Seu Jorge e Daniel Jobim estreiam turnê que homenageia obra de Tom

JOÃO PERASSOLO
**ARQUIVO** PORTO ALEGRE, RS, 07.03.2020: Imagem do show em homenagem a Tom Jobim com seu neto, Daniel Jobim, e Seu Jorge. (Foto: Edu Defferrari/Folhapress)

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - As cortinas se abrem e revelam a silhueta de quatro músicos iluminados no contra-luz por holofotes gigantes dispostos estrategicamente no palco. Todos vestem terno e gravata, e um deles porta um chapéu-panamá --uma referência ao homenageado da noite, Tom Jobim.

"Fundamental é mesmo o amor / É impossível ser feliz sozinho", abre a apresentação a voz grave e rouca de Seu Jorge, dando timbre novo à uma das músicas brasileiras mais executadas da história, "Wave". Ele é acompanhado pelo piano de cauda tocado por Daniel Jobim, neto de Tom e o outro anfitrião da noite.

A dupla estreou no sábado (7), no teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, um show no qual interpretam 20 músicas do cantor e compositor carioca que, se estivesse vivo, teria completado 93 anos em janeiro. A locação, com cortinas, poltronas e carpete vermelhos, deu um clima de cabaré à apresentação. Só faltou o tradicional charuto de Tom.

A ideia para o show veio de um encontro casual de Seu Jorge com Daniel Jobim em uma calçada do Rio de Janeiro: um chegava de táxi e o outro esperava um Uber na saída do aniversário de Dedé Veloso, primeira mulher de Caetano Veloso.

Seu Jorge voltou para São Paulo e ficou com o pensamento de fazer uma parceria com Daniel. Dias mais tarde, Paula Lavigne intermediou a conexão. Seguiram-se dois meses de ensaios na capital paulista até a estreia.

À exceção de "Ligia" e "Garota de Ipanema", interpretadas em equilíbrio pelos dois juntos, nesta apresentação inaugural Seu Jorge ofuscou quase totalmente Daniel Jobim.

O músico de Belford Roxo cantou com naturalidade e sem esforço, seguro de si. Passou metade do show sentado, de pernas cruzadas, e ainda assim roubou a cena. Em outras palavras: Seu Jorge, 49, traz para o palco a voz e a presença adquiridas em décadas como ator e cantor.

Seu timbre é o da Luta de Marighella e de Mané Galinha, do filme "Cidade de Deus",  junto à versatilidade vocal que empregou em "Cru", um dos discos que definiu o samba contemporâneo brasileiro.

Já Daniel Jobim, 46, é uma espécie de personagem clone do avô: ele canta de maneira intimista, como Tom, toca piano lindamente e tira e põe o chapéu-panamá em diversos momentos do show. Quem olha da plateia, na contraluz, às vezes esquece que quem está ali não é o compositor que eternizou em música a zona sul carioca, e sim um herdeiro.

Mas confundir e fazer a plateia sonhar parecem ser os objetivos do espetáculo, que chegará a São Paulo em junho antes de passar por Portugal. "As pessoas ainda tem uma relação muito forte com a música do Tom. A gente quer que elas esqueçam o coronavírus e os problemas de polarização", disse Seu Jorge em entrevista para a imprensa no sábado, mais cedo, respondendo à uma pergunta de como as letras otimistas de Tom se encaixam no Brasil de hoje.

"As pessoas precisam de amor, e o amor é um escapismo mesmo para esquecer todos os problemas", completou Daniel Jobim. No palco, isso se traduz em uma série de clássicos da bossa nova --"Chega de Saudade", "Águas de Março", "Eu Sei Que Vou Te Amar"-- executados com pegada mais jazz do que samba, pois a dupla tem como base um contrabaixista e uma baterista que parecem transportados de um disco do Frank Sinatra.

Vale mencionar ainda a iluminação precisa de Eric Bertti, um show à parte que em determinado momento se valeu de um globo de espelhos no piso do palco cujo efeito foi gerar pontos brancos como se fossem estrelas no teto do teatro; e as projeções abstratas no fundo do palco, que deixaram tudo mais elegante ao dispensar imagens clichê do Rio de Janeiro.

"Para mim, cantar Tom Jobim é a busca pela beleza", afirmou Seu Jorge, acrescentando que um dos objetivos do espetáculo é mostrar a obra do compositor para a juventude que não teve chance de vê-lo ao vivo.

Tomara mesmo que os jovens --e não apenas seus pais e avós, como no show da capital gaúcha-- se disponham a descobrir Tom por uma das mais belas vozes brasileiras em atividade.