpa cristã e entender que foram narrativas criadas para controlar nossos corpos me deixou mais confortável para explorar o meu prazer”, confirma Adline.

“Gosto muito de consumir textos e podcasts de literatura erótica feito por mulheres, que tiram um pouco do foco no pênis e trazem situações onde a mulher consegue se relacionar melhor. Além disso, criei uma rotina que envolve momentos sozinha para se tocar, se masturbar, apreciar o próprio corpo e criar ambientes de relaxamento onde o foco é somente nosso prazer”.Adline Alves

A sexóloga, por sua vez, resolveu criar uma página sobre o tema. O “Sexologia em Diálogo” tem mais de seis mil seguidores e fala sobre tudo que envolve a sexualidade,

O que elas querem? O novo!

A verdade é que tornar o momento íntimo mais criativo e prazeroso virou uma demanda urgente! Pode começar pelo simples mesmo, como uma lingerie bonita e sensual, ou abusar das novidades eróticas (e exóticas) do mercado.

Na quarentena, só no Brasil, houve um aumento de 50% na venda de vibradores e mais de um milhão de itens foram vendidos, de acordo com dados levantados pelo MercadoErotico.org.

A fotógrafa Tamara Lopes já tem sua rotina bem desenhada. Fim da tarde e o comecinho da noite são os momentos preferidos da mulher, que às vezes usa alguns brinquedinhos, mas foca mesmo em estar relaxada e confortável. “Masturbação é outra questão bastante delicada quando é falada com mulheres: diferentemente dos homens que são estimulados desde cedo a se tocar, nós mulheres não podemos nem falar sobre isso sem que haja um julgamento”, pontua.

Tamara sabe bem que o corpo da mulher é constantemente alvo de uma série de coerções, mas entende que “é preciso se conhecer antes mesmo do outro conhecer o nosso corpo”. Aos 30 anos, preta e bissexual, Lopes foi uma das que experimentou aplicativos de relacionamento e conseguiu transformar o medo em coragem.

“Quando eu era mais nova, era muito difícil falar o que eu gostava ou não de fazer no sexo. Na verdade eu nem conhecia meus gostos direito. Agora, já é mais tranquilo falar sobre. Pelo o que tenho vivido, percebo que outras mulheres que conheço também estão nesse movimento de autoconfiança com o próprio corpo e com o lidar com o corpo do/a/e outro/a/e”Tamara Lopes

Questão geracional

A dificuldade de falar sobre sexo pode ser sim uma questão geracional. Pense na mulher mais próxima que fez parte de sua criação: ela falava abertamente sobre o tema? Quantas não carregam traumas e preferem tirar o sexo de sua vida para sempre?

A violência sexual deve ser considerada na hora de falarmos sobre o assunto, especialmente quando a houve aumento da violência doméstica na pandemia.

Onde procurar ajuda

Disque 100 – Vítimas ou testemunhas de violações de direitos de crianças e adolescentes, como violência física ou sexual, podem denunciar anonimamente pelo Disque 100.

Disque 180 – Em casos de violência contra mulheres e meninas, seja violência psicológica, física, sexual causada por pais, irmãos, filhos ou qualquer pessoa. O serviço é gratuito e anônimo.

Polícia 190 – Se presenciar algum ato de violência, acione a Polícia Militar por meio do número 190. Também é possível acionar as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher e as de Proteção à Criança e ao Adolescente da sua cidade.

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